4 de julho de 2026

Xadrez da CazéTV fora da Copa Brasil, por Luís Nassif

A busca da Globo pelo monopólio das transmissões dos principais torneios nacionais e da Copa não se ampara apenas em competência técnica
Reprodução

A Globo mantém controle histórico sobre a CBF, influenciando transmissões e calendário do futebol brasileiro.
Blocos regionais dominam a CBF; Ednaldo Rodrigues integra opositores para manter estabilidade política na entidade.
Apesar do Fifagate, Globo saiu ilesa, com investigações nacionais limitadas e cooperação internacional bloqueada.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Peça 1 — A Globo e a CBF

Encerrada a Copa do Mundo, a CazéTV medirá forças com a Globo em um terreno onde a rival é historicamente imbatível: o jogo político das confederações sediadas no Rio de Janeiro.

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A busca da Globo pelo monopólio das transmissões dos principais torneios nacionais e da Copa do Mundo não se ampara apenas em competência técnica — como costuma sugerir o marketing esportivo —, mas em raízes econômicas e políticas profundas. Esse poder financeiro pavimentou um quase-monopólio que garantiu à emissora o controle direto sobre calendários e horários de jogos, moldando o futebol ao ritmo da sua grade de programação.

O ápice dessa simbiose ocorreu sob a batuta de Ricardo Teixeira (1989–2012). Ao suceder o sogro João Havelange, Teixeira assumiu o comando do futebol brasileiro e nele permaneceu por quase três décadas. Sob sua gestão, a parceria com a Globo tornou-se orgânica: como detentora dos direitos de transmissão, a emissora injetava adiantamentos financeiros nos clubes e ditava os rumos do calendário, operando em perfeita sintonia com o poder político de Teixeira.

Um episódio emblemático ilustra a lógica de barganha desse arranjo. Durante as negociações pela exclusividade dos direitos da Seleção Brasileira, a Globo levou ao ar um Globo Repórter que expunha as entranhas da corrupção de Teixeira. Contudo, a investigação foi abruptamente engavetada nos dias seguintes — um recuo estratégico que lubrificou o desfecho do acordo comercial.

A célebre entrevista de Teixeira à revista piauí, em 2011, selou seu destino, mas revelou seu modus operandi: o dirigente admitiu que só se preocupava com denúncias quando elas ganhavam os holofotes do Jornal Nacional. Como apontava o jornalista Juca Kfouri, a “promiscuidade” entre a CBF, os tribunais cariocas e o Congresso Nacional — a chamada “bancada da bola” — funcionou como um escudo intransponível por mais de vinte anos.

A ironia da Lava Jato

Há uma contradição gritante nessa engrenagem: a mesma Globo que atuou como fiadora midiática da Operação Lava Jato e insuflou os protestos de 2015–2016 viu seus artistas irem às ruas vestindo a camisa da Seleção de Del Nero, Marín e Teixeira — enquanto a cúpula do seu próprio braço esportivo era citada nas investigações do FBI sobre o mercado de propinas do futebol mundial.

Continuidade pós-Teixeira

A queda dos patriarcas não ruiu a estrutura. Seus sucessores, José Maria Marín e Marco Polo Del Nero, foram tragados pelo Fifagate. O comando da entidade viu uma dança de cadeiras entre interinos (como o Coronel Nunes e José Perdiz) e eleitos (como Rogério Caboclo, defenestrado após denúncias de assédio). Essa crônica instabilidade na cúpula da CBF, contudo, jamais arranhou o contrato com a Globo, que se manteve como a principal parceira comercial do futebol brasileiro e dos torneios da FIFA no país.

Essa mesma lógica explica o movimento mais recente: ao abrir as negociações da Copa do Brasil (2027–2030) para gigantes como SBT, Record, Amazon, TNT Sports, Paramount e Disney, a CBF barrou deliberadamente a CazéTV, em meio a um desgaste de bastidores com a Livemode. É a velha arquitetura de poder operando sob nova roupagem, decidindo quem senta à mesa e quem assiste ao banquete do lado de fora.

Peça 2 — O Sistema de Poder na CBF

A geopolítica da CBF não se organiza em torno de projetos esportivos, mas sim por meio de blocos regionais de influência.

  • O Bloco Paulista: Liderado por Reinaldo Carneiro Bastos (presidente da Federação Paulista), historicamente rivalizou com o atual presidente, Ednaldo Rodrigues. Diante do afastamento temporário de Ednaldo em 2023, Bastos articulou o manifesto “Unidos por um novo futebol”, costurando o apoio de oito federações e trinta clubes — força suficiente para tomar o poder. Ednaldo, contudo, neutralizou a ameaça por meio da cooptação: em vez de combater o bloco paulista, integrou Bastos e seus aliados à sua vice-presidência.
  • O Bloco Fluminense: Conduzido por Rubens “Rubinho” Lopes (Federação do Rio), é o outro pilar de sustentação da atual gestão, sendo o responsável por pacificar a relação com os clubes cariocas, especialmente o Flamengo. A aliança Rio-São Paulo devolveu estabilidade à CBF após o turbulento período de Rogério Caboclo.
  • Os Remanescentes de Del Nero: Embora banido pela FIFA, Marco Polo Del Nero mantém uma rede silenciosa de influência nos corredores da CBF, a qual Ednaldo tenta desmantelar para evitar o contágio político de sua gestão.
  • A Oposição Institucional: Gustavo Feijó (ex-vice de Caboclo) encabeça a resistência jurídica. Ele questiona o peso desproporcional das federações estaduais nas eleições e aciona a Justiça para exigir que o futebol feminino — hoje sem direito a voto — tenha representação política na entidade.
  • O Fracasso do Outsider: Em 2025, Ronaldo Fenômeno ensaiou uma candidatura à presidência, mas naufragou antes da largada: 23 das 27 federações se recusaram a ouvi-lo. O episódio expõe a blindagem do sistema — sem o controle das federações estaduais, o capital simbólico internacional é inútil.

