26 de junho de 2026

Semana Euclidiana: Dr. Galotti (2), por Walnice Nogueira Galvão

O dr. Galotti deixou em testamento toda a sua preciosa coleção – a maior do mundo - para o Centro Cultural Euclides da Cunha.
Euclides da Cunha

Dr. Galotti liderou defesa da ponte de Euclides da Cunha nos anos 80, garantindo seu reforço estrutural em São Paulo.
Reuniu importantes euclidianos para debate em São Paulo, com apoio da Editora Ática e participação de especialistas de várias regiões.
Deixou em testamento sua coleção para o Centro Cultural Euclides da Cunha; Instituto Oswaldo Galotti mantém sua memória ativa.

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Dr. Galotti (2), por Walnice Nogueira Galvão

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O dr. Galotti continuaria atento àquilo que considerava seu dever de guardião: a memória de Euclides da Cunha. Nos anos 80, quando apareceram sinais de rachadura na velha ponte, moveu céus e terras, criando uma celeuma em defesa. Buscando maior repercussão, promoveu em São Paulo um evento tendo por título “A ponte de Euclides: monumento nacional ameaçado”. Convocou-me para várias atividades, inclusive uma mesa-redonda, que presidiu, para falar sobre a importância da ponte de Euclides. Mais uma missão levada a bom termo: a ponte teve sua estrutura reforçada.

A certa altura, tive a oportunidade raríssima de reumir alguns dos mais importantes euclidianos para uma mesa-redonda em São Paulo, já que a Editora Ática, na pessoa de seu proprietário Anderson Dias, apoiava a iniciativa. Foram eles: o dr. Galotti, naturalmente; e mais José Calasans, historiador baiano e maior autoridade em Guerra de Canudos; o euclidiano fervoroso Antonio Houaiss; e Franklin de Oliveira, autor de um livro erudito e fundamental:  Euclides: a espada e a letra. Calasans veio de Salvador, os dois últimos do Rio de Janeiro. Era o que se poderia chamar um naipe ímpar. É claro que se engalfinharam, discutiram com calor durante algumas horas e disseram coisas preciosas. O debate foi gravado e seria tornado público no livro Euclidianos e conseleiristas.  

Ninguém mais qualificado que o dr. Galotti para ser meu parceiro no preparo da correspondência de Euclides. Incomodava-me  que ele sempre se mostrasse disposto a ajudar os outros e fazer a pesquisa de base de trabalhos alheios, sem que seu nome figurasse como co-autor. Assim labutamos por largo período de tempo, do início à edição decorrendo 8 anos. Mas foi um prazer trabalhar com alguém tão dedicado – e lá está seu nome na capa do livro. É um nome que ressuma espírito democrático e modéstia, de um trabalhador avesso a honrarias e prebendas. E a Semana continua firme, em seu papel único de monumento à memória de um escritor.

O dr. Galotti deixou em testamento toda a sua preciosa coleção – a maior do mundo – para o Centro Cultural Euclides da Cunha, que assim se tornou a meca dos estudiosos brasileiros e estrangeiros.

Hoje existe o Instituto Cultural Oswaldo Galotti, com portal que pode ser consultado, dedicado à memória e dando continuidade aos feitos deste cidadão benemérito.

EXCERTOS DO DEBATE

OSWALDO GALOTTI

Viria, então, de início, uma interrogação: mas qual era o sentido da vida de Euclides, quer dizer, o que Euclides pretendia, ou ainda mais: qual era o rumo de Euclides, qual era o objetivo? Se a gente quiser complicar um pouco mais: qual era a ideologia de Euclides? Ou ainda mais: como Euclides via o mundo? Nós já chegamos à conclusão de que os temas de Euclides são temas universais.

ANTONIO HOUAISS

E obviamente a leitura que fiz naquele então, deu-me apenas uma medida, ou duas. Primeiro, eu degustava a língua portuguesa, e pela primeira vez, naquilo que ela tem de cadenciado, de rítmico, de racional, de … inebriante, tanto quanto, repito, o elemento de logicidade com que o homem pode enfrentar os seus problemas.  Era talvez o primeiro livro de ensaismo que eu lia, e sei que me marcou definitivamente.

FRANKLIN DE OLIVEIRA

Acho que, realmente, um estudo dessa ordem, não é?, pegaria o Euclides, inclusive o Euclides geógrafo! Porque seria preciso verificar qual é a ciência que chega ao Brasil na época, compreendem? Mas a ciência, já do final do século XIX, começo do século XX, não era toda a ciência reacionária a que ele se agarrou. Não era exclusivamente essa, de maneira que todos os autores em que ele se abeberou, fartamente, sem nenhum, sem procurar discernir criticamente o que estava engolindo, formavam essa ciência reacionária.

JOSÉ CALASANS

… mas o termo que Euclides usa é bem preciso: degolavam. Agora, uma indagação minha. Até que ponto o livro de Euclides teria servido à guerra de Antonio Conselheiro? Se não fosse o Euclides, nós teríamos as mesmas condições para avaliar o que foi aquele movimento do Conselheiro? Porque o Conselheiro,  vítima das contradições do Euclides: o Conselheiro fica preso no que eu chamo “a gaiola de ouro de Os sertões.”

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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