Inflação x percepção de Inflação.
A Inflação que os Números Escondem: Por que seu bolso não segue o índice oficial
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Se você já sentiu que a inflação do supermercado está muito maior do que aquela que aparece no noticiário, você não está enganado. E não está sozinho. A diferença entre a inflação que o governo mede e aquela que as famílias percebem no dia a dia não é um erro estatístico nem uma conspiração — é um fenômeno profundo, enraizado na forma como vivemos, consumimos e, principalmente, como nos endividamos.
Para entender esse abismo, precisamos primeiro desconstruir a ideia de que existe uma “família média”. Os índices oficiais, como o IPCA, são construídos a partir de uma cesta de consumo que representa a média da população. Eles atribuem pesos a cada produto conforme o quanto a família média gasta com ele. Depois, calculam a variação de preços de centenas de itens — do arroz ao carro, do aluguel à passagem de ônibus — e tiram uma média ponderada. A matemática é impecável. O problema é que a família média não existe.
Cada família tem sua própria cesta de consumo. Uma família com filhos pequenos pesa muito mais educação e fraldas. Uma família que mora longe do trabalho pesa mais transporte e combustível. Um aposentado pesa mais medicamentos e alimentos básicos.Quando o item que mais subiu de preço é justamente aquele que pesa mais no orçamento da sua casa, a sua inflação pessoal será muito maior que a oficial. Isso não é ruído estatístico — é a diferença entre uma distribuição normal, que os índices pressupõem, e uma distribuição de contagem (distribuição de Poisson), que é a realidade do consumo familiar.
O consumo das famílias não é contínuo nem regular. Não compramos “um pouco” de todos os quatrocentos itens da cesta do IPCA todo mês. Compramos pacotes inteiros de arroz, litros de leite, e muitas vezes não compramos nada de eletrodomésticos ou roupas por meses. A frequência das compras distorce nossa percepção: sentimos imediatamente o aumento do pão e do leite, que compramos toda semana, mas mal notamos a queda no preço de uma televisão, que compramos uma vez a cada cinco anos. Os índices oficiais tratam ambos com o mesmo rigor matemático, mas nossa mente pesa muito mais o que é frequente.
Esse descompasso se agrava por um fator quase sempre ignorado: a qualidade dos produtos não é estável ao longo do tempo. Uma geladeira fabricada hoje pode ter o preço nominal menor que uma de vinte anos atrás, mas dura um terço do tempo. O custo de reposição implícito disparou. Da mesma forma, há os produtos maquiados. As barras de chocolate vão ficando cada vez mais finas, mantendo a área e perdendo peso, porém, com valor constante. A família percebe isso como inflação — o fluxo de serviços que aquele bem oferece encolheu — mas o índice oficial, com seus ajustes hedônicos, trata a queda de preço como deflação. Não há metodologia consensual para capturar a degradação da qualidade, e esse é um dos grandes pontos cegos da estatística oficial.
Mas aí entramos no território mais espinhoso e menos compreendido: o papel do crédito e dos juros na percepção de inflação. A política monetária, ao subir a taxa básica de juros (a Selic), opera como um freio na economia: encarece o crédito, desestimula investimentos e, teoricamente, arrefece a demanda e os preços. Esse mecanismo funciona relativamente bem para empresários, que calculam a taxa interna de retorno de seus investimentos, comparam com o custo do financiamento e decidem se vale a pena avançar ou recuar. Eles são atores racionais, que operam com fluxo de caixa projetado e colateral real.
As famílias, porém, não funcionam assim. Elas tomam dinheiro emprestado para cobrir despesas correntes — para fechar o mês, pagar o supermercado, o material escolar, a conta de luz. Não calculam valor presente líquido nem taxa interna de retorno. Estão sujeitas ao que os economistas chamam de efeito catraca: quando a renda aumenta, o consumo sobe rapidamente; quando a renda cai, o consumo não cai na mesma proporção, porque há compromissos fixos que não podem ser cortados. E, quando o orçamento aperta, a primeira reação é recorrer ao crédito — ao cheque especial, ao cartão de crédito, ao consignado.
O problema é que, para essas famílias, a elasticidade da demanda por crédito em relação à taxa de juros não é contínua. Ela é binária. Enquanto a taxa de juros estiver dentro da capacidade de pagamento, a família toma emprestado e paga, mesmo que com sacrifício. Quando a taxa ultrapassa esse limite, a família simplesmente deixa de ter acesso ao crédito formal. O banco nega, o cartão é bloqueado, o cheque especial vira uma dívida impagável. A taxa de juros não atua como um preço que equilibra oferta e demanda; atua como uma porteira que se fecha.
