30 de junho de 2026

Nêga Dominga: A matriarca do Quilombo Mutamba, por Eduardo Pontin

Ela não deixa cair de sua comunidade os modos de vida quilombolas, apostando tudo o que tem na continuidade da cultura de seu povo.
Dona Dominga: orgulho em ser quilombola | Foto: Francisca Sousa

Nêga Dominga lidera o Quilombo Mutamba no Piauí, preservando a cultura e aguardando título oficial da terra quilombola.
Há 6 anos, revitaliza festejos católicos locais e constrói capela para fortalecer a fé da comunidade quilombola.
Ativista e cantadeira, mantém viva a tradição da Lezeira e promove eventos culturais para transmitir a ancestralidade.

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Série Piauí Cultura Regional (29)

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Nêga Dominga: A Matriarca do Quilombo Mutamba

Griô luta para dar continuidade à cultura de seus ancestrais

por Eduardo Pontin

Nêga Dominga (Maria Domingas Teresa dos Santos, 21/07/1969 – ) é uma guerreira. Nasceu e se criou no Quilombo Mutamba, que fica numa encruzilhada de Santa Cruz do Piauí com outros municípios, e hoje é, sem dúvida, a matriarca do lugar. Isso porque quando algum morador necessita de algo, é a Nêga Dominga a quem recorrem. Com sabedoria, a griô sabe muito bem que o alimento da alma é o que move o seu povo. Por isso, vem se desdobrando para não deixar cair em sua comunidade os modos de vida quilombolas, apostando tudo o que tem na continuidade da cultura de seu povo. Dia 1º de julho, o Quilombo Mutamba enfim vai receber o título de terra quilombola do Estado.

A Retomada da Fé: São Raimundo Nonato e São Gonçalo

Como boa matriarca, Nêga Dominga percebeu que o quilombo precisava retomar a cultura dos festejos do catolicismo popular que seus antepassados realizavam. Com a partida de Maria Daniel e Dona Ana de Antônio de Carlo, o Quilombo Mutamba deixou de festejar novenas.

Sentindo que as coisas não poderiam ficar assim, há 6 anos, Nêga Dominga passou a festejar entre 23 e 31 de agosto, a novena de São Raimundo Nonato, padroeiro da comunidade. Todas as noites os moradores da comunidade quilombola e região se reúnem para rezar Benditos puxados por Dona Dominga, numa renovação de fé admirável. O festejo reúne todos os moradores da Mutamba, incluindo jovens e crianças.

Inclusive, para dar alma nova a essa devoção, Dona Dominga mobilizou a comunidade para levantar recursos e construir uma capela. As obras andam devagar, já que o dinheirinho envolvido é curto, porém, a vontade dos quilombolas é grande e, de tijolo em tijolo, as paredes vão se erguendo e a fé vai se fortalecendo. Tudo por iniciativa de Nêga Dominga.

Capela está sendo construída graças à força de vontade de Nêga Dominga e a comunidade | Foto: Francisca Sousa

Além disso tudo, nos últimos anos, a griô vem atuando em outra frente, dessa vez, levando adiante o 3º Encontro de São Gonçalo, primeiro evento dessa natureza em todo o estado do Piauí. Emocionada, é a própria quilombola quem explica e convida a todos a participarem:

“Nós vamos ter dia 3 de julho o 3º Encontro de São Gonçalo. Eu queria até convidar a todos, se fosse possível. E aí a gente tá construindo uma gruta aqui pra colocar São Gonçalo dentro. Enquanto eu for viva, esse festejo vai acontecer aqui na Mutamba. A gente já tem o de São Raimundo Nonato, e esse de São Gonçalo também vai acontecer enquanto eu tiver viva aqui dentro da Mutamba. A gente fez camiseta, fez tudo. Eu acho que no Piauí, é o único Encontro de São Gonçalo, e esse nós já vamos fazer o 3º. A gente tá organizando um festejo de São Gonçalo bem bonito. A gente reúne as comunidades, cada uma trazendo o São Gonçalo e a gente faz aquela festa”.

A Lezeira no Sangue e o Legado de Nêgo Bispo

Ativista Quilombola, Nêga Dominga é discípula de Nêgo Bispo, com quem compartilhou inúmeros momentos de luta, quebrando as estradas do sertão piauiense para conscientizar os quilombolas de suas identidades e suas raízes. Hoje ela celebra, pois finalmente o Quilombo Mutamba irá receber a titulação de terra quilombola oficial.

