7 de julho de 2026

O extrativismo no futebol brasileiro, por Luís Nassif

Aliás, valeria uma peneira da Polícia Federal e do Ministério Público sobre os contratos de patrocínio ou de compra dos clubes brasileiros.
Reprodução

Futebol brasileiro é comparado ao extrativismo, com lavagem de dinheiro ligada a contratos suspeitos e investigação da PF.
Empresário Victor Shimada é investigado por ligação com PCC e contratos de patrocínio no Corinthians, segundo o MP.
Giuliano Bertolucci domina mercado de transferências, controla jovens talentos e clubes, impactando o futebol nacional.

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Muito se fala do extrativismo como uma das desgraças do continente. O ato de exportar produtos primários, sem agregar valor, fez com que a maior parte da riqueza produzida ficasse no exterior, atrasando a industrialização e o próprio desenvolvimento do país.

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O que ocorre hoje no futebol é puro extrativismo, em sua forma mais primária — e, pior, agora também como duto escancarado para lavagem de dinheiro. Aliás, valeria uma peneira da Polícia Federal e do Ministério Público sobre os contratos de patrocínio ou de compra dos clubes brasileiros.

O empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada é investigado no Brasil e foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos EUA, sob a acusação de atuar em esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. Os EUA afirmam que ele seria um elo financeiro entre integrantes da facção e operadores no exterior.

Sua empresa, a Victory Trading, aparece na investigação sobre o contrato de patrocínio entre o Sport Club Corinthians Paulista e a VaideBet. Segundo o Ministério Público, a empresa recebeu recursos que faziam parte do fluxo financeiro investigado e repassou parte deles à UJ Football Talent.

A UJ Football Talent é uma agência de intermediação de jogadores, citada na delação de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach como usada para lavagem de dinheiro ligada ao PCC. A polícia afirma que ela recebeu cerca de R$ 1 milhão proveniente da cadeia de empresas investigadas.

Essa é a parte da contravenção. Mas vejamos agora o mercado formal de venda de jogadores.

O grande nome internacional é Giuliano Bertolucci, herdeiro da família controladora da Lorenzetti, que a partir de 1990 passou a atuar no mercado de compra e venda de jogadores através da Euro Export.

A partir dali, negociou jogadores como o zagueiro Luisão, o meia Thiago Motta e o zagueiro Alex, além de ter sido figura central na ida de Deco — ainda jovem promessa da base do Corinthians — para o futebol português, o que lhe abriu as portas dos clubes europeus.

Aos 53 anos, lidera pelo 12º ano consecutivo o mercado de transferências no futebol brasileiro; somente na última janela internacional, negócios envolvendo seus atletas ultrapassaram R$ 2 bilhões.

Sobre a Seleção Brasileira, o grau de concentração chamou atenção de diferentes fontes ao longo do tempo:

  • Em uma convocação, foi responsável pela carreira de 8 dos 30 atletas chamados (27%), com o segundo colocado tendo apenas 3 jogadores (10%).
  • Em outra lista, 7 dos 23 convocados eram agenciados por ele — incluindo o então técnico Fernando Diniz, que também era seu cliente.
  • Mais recentemente, sob Ancelotti, controla 6 jogadores (23% do elenco), incluindo a dupla de zaga titular (Marquinhos e Gabriel Magalhães) e peças-chave do meio-campo (Bruno Guimarães).

Participou da negociação Neymar–Barcelona (2013), episódio que o projetou para fora do mercado doméstico.

Bertolucci investe em jovens talentos, o que resulta em saídas precoces do Brasil para o futebol europeu, com contratos assimétricos que reduzem o poder de barganha dos clubes fornecedores.

Ele se vale de clubes sob seu controle — possui 92% da SAF da Ferroviária — para criar um funil de revelação e exportação acelerada de jovens. Trata-se de um mercado que beneficia os empresários em detrimento dos clubes.

Quando um jovem entra na carteira de Bertolucci, ganha acesso a clubes europeus, mas fica associado a um “pacote” de negócios.

Tome-se o caso de Gabriel Magalhães, zagueiro do Arsenal. Formado no Avaí, foi vendido ainda jovem ao Lille (França), em 2017, por 1,5 milhão de euros, antes de completar 20 anos. Depois, foi vendido ao Arsenal por cerca de 26 a 30 milhões de euros.

Revelado pelo Audax, Bruno Guimarães foi vendido ao Atlético de Madrid em janeiro de 2018, aos 20 anos, por cerca de 8 milhões de euros. Depois de se firmar no clube espanhol, foi vendido ao Newcastle por cerca de 42 milhões de euros.

São inúmeros os casos semelhantes. De um lado, isso impede o crescimento dos clubes brasileiros. De outro, interrompe a formação dos jogadores segundo a escola de futebol brasileira — que, pouco a pouco, vai desaparecendo.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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