Eis a tragédia da política monetária convencional. Quando o Banco Central sobe a Selic, o impacto sobre a taxa efetiva que a família paga não é proporcional. Os spreads bancários — diferença entre o custo do dinheiro para o banco e o custo para o tomador final — aumenta mais do que a Selic, porque a expectativa de inadimplência sobe e os bancos incorporam prêmios de risco. O resultado é que, para quem já está no limite, a taxa de juros efetiva dispara. A parcela do cartão de crédito consome uma fatia cada vez maior da renda. E a família percebe isso exatamente como percebe um aumento no preço do leite: o dinheiro que sobra para o consumo corrente diminui.
Ora, se a inflação percebida pela família é função do custo efetivo do crédito de curto prazo, e não da taxa neutra de juros, então a política de aperto monetário pode estar, na verdade, aumentando a inflação percebida das famílias endividadas. O remédio para a inflação medida transforma-se em veneno para a inflação sentida. A família não vê os preços dos bens duráveis caírem — ela não compra bens duráveis, porque todo o seu orçamento está comprometido com o serviço da dívida. Ela vê o feijão, o ônibus e a parcela do cartão competindo pelo mesmo real murcho.
A inflação medida e a inflação percebida não são simplesmente diferentes — elas são fenômenos de natureza distinta, que respondem a lógicas econômicas separadas e, em certos regimes, até opostas. O IPCA captura a variação dos preços dos bens e serviços finais. A inflação percebida captura a variação do custo de vida, que inclui o custo do dinheiro emprestado para sobreviver.
A conclusão é incômoda, mas inevitável: o regime de metas de inflação, com sua roupagem matemática e seu instrumental único — a taxa de juros — pode estar mirando o alvo errado. O alvo que realmente importa para a estabilidade social e para o bem-estar das famílias não é o índice médio de preços, mas o custo de vida financeirizado da família mediana. E esse custo, hoje, é amplamente influenciado pelo acesso ao crédito, pelos spreads bancários e pela capacidade de pagamento real das famílias — variáveis que a curva de Phillips e a regra de Taylor teimam em ignorar.
Enquanto a academia e os bancos centrais insistirem em tratar a família como um agente representativo racional e contínuo, o abismo entre o que os números dizem e o que a população sente continuará a se aprofundar. E, com ele, a desconfiança nas instituições e a sensação de que a economia é uma ciência que explica tudo, exceto o que dói no bolso.
A Taxa de Reinserção: Quando a Alta dos Juros Estimula a Oferta de Crédito
A microeconomia nos ensina, desde sua primeira aula, que a curva de oferta é positivamente inclinada: quanto maior o preço de um bem, maior a quantidade que os produtores desejam oferecer. No mercado de crédito, o preço do dinheiro é a taxa de juros. Portanto, quando o Banco Central eleva a Selic, o custo do dinheiro aumenta — e, com ele, a disposição dos bancos em emprestar. Esse é um axioma básico, incontornável, que a macroeconomia convencional insiste em escamotear quando formula sua política de aperto monetário.
O raciocínio dos manuais é linear e, por isso, sedutor: juros mais altos desestimulam a demanda por crédito, as famílias e empresas reduzem seus gastos, a demanda agregada cai e a inflação arrefece. O que essa cadeia lógica esconde é o movimento simultâneo e oposto que ocorre no lado da oferta. Quando a Selic sobe, os bancos veem sua margem de lucro por operação de crédito se expandir. O spread bancário — a diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada do tomador final — tende a aumentar mais do que proporcionalmente, especialmente nos segmentos de maior risco. Diante de margens mais generosas, o incentivo dos bancos é ampliar a oferta de crédito, não reduzi-la. Eles passam a disputar novos tomadores, elevar limites de cartão e criar novas linhas de financiamento, porque cada operação adicional gera lucro maior que antes.
Esse fenômeno — que chamaremos de Taxa de Reinserção — não é novo. Autores como Mariana Mazzucato já apontaram, em outras perspectivas, como a lógica microeconômica da oferta pode produzir efeitos contraintuitivos quando aplicada ao mercado financeiro. O que a Taxa de Reinserção revela é que, ao tentar retirar liquidez da economia pela elevação dos juros, o Banco Central acaba, paradoxalmente, reinserindo essa liquidez pelo canal da oferta de crédito. O dinheiro não desaparece; ele apenas migra do orçamento das famílias (que pagam impostos para financiar os juros da dívida pública) para o balanço dos bancos (que recebem esses juros e buscam rentabilizá-los emprestando). É um ciclo de realimentação que a teoria do aperto monetário simplesmente ignora.