Nêga Dominga é uma das mais ativas lideranças quilombolas do Piauí | Foto: Francisca Sousa

É notável o esforço vigoroso com que Nêga Dominga se doa para a continuidade da cultura deixada por seus ancestrais. Eu poderia gastar o verbo aqui pra tentar explicar a dimensão da importância de Nêga Dominga, mas nada como ela mesma expressar o seu amor à cultura de seus antepassados. Quando eu e a jornalista Francisca Sousa levamos Nêga Dominga pra se apresentar no SESC Parnaíba, onde aconteceu o lançamento do livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira” em 2024, a griô proferiu fala histórica, que sensibilizou a todos os presentes:

“Eu sou Nêga Dominga, eu sou do quilombo Mutamba, e sou da Lezeira, aonde lá a gente tem diversas culturas. Lá a gente tem a Lezeira, a gente tem o São Gonçalo, a gente tem várias culturas lá. Lá onde a gente mora é um quilombo, é um quilombo ainda bem… esquecido mesmo, bem pobre, as casas aonde a gente mora são casinhas lá de pau a piques, de taipa, mas mesmo assim a gente é feliz com a nossa cultura, porque a nossa cultura, quando a gente nasce, a gente já traz no sangue.

Quilombo Mutamba é resistência | Foto: Francisca Sousa

Porque Lezeira, quando eu nasci, ninguém me ensinou a dançar Lezeira. Quando eu fui crescendo eu já fui vendo, né, e já infuluí pra dançar, mas meu tio me tirou que eu era muito pequena, né, eu digo: ‘Mas um dia eu vou crescer e é isso que eu vou fazer’. E eu cresci, e hoje a gente tá na Lezeira. E lá no nosso quilombo a gente sempre se reúne e a gente sempre faz a Lezeira, né? E tudo que a gente vai fazer a gente envolve um pouquinho da Lezeira. Por exemplo, lá a gente tem um festejo que a gente festeja São Raimundo Nonato, mas a gente faz o nosso festejo, depois do nosso festejo a gente convida: ‘Vamô fazer uma roda de Lezeira’. E aí nós estamos aí fazendo a Lezeira, né, o São Gonçalo.

E eu quero dizer a vocês que isso pra gente é muito importante, porque é uma coisa que vem dos nossos antepassados, que a gente vem passando de geração em geração pra gente não ver a nossa cultura apagar, a nossa cultura cair. E aí a gente tá lá, fazendo a Lezeira acontecer. E aí as crianças já vão crescendo vendo, e a gente já vai envolvendo elas no nosso quilombo e elas também já são da Lezeira”.

Nêga Dominga fez fala emocionante no SESC Parnaíba

O Canto que Ecoa

Hoje Nêga Dominga é uma das mais destacadas cantadeiras de Lezeira e, numa noite desta brincadeira, quando abre a boca pra sapecar os seus versos, todos vão à forra, com a beleza de seu canto e a riqueza de seus versos. Dona Dominga faz parte da linhagem de uma tradição de canto que merece cuidado e respeito. Os cantos coletivos em que a mulher entoa uma oitava acima, cobrindo o lençol de vozes com um canto agudo arrepiante de se presenciar.

No Samba, esse canto era função das Pastoras nos primórdios das Escolas o que, no decorrer das décadas, foi se perdendo e hoje vem sendo retomado pelo Movimento Samba de Terreiro, nascido em São Paulo e que vem se espalhando para outros estados. Por isso o canto de Nêga Dominga precisa ser escutado com reverência e admiração, assim como necessita ser cuidado como uma flor, para que não se perca no vendaval do tempo.

Nêga Dominga solta a voz na roda de Lezeira | Foto: Francisca Sousa

Mas o papel de uma Mestra não é somente dominar os ofícios de sua arte, mas sim, antes de tudo, lutar para que a sua comunidade tome gosto pelos modos de vida de seus ancestrais e os prossiga praticando e os repassando, continuamente. E esse desafio Nêga Dominga encara como missão de vida, compensando a carência material onde vive com muito amor, muita garra e muita luta. A griô segue plantando com coragem e lirismo, para quando se encantar, as crianças do quilombo colherem os frutos que ela tão bem vem cultivando, haja chuva ou haja sol.

Nêga Dominga tem forte conexão com sua terra | Foto: Francisca Sousa

Eduardo Pontin é etnomusicólogo e escritor indicado ao Jabuti e premiado pelo Concurso Sílvio Romero do IPHAN por seus trabalhos sobre a Lezeira (dança afro-indígena piauiense) e o Samba de Cumbuca (Samba rural piauiense). No campo da preservação documental, é o organizador do Acervo Nêgo Bispo. Produtor fonográfico da série discográfica “Lezeira do Sertão do Piauí” (field recording).

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Eduardo Pontin

Eduardo Pontin é etnomusicólogo e escritor indicado ao Jabuti e premiado pelo Concurso Sílvio Romero do IPHAN por seus trabalhos sobre a Lezeira (dança afro-indígena piauiense) e o Samba de Cumbuca (Samba rural piauiense). No campo da preservação documental, é o organizador do Acervo Nêgo Bispo. Produtor fonográfico da série discográfica “Lezeira do Sertão do Piauí” (field recording).

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