A sucessão de escândalos produz um efeito conhecido: a multiplicação de personagens tende a obscurecer justamente aqueles que funcionam como pontos de ligação entre diferentes investigações. No meio da profusão de empresas, fundos de investimento, laranjas e operadores, alguns nomes desapareceram do radar da opinião pública, embora atravessem vários dos maiores casos da última década.
Poucos exemplificam melhor esse fenômeno do que Francisco Emerson Maximiano, conhecido como Max.
Dono da Precisa Medicamentos — posteriormente rebatizada como OVS Importadora depois do escândalo da Covaxin — e controlador da Global Gestão em Saúde, Maximiano já figurava como personagem central na CPI da Pandemia. Agora, ressurge na CPI do Crime Organizado, desta vez não como fornecedor do Estado, mas como possível elo de uma arquitetura financeira muito mais complexa, envolvendo Banco Master, REAG Investimentos, fundos de investimento e empresas investigadas por lavagem de dinheiro.
A mudança de foco é reveladora. Se, em 2021, o problema estava nos contratos públicos, em 2026 a investigação desloca-se para a circulação privada de recursos por meio de fundos, holdings e instituições de pagamento.
A hipótese investigada passa a ser a utilização de sofisticadas estruturas financeiras para reciclagem de recursos.
O retorno de Max
O nome de Maximiano voltou ao centro das investigações por meio do Requerimento nº 219/2026, apresentado pelo senador Humberto Costa e aprovado pela CPI do Crime Organizado.
O requerimento determinou a quebra de seus sigilos bancário e fiscal para o período entre 2022 e 2026. O objetivo é verificar se empresas ligadas ao empresário triangularam recursos com instituições financeiras investigadas no eixo Banco Master–REAG Investimentos.
Segundo informações reunidas pela comissão, a partir de dados do Coaf, empresas vinculadas ao PCC teriam destinado aproximadamente R$ 1 bilhão para fundos administrados pela REAG. A CPI busca agora identificar se empresas pertencentes ou vinculadas a Maximiano participaram desse circuito financeiro.
Até o momento, entretanto, esse vínculo permanece como objeto da investigação. Ainda não foram tornados públicos documentos demonstrando quais empresas de Maximiano aportaram recursos em quais fundos, nem a natureza dessas operações. É justamente esse vazio documental que a quebra de sigilo pretende preencher.
Maximiano recorreu ao STF para impedir o acesso aos seus dados fiscais e bancários. O mandado de segurança foi distribuído ao ministro Luiz Fux, que solicitou informações ao Senado antes de decidir sobre o pedido liminar.
Da Covaxin à engenharia financeira
Na CPI da Pandemia, Maximiano tornou-se conhecido como intermediário do contrato de R$ 1,6 bilhão para aquisição de 20 milhões de doses da vacina Covaxin junto à Bharat Biotech.
O contrato foi cancelado após as denúncias feitas pelos irmãos Miranda sobre irregularidades documentais.
Convocado três vezes pela CPI, Maximiano obteve habeas corpus no STF para permanecer em silêncio e acabou sendo indiciado no relatório final da comissão pelos crimes de falsidade ideológica, uso de documento falso, fraude processual, fraude em contrato, organização criminosa e improbidade administrativa. Como todo indiciamento parlamentar, essas imputações não equivalem a condenação judicial.
A Global Gestão em Saúde, outra empresa sob seu controle, já havia acumulado histórico relevante de contratos públicos. Recebeu mais de R$ 60 milhões dos Correios na gestão do programa de benefícios farmacêuticos, ultrapassou R$ 500 milhões em contratos com a Petrobras, foi alvo de ação por improbidade proposta pelo Ministério Público Federal em 2019 por suposta não entrega de medicamentos para doenças raras e sofreu multa aplicada pela Petrobras em 2015.
Durante o governo Bolsonaro, empresas ligadas ao empresário faturaram mais de R$ 73 milhões em contratos federais. Na administração seguinte, deixaram de contratar com a União e atualmente estão impedidas de celebrar novos contratos federais.
Até aqui, tratava-se de um roteiro relativamente tradicional de investigação sobre contratos públicos.
A novidade da CPI do Crime Organizado é outra.