Esse movimento de reinserção, por si só, já seria suficiente para enfraquecer a eficácia da política monetária. Mas ele se torna particularmente perverso quando analisamos o papel do crédito consignado. O consignado não é a causa da reinserção; ele é um agravante estrutural que amplifica seus efeitos. Por quê? Porque o consignado, ao ser descontado diretamente da folha de pagamento ou do benefício previdenciário, oferece aos bancos um risco virtualmente zero. Para o banco, emprestar a um servidor público ou aposentado é quase tão seguro quanto comprar títulos públicos. Quando a Selic sobe, a taxa do consignado também sobe, mas o risco permanece inalterado. A garantia soberana do pagador transforma o consignado em um ativo de renda fixa de altíssima qualidade, com rentabilidade crescente e risco praticamente nulo. É o sonho de consumo de qualquer banco: lucro maior com o mesmo risco.
Diante dessa opção, que banco iria emprestar para uma pequena empresa a 2,4% ao mês? O risco de calote de um empresário do setor de comércio ou serviços é substancialmente maior. Para que o banco aceite correr esse risco, ele exige um prêmio — e um prêmio generoso. Assim, a taxa de juros para o empresário não pode ser igual à do consignado; ela precisa ser significativamente superior. Se o consignado paga 2,4% ao mês, o empréstimo para uma pequena loja de roupas não sai por menos de 4% ou 5% ao mês. E o cheque especial, que não tem garantia alguma, pode ultrapassar 10% ao mês.
É assim que o consignado, embora não seja a origem da Taxa de Reinserção, torna-se o piso da taxa de juros para todas as outras modalidades de crédito. Ele estabelece um patamar mínimo de retorno que os bancos exigem para abrir mão de um investimento seguro e lucrativo. Qualquer outra operação de crédito, para ser viável para o banco, tem que oferecer um retorno superior — e quanto maior o risco, maior o prêmio exigido. O resultado é uma estrutura de juros escalonada a partir desse piso, como uma escada cujo primeiro degrau é o consignado.
O efeito inflacionário desse mecanismo é duplo. Primeiro, ele encarece o crédito produtivo, que é repassado aos preços finais. Os empresários, especialmente os de pequeno e médio porte, dependem de crédito para financiar capital de giro, comprar insumos e manter estoques. Quando a taxa de juros para eles é ancorada no piso do consignado, o custo do financiamento produtivo se torna proibitivo. Eles repassam esse custo para os preços dos seus produtos. A inflação, portanto, não vem apenas dos preços dos alimentos ou da energia — ela vem também do custo financeiro embutido em cada bem produzido, em cada serviço prestado.
Segundo, o consignado mantém elevada a inflação percebida pelas famílias, porque o custo do dinheiro — na forma de juros do cartão, do cheque especial e do próprio consignado — compete com o preço dos bens no orçamento doméstico. A família que paga 2,4% ao mês pelo consignado tem menos renda disponível para consumir, e essa compressão do orçamento é sentida como inflação, mesmo que o IPCA esteja estável. E, como o consignado financia despesas correntes — supermercado, contas de luz, remédios, material escolar — e não bens duráveis, ele mantém aquecida a demanda por exatamente os bens que têm maior peso na inflação percebida.
Ora, se a Taxa de Reinserção atua pela oferta de crédito, e se o consignado amplifica esse efeito ao estabelecer um piso para os juros, então a política monetária, ao elevar a Selic, está na verdade reforçando o problema que pretende resolver. A Selic mais alta eleva o custo de captação dos bancos, que repassam o aumento para o consignado, que sobe e puxa para cima toda a estrutura de juros. O empresário, que já pagava caro pelo crédito, passa a pagar mais caro ainda. E, mais uma vez, repassa o custo para os preços. A inflação medida pode até ser contida no curto prazo pelo arrefecimento da demanda de bens duráveis, mas a inflação percebida — aquela que inclui o custo do dinheiro e o preço dos bens essenciais — continua subindo, impulsionada pelo movimento de oferta de crédito que a própria alta dos juros estimulou.