O Pano de Fundo Estrutural

Esse modelo remonta à fundação da CBF em 1979, quando a entidade se desmembrou da antiga CBD. Em vez de se democratizar, a confederação herdou os vícios do regime anterior, transformando-se em uma agência privada que gere um patrimônio coletivo em benefício de feudos estaduais. A dinastia Havelange → Teixeira → Marín/Del Nero → Caboclo → Ednaldo representa apenas o rearranjo de uma mesma premissa: quem domina as federações, domina o jogo. E para financiar essa engrenagem política, a CBF sempre necessitou de um parceiro de mídia robusto, capaz de irrigar o sistema com blindagem política, patrocínios e adiantamentos.

Peça 3 — A Globo e a Lava Jato

Um dos capítulos mais enigmáticos da história recente do país foi a capacidade da Rede Globo de atravessar a Lava Jato intacta, a despeito de estar no epicentro do maior escândalo de corrupção do esporte global.

O mercado esportivo nacional sustentava-se na simbiose entre as famílias Hawilla e Marinho. Por meio da Traffic, J. Hawilla sedia direitos de transmissão que inevitavelmente desaguavam na Globo. O vínculo comercial era cimentado por laços societários na TV TEM — rede de afiliadas em praças estratégicas do interior paulista —, que unia João Roberto Marinho e seus herdeiros diretamente ao empresário.

O Fifagate, deflagrado em 2015 pela justiça americana, expôs o mecanismo: um propinoduto de mais de US$ 150 milhões ao longo de duas décadas em contratos de mídia. J. Hawilla confessou os crimes e aceitou devolver US$ 151 milhões ao Tesouro americano. Em depoimento, o delator Alejandro Burzaco apontou o envolvimento direto de executivos da Globo, como Marcelo Campos Pinto.

Apesar de a Polícia Federal ter aberto investigações em parceria com o FBI, a blindagem nacional funcionou: o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF-RJ) engavetou o avanço sobre a emissora, permitindo que ela saísse inteira de um processo que destruiu as carreiras de Marín e Del Nero. Paralelamente, quando o Ministério Público da Espanha solicitou acesso ao inquérito brasileiro, uma decisão de primeira instância no Rio bloqueou o envio dos dados.

Relatos dão conta de que, em um encontro entre o ex-presidente Lula e o empreiteiro Emílio Odebrecht para traçar uma resistência à Lava Jato, o empresário teria alertado que seria inútil buscar o apoio da emissora, pois os americanos já haviam “pegado a Globo”.

Peça 4 — O Caso Nike

Em maio de 2017, Sandro Rosell — ex-presidente do Barcelona e antigo homem-forte da Nike no Brasil — foi preso na Espanha, tornando-se manchete nos principais jornais europeus (El País, ABC e Público). As investigações revelaram que Rosell operava em consórcio com Ricardo Teixeira por meio da empresa fachada Alianto.

Dados enviados à Procuradoria-Geral da República pelo FBI e pelo Ministério Público espanhol revelaram que Teixeira utilizava contas nos EUA para triangular recursos da CBF, utilizando as rotas do Banestado e do Banco Rural. O COAF rastreou R$ 229 milhões em movimentações do dirigente entre 2007 e 2012, rotulando R$ 149 milhões como suspeitos. Desse total, Teixeira recebeu R$ 13 milhões de Rosell, R$ 5 milhões da FIFA e R$ 4,4 milhões do Comitê Organizador da Copa de 2010.

A verdadeira ofensiva investigativa partiu da Espanha, da Suíça e dos Estados Unidos. No Brasil, o MPF limitou-se a abrir uma apuração formal para cumprir o protocolo de cooperação com o FBI. Tanto o MPF quanto a Polícia Federal mantiveram uma postura letárgica, e o caso foi blindado pelo silêncio da grande imprensa nacional — com a rara exceção das reportagens do correspondente Jamil Chade, em Genebra.

Peça 5 — O Mapa das Relações Institucionais

O poder contemporâneo prescinde de ordens explícitas ou conspirações cinematográficas. Ele se materializa na sutileza das redes de reciprocidade, na dependência econômica, no trâmite político e no controle cirúrgico dos fluxos de informação. É nesse ecossistema cinzento que se constroem as blindagens institucionais, elegem-se os alvos das investigações e definem-se os limites entre o que deve virar um escândalo nacional e o que deve mofar nas gavetas do Judiciário.

A perenidade das estruturas é a grande lição desse arranjo. Mudam-se os governos, sucedem-se os dirigentes, alternam-se os operadores e atualizam-se os mecanismos financeiros. As redes de poder, contudo, exibem uma formidável capacidade de metamorfose e sobrevivência.

É por isso que provavelmente a CazéTV ficará de fora do campeonato nacional.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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