7 de julho de 2026

Quem ganha com os juros altos?, por Maurício Luperi

No Brasil, a própria política monetária tornou-se um dos principais mecanismos de remuneração da riqueza financeira.
Reprodução Shutterstock

Brasil mantém uma das maiores taxas reais de juros do mundo, beneficiando agentes financeiros diversos.
Juros altos elevam rendimentos financeiros, desestimulam investimentos produtivos e reduzem consumo financiado.
Política monetária cria conflitos distributivos entre capital produtivo e financeiro, afetando crescimento econômico.

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Quem ganha com os juros altos?

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A dominância financeira e a economia brasileira

por Maurício Martinelli Luperi

No artigo anterior utilizei a metáfora de um médico que receita sempre o mesmo remédio para doenças diferentes.

Independentemente da origem da inflação, a resposta parecia ser sempre a mesma: elevar a taxa Selic.

Mas essa constatação conduz naturalmente a uma segunda pergunta.

Se o Brasil convive há décadas com uma das maiores taxas reais de juros do mundo, quem se beneficia dessa situação?

Responder a essa pergunta exige abandonar uma visão excessivamente simplificada da economia.

Durante muito tempo, o debate monetário brasileiro concentrou-se quase exclusivamente na discussão entre inflação e juros.

Pouco se discutiu sobre os efeitos distributivos da política monetária.

No entanto, juros não apenas controlam a demanda agregada.

Eles também redistribuem renda.

Toda elevação da taxa Selic modifica a remuneração relativa de diferentes grupos econômicos.

Aumenta o custo do crédito para famílias e empresas.

Desestimula investimentos produtivos.

Reduz o consumo financiado.

Mas, simultaneamente, amplia a remuneração dos ativos financeiros indexados à taxa básica de juros.

Essa dupla natureza da política monetária costuma receber pouca atenção.

Nas últimas décadas, diversos economistas procuraram compreender esse fenômeno.

Hyman Minsky mostrou como o sistema financeiro adquire crescente influência sobre o funcionamento das economias capitalistas.

François Chesnais descreveu a mundialização financeira como uma nova etapa do capitalismo.

Gerald Epstein definiu a financeirização como um processo no qual mercados, instituições e motivações financeiras passam a exercer influência crescente sobre a economia.

Engelbert Stockhammer caracterizou esse processo como um regime de acumulação sob dominância financeira.

Costas Lapavitsas mostrou como parte crescente dos lucros passou a ser obtida por mecanismos financeiros, e não diretamente pela produção.

Esses autores ajudam a compreender uma transformação mundial.

Mas o caso brasileiro apresenta uma particularidade.

Em muitas economias desenvolvidas, a financeirização ocorre principalmente por meio dos mercados de capitais, da valorização dos ativos privados e da expansão do crédito.

No Brasil, entretanto, a própria política monetária tornou-se um dos principais mecanismos de remuneração da riqueza financeira.

Quando a Selic aumenta, aumentam também os rendimentos dos títulos públicos, das aplicações indexadas ao CDI, dos fundos de renda fixa e de diversos instrumentos financeiros.

Naturalmente, isso cria incentivos para que diferentes agentes econômicos prefiram um ambiente de juros elevados.

Entre esses agentes encontram-se bancos comerciais, bancos de investimento, gestoras de recursos, fundos de pensão, seguradoras, investidores institucionais, fundos multimercados, family offices, investidores estrangeiros posicionados em renda fixa e até mesmo tesourarias de grandes empresas, que frequentemente destinam parte significativa de seus recursos às aplicações financeiras.

É importante deixar claro que isso não significa a existência de qualquer conspiração.

Esses agentes apenas respondem aos incentivos criados pelas regras do próprio sistema econômico.

O problema, portanto, não está nas escolhas individuais.

Está na forma como as instituições organizam esses incentivos.

Quanto maior a remuneração proporcionada pelos ativos financeiros, menor tende a ser a atratividade relativa do investimento produtivo.

Empresas adiam projetos.

Famílias reduzem o consumo financiado.

O custo do capital aumenta.

O crescimento potencial diminui.

A própria arrecadação futura do Estado tende a ser afetada pelo menor dinamismo da economia.

Existe ainda outro aspecto frequentemente negligenciado.

Os juros elevados não produzem apenas um conflito distributivo entre capital e trabalho.

Produzem também um conflito dentro do próprio capital.

Como observa Marcelo Milan, empresas produtivas enfrentam aumento dos custos de capital de giro, financiamento e investimento justamente quando instituições financeiras ampliam seus ganhos com aplicações indexadas à Selic.

Dependendo das condições de mercado, parte desses custos acaba sendo incorporada aos preços.

Paradoxalmente, uma política monetária excessivamente restritiva pode contribuir para elevar determinados custos de produção.

Essa observação aproxima-se das reflexões de José Luís Oreiro sobre os limites da política monetária diante da inflação de custos e do chamado price puzzle, fenômeno em que aumentos dos juros podem ser seguidos, ao menos temporariamente, por elevação da inflação.

Se a política monetária produz efeitos distributivos tão importantes, surge inevitavelmente uma nova pergunta.

Como interesses econômicos tão distintos acabam convergindo para uma política monetária que se mantém relativamente estável ao longo de governos de diferentes orientações políticas?

Responder a essa questão exige olhar menos para os agentes econômicos e mais para as instituições.

É justamente esse o tema do próximo artigo.

Nele discutirei como o regime de metas de inflação, o Relatório Focus, a comunicação do COPOM, a cobertura da imprensa econômica e a produção das expectativas ajudam a formar aquilo que proponho chamar de arquitetura institucional da política monetária.

Mais do que perguntar quem ganha com os juros elevados, será preciso compreender como essa engrenagem funciona.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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