As eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos podem reduzir o espaço para uma interferência mais intensa do governo Donald Trump na eleição presidencial brasileira de 2026. A avaliação é da economista Monica de Bolle, que acredita ser improvável que a Casa Branca ignore a disputa no Brasil, mas considera que a prioridade política de Trump será garantir a sobrevivência de seu próprio governo diante do desgaste enfrentado pelos republicanos.
A análise foi feita durante entrevista ao programa TV GGN 20 Horas [confira abaixo]. Segundo Monica, embora o entorno de Trump, especialmente figuras como o secretário de Estado Marco Rubio, deva continuar acompanhando de perto o cenário político latino-americano, a coincidência entre as eleições brasileiras e as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos tende a deslocar o foco da administração americana para seus problemas domésticos.
“A essa altura, estão configurando uma retomada da Câmara pelos democratas, e a situação não está muito fácil para o Trump e para os republicanos. Então eu me pergunto se de fato vai haver o mesmo ímpeto em relação às eleições brasileiras que nós vimos em outros países, já que Trump e seu partido estarão tentando sobreviver a um pleito que será bastante complicado para eles.”
O resultado na Colômbia
O tema surgiu a partir do resultado da eleição na Colômbia, que deu vitória à ultradireita com o nome de Abelardo de la Espriella. A jornalista Lourdes Nassif, que mediou a entrevista desta vez, questionou Monica sobre o cenário.
Em resposta, a economista afirmou que o resultado refletiu muito mais o desgaste do governo de Gustavo Petro e o avanço de uma alternativa identificada com o trumpismo do que propriamente uma intervenção direta dos Estados Unidos no processo eleitoral. Segundo ela, diferentemente do que muitos imaginavam, Washington não exerceu uma influência decisiva na disputa.
“O que aconteceu foi que havia um candidato francamente, abertamente alinhado ao governo norte-americano, um candidato que se posicionou como alternativa Trump para a Colômbia. Os colombianos que não queriam mais uma continuidade do governo Petro acabaram se voltando para esse candidato que apareceu como o novo. Nós vimos isso no Brasil com a ascensão do Bolsonaro.”
O aspecto que mais chamou sua atenção, porém, foi o desaparecimento de uma alternativa de centro. “O que mais me surpreende não é nem tanto a derrota do campo do Petro. O que me espanta é que havia uma candidata mais de centro, ligada aos uribistas, que poderia representar uma alternativa aos extremos, e ela simplesmente não conseguiu se colocar. Esse esvaziamento do centro, que a gente vê por toda parte, já vimos no Brasil e estamos vendo no mundo inteiro, é um ponto muito relevante.”
O Brasil já viveu essa experiência
Ao analisar o avanço da extrema-direita na América Latina, Monica afirmou que o populismo continua encontrando terreno fértil em sociedades marcadas pela insatisfação econômica e política. Na avaliação da economista, Argentina, Chile e Colômbia estão vivendo agora experiências semelhantes àquela enfrentada pelo Brasil na era Bolsonaro.
“Esses três países estão tendo pela primeira vez a experiência deles com esses trumpistas caricatos. Nós já tivemos a nossa. A gente vai querer um repeteco dessa experiência? Acho que, no atual momento, não é isso que nós deveríamos querer.”
Ela ponderou ainda que o descontentamento da população ajuda a explicar por que lideranças desse perfil continuam encontrando espaço eleitoral.
“Conversando com jovens colombianos, o que impera realmente é um senso de insatisfação que leva as pessoas, muitas vezes, a fazer um voto do qual depois vão se arrepender. Elas preferem votar num sujeito que tem todas as piores qualidades possíveis simplesmente porque ele aparece como o novo, com um discurso populista que acaba agradando uma parcela significativa da população. Eu espero que o Brasil tenha realmente aprendido alguma lição nos anos Bolsonaro. Eu fico assustada com a quantidade de gente que ainda quer um repeteco.”
Deixe um comentário