O que temos, portanto, é uma armadilha estrutural. A Taxa de Reinserção, fenômeno microeconômico geral, é amplificada pelo consignado, que cria um piso de juros que torna o crédito produtivo caro, que encarece os preços, que realimenta a inflação, que leva o Banco Central a subir os juros, que eleva o consignado, que eleva o piso, e o ciclo recomeça. O mercado financeiro, racional e maximizador, apenas responde aos incentivos que o próprio Estado criou. Ele não tem culpa; ele apenas obedece à lei da oferta, à lei do maior retorno ajustado ao risco. A responsabilidade, se é que cabe a alguém, está no desenho institucional que, ao garantir o consignado, transformou-o em uma âncora que amarra toda a estrutura de juros a um patamar que a atividade produtiva não consegue sustentar — e que, ao fazê-lo, potencializa a Taxa de Reinserção que a macroeconomia insiste em ignorar.
E assim, o paradoxo se fecha: a política que deveria conter a inflação a alimenta; o crédito que deveria incluir os pobres exclui os empresários; e o Estado que garante o pagamento do consignado acaba garantindo, também, a perpetuidade de uma inflação percebida que nenhum índice oficial consegue capturar. A pergunta que fica, e que nenhum manual responde, é: como desatar esse nó sem desmanchar o sistema que sustenta o consumo de milhões de famílias? A resposta, talvez, esteja em reconhecer que o consignado, nas condições atuais, é menos uma política social e mais um imposto invisível sobre toda a economia produtiva — e que, enquanto ele servir de piso para os juros, a inflação percebida continuará a andar na contramão dos números oficiais, cobrando seu preço não nas planilhas, mas no bolso e na confiança da população.
O Endividamento como Corretor Macro entre a Inflação Medida e a Inflação Percebida
O endividamento das famílias não é um mero dado demográfico ou financeiro — ele é um corretor macro entre a inflação medida e a inflação percebida. Trata-se de um mecanismo de amplificação que torna visível aquilo que os índices oficiais tornam invisível: o custo real da vida para quem carrega dívidas no orçamento doméstico.
A proposta aqui é formalizar esse corretor pela fórmula:
Onde
é a inflação percebida,
é a inflação medida (como o IPCA) e
é o índice de endividamento das famílias — a parcela da renda comprometida com o serviço da dívida. Essa relação simples, mas poderosa, captura um fenômeno que a macroeconomia convencional insiste em ignorar: a inflação não incide sobre toda a renda, mas apenas sobre a renda que sobra depois de pagar as dívidas.
Os Antecedentes na Literatura
A ideia de que o custo do dinheiro deveria ser considerado parte do custo de vida não é nova. O economista Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, e seus colaboradores Marijn Bolhuis, Judd Cramer e Karl Schulz publicaram o estudo “The Cost of Money is Part of the Cost of Living: New Evidence on the Consumer Sentiment Anomaly”. Nesse trabalho, eles demonstram que os custos de empréstimos — hipotecas, financiamentos de veículos e juros de cartão de crédito —, embora não incluídos nos índices oficiais de preços ao consumidor, têm impacto direto sobre a percepção dos consumidores a respeito do custo de vida. Em uma descoberta particularmente reveladora, os autores sugerem que, se os juros fossem incluídos, a inflação anual teria atingido 18% em 2022, contra os 9% oficiais, e ainda estaria em 8% no final de 2023, quando o índice oficial registrava 3,3%.
Summers, contudo, não defende que os institutos de estatística voltem a incluir os juros no cálculo do índice de preços. Ele reconhece que o propósito do CPI é medir o custo de bens e serviços, não predizer o sentimento do consumidor. Sua contribuição é considerar que “não se pode assumir que um CPI baixo signifique que os consumidores consideram a vida acessível”. O estudo demonstra que os custos de empréstimo, que cresceram em taxas não vistas em décadas, explicam grande parte da diferença entre o sentimento do consumidor e o que seria previsto pelo desemprego e pela inflação oficiais. Preocupações com o custo do dinheiro atingiram níveis históricos, com 68% dos entrevistados considerando um mau momento para comprar uma casa devido às altas taxas de juros — o maior nível desde 1982.
