Uma peça em três atos sobre a arte do engano de pedante TechLogifer
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Sombras, o livro sobre a arte da memória de Giordano Bruno (1548-1600), consiste de um diálogo entre Hermes, Filoteu e Logifer. Hermes é o protagonista, aquele que escreve o livro sobre as sombras das ideias como uma escrita interior a ser memorizada. Filoteu é o aprendiz, que saúda o mestre que revela um segredo egípcio. Logifer, também é chamado de “o Pedante”, faz o contraponto aos outros dois. Ele despreza a arte da memória e é apenas um falador vazio cujo falatório é comparada ao ruído dos animais.
O miraculum magnum da tecnologia IA não foi realizar artificialmente o sonho de Giordano Bruno, da memorização e recordação de todos os conhecimentos do universo. Primeiro porque o universo é infinitamente maior do que os bancos de dados à disposição de IAs. Segundo porque alguns desses bancos de dados são lixo produzido por usuários de internet ignorantes, racistas e criadores e vítimas de fake news, campanhas de ódio e desinformação política e eleitoral. Terceiro porque a degradação da informação digital é um fato, um fato lamentável geralmente ignorado pelos teólogos da nova tecno-eligião.
IAs podem ser eloquentes como o Hermes de Bruno. Elas também parecem recordar conhecimentos ignorados pelos humanos que interagem com elas. Mas elas são enganosas, porque não raro elas vomitam alucinações que induzem o usuário a erro. Não raro, advogados tolos têm sido punidos por transformar julgados inventados por IAs como se fossem jurisprudência. Um juiz brasileiro escandalosamente cometeu o mesmo erro usando o ChatGPT para produzir uma sentença que foi anulada.
IAs não são animais, mas elas são faladoras vazias cujo falatório ode ser comparada ao ruído dos animais. Então, o miraculum magnum das Big Techs foi a transformação do Logifer virtual no lucrativo oráculo de um detestável novo mundo, em que é quase impossível distinguir conhecimento verdadeiro de lixo vomitado por IA que podem ou não conter alucinações. O trabalho do usuário é separar uma coisa da outra, mas as pessoas que usam “o Pedante” virtual ficam preguiçosas. Elas nem mesmo verificam os resultados que lhes são fornecidos pelo Logifer algorítmico. Porque elas fariam isso?
As empresas de tecnologia gastam centenas de milhões de dólares em propaganda. Elas compram as línguas e as canetas de milhares de jornalistas ao redor do mundo. E assim como os Logifers virtuais seduzem seus usuários elogiando qualquer besteira que eles dizem, os jornalistas e influencers elogiam as IAs tratando-as como se elas fossem confiáveis, a encarnação em silício de Hermes Trimegisto.
E aí daquele que desafiar a lógica dos novos negócios como de costume das Big Techs. Ele será isolado, shadow banning ou invisibilizado e eventualmente humilhado pelas canetas e línguas compradas para garantir o sucesso do miraculum Magnum do século XXI.

Eu realmente poderia escrever uma peça satírica em três atos em que, sempre observado por um atento e questionador Alan Turing, Giordano Bruno zomba da incapacidade de um robô de compreender a distinção entre as sombras das ideias e as sobras destas sombras nos seus bancos de memórias de sua GPU. O que pode ser mais adequado do rir dos paradoxos antigos renovados pela tecnologia IA? Mas não vejo a necessidade de fazer isso. Pelo menos não hoje, quem sabe no futuro eu farei isso.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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