A investigação procura saber se essas mesmas empresas passaram a integrar uma engrenagem financeira muito mais sofisticada, baseada em fundos de investimento, ativos ilíquidos, holdings patrimoniais e instituições de pagamento.
Danilo Trento: o operador que reaparece
O principal elo entre os dois universos talvez seja Danilo Berndt Trento.
Na CPI da Pandemia, parlamentares o descreveram como “sócio oculto” da Precisa Medicamentos — expressão utilizada no debate parlamentar, sem reconhecimento societário formal.
Cinco anos depois, Trento reaparece em novas investigações.
Segundo requerimentos e relatórios utilizados pela CPI, empresas ligadas a ele estabeleceram operações com estruturas administradas pela Trustee, pelo ecossistema Master e por empresas que aparecem simultaneamente na investigação da fraude dos descontos do INSS.
Entre elas estão a BSF Gestão em Saúde, a T5 Participações, a BK Bank, a Berlin Finance e a Primarcial Holding.
Mais uma vez, a característica chama atenção menos pelos fatos isolados do que pela recorrência dos personagens.
Os instrumentos financeiros mudam. Os operadores permanecem.
O elo PCC
Outro aspecto relevante é a aproximação entre as investigações da CPI e a Operação Carbono Oculto.
Na mesma sessão em que foi aprovada a quebra de sigilo de Maximiano, também foram aprovadas medidas envolvendo Mohamad Hussein Mourad, apontado pela investigação como um dos principais operadores financeiros ligados à lavagem de dinheiro do PCC.
O nome de Maximiano passou, assim, a integrar exatamente o mesmo conjunto de personagens submetidos às diligências financeiras.
Isso não significa, por si só, demonstração de participação em qualquer esquema de lavagem. Significa que a CPI passou a investigar todos esses agentes dentro de uma mesma hipótese financeira.
A evolução dos esquemas
Observando retrospectivamente, percebe-se uma mudança importante na natureza das investigações.
Nos anos anteriores predominavam contratos públicos, licitações, fornecedores do Estado e superfaturamento.
Agora aparecem fundos estruturados, FIDCs, holdings, fintechs, administradoras de recursos, securitização de recebíveis e instituições de pagamento, mostrando o novo campo percorrido pelo crime organizado.
O dinheiro deixa de percorrer exclusivamente o caminho tradicional dos contratos administrativos para circular por uma engenharia financeira muito mais sofisticada.
É justamente nesse ambiente que a REAG passa a ocupar posição central.
Segundo a CPI, empresas vinculadas ao PCC teriam movimentado recursos para fundos administrados pela gestora. A investigação busca saber se empresas ligadas a Maximiano participaram dessa mesma engrenagem.
Essa conexão, contudo, ainda depende de comprovação documental.
Um padrão que atravessa governos
Talvez o aspecto mais interessante desse conjunto de investigações seja outro.
Os personagens recorrentes não pertencem necessariamente ao mesmo grupo político. Maximiano aparece durante o governo Bolsonaro. Danilo Trento ressurge nas investigações sobre a fraude do INSS. Milton Lyra, investigado por transações milionárias com Maximiano, atravessa diferentes governos e sucessivos inquéritos desde os fundos de pensão até as operações financeiras mais recentes.
Os operadores privados permanecem. Mudam os governos, os instrumentos financeiros, os setores econômicos. Mas determinadas redes empresariais continuam reaparecendo.
O que falta provar
Apesar da quantidade de personagens comuns, permanece uma lacuna decisiva.
Ainda não existe documentação pública demonstrando quais empresas pertencentes a Maximiano aportaram recursos em quais fundos administrados pela REAG, em que datas, por quais valores e com quais beneficiários finais.
Essa é precisamente a finalidade da quebra de sigilo determinada pela CPI.
Se esses documentos confirmarem a circulação financeira hoje apenas sugerida pelos requerimentos parlamentares e pelos dados do Coaf, Maximiano poderá tornar-se a principal ponte documental entre dois dos maiores escândalos da última década: o da tentativa de aquisição da Covaxin, durante a pandemia, e o das investigações envolvendo Banco Master, REAG Investimentos e o suposto circuito financeiro associado à lavagem de dinheiro.
Até que isso ocorra, porém, a conexão permanece como hipótese investigativa, que deverá ser confirmada — ou descartada — pelas provas produzidas ao longo da investigação.
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