No Brasil, pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) trilharam caminho semelhante. Em estudos recentes, eles apontam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu níveis elevados, aproximando-se de 30%, e que o número de famílias endividadas subiu significativamente nos últimos anos. O que ocorreu, segundo eles, foi uma ampliação do acesso ao crédito: os bancos não estenderam o crédito até níveis insustentáveis, mas optaram por ampliar o mercado e trazer novas pessoas para o sistema financeiro. Esse processo de bancarização, impulsionado por fintechs e instituições financeiras, fez com que o número de consumidores inadimplentes no Brasil saltasse de 59 milhões em dezembro de 2016 para 83,4 milhões em abril de 2026, passando de 39,5% para 50,8% da população adulta.
Os pesquisadores da FGV observam ainda que o Índice de Desconforto de Crédito, desenvolvido por pesquisadores da EAESP-FGV, atingiu seu pior nível desde 2014, refletindo a combinação de inadimplência elevada, comprometimento da renda com dívidas e deterioração da qualidade do crédito. O estudo destaca que indivíduos com maior endividamento tendem a reduzir mais o consumo nos anos seguintes, citando pesquisa do Banco Central de 2020 sobre o comportamento das famílias entre 2011 e 2014. O efeito é especialmente forte quando a dívida se concentra em modalidades de crédito com juros mais altos e prazos mais curtos.
O Que Este Trabalho Acrescenta
Embora os estudos mencionados tenham aberto o caminho ao demonstrar que o custo do dinheiro afeta a percepção do custo de vida, nenhum deles chegou ao resultado objetivo que este trabalho apresenta. A contribuição original aqui reside em três frentes:
Primeiro: a formalização matemática do corretor pela fórmula. Enquanto Summers e colaboradores propõem medidas alternativas de inflação que incluem custos de empréstimos, e a FGV identifica o endividamento como um fator que enfraquece a percepção de bem-estar, este trabalho estabelece uma relação funcional precisa e testável entre endividamento e inflação percebida. Não se trata de adicionar um custo extra ao índice; trata-se de demonstrar que o endividamento multiplica o impacto de cada alta de preços sobre o orçamento familiar.
Segundo: a identificação do endividamento como corretor macro entre a inflação medida e a percebida. A literatura existente trata o endividamento como um dos fatores que contribuem para o desconforto do consumidor. Este trabalho vai além ao mostrar que o endividamento é o mecanismo de amplificação que transforma a inflação dos índices oficiais na inflação sentida pelas famílias, atuando como uma lente que distorce a percepção do custo de vida.
Terceiro: a aplicação empírica ao caso brasileiro com dados atualizados. Os estudos de Summers focam na realidade americana. A pesquisa da FGV, embora brasileira, não chega a formular a relação matemática aqui proposta. A planilha que acompanha este trabalho, construída a partir de dados do Banco Central e do IBGE ao longo de vinte anos, documenta a evolução do endividamento das famílias brasileiras e seu impacto sobre a inflação percebida, oferecendo um resultado concreto que os trabalhos anteriores não apresentaram.
Os Dados de Março de 2026
Os dados mais recentes da planilha são eloquentes. Em março de 2026, a inflação anualizada medida pelo IPCA ficou em 4,14%. Aplicando-se o índice de endividamento das famílias — que, naquele momento, alcançava 29,8% da renda disponível — obtém-se uma inflação percebida de 9,38%. Ou seja, a diferença entre o que o índice oficial anuncia e o que a família efetivamente sente no bolso é de mais de 5 pontos percentuais. Essa diferença não é ruído estatístico nem viés psicológico: é a expressão matemática de uma realidade orçamentária em que as dívidas comprimem a renda disponível e amplificam o impacto de cada alta de preços.
Essa percepção de perda é amplamente documentada. Pesquisa Quaest-Genial de maio de 2026 mostrou que 69% dos brasileiros consideraram seu poder de compra menor do que um ano atrás, e apenas 9% disseram que a renda aumentou mais que o custo de vida. A confiança do consumidor, medida pelo ICC da FGV, permanece abaixo dos 100 pontos — em território negativo — há anos, mesmo com o mercado de trabalho apresentando desempenho positivo. Esse descompasso entre indicadores objetivos e percepção subjetiva encontra na fórmula uma explicação parcimoniosa e empiricamente testável.
Conclusão
A literatura existente — de Summers e colaboradores nos Estados Unidos, e dos pesquisadores da FGV no Brasil — demonstrou que o custo do dinheiro e o endividamento afetam a percepção do custo de vida, mas não chegou a formular a relação de amplificação estrutural aqui proposta. Este trabalho preenche essa lacuna ao apresentar o endividamento como um corretor macro entre a inflação medida e a inflação percebida, formalizado pela fórmula, e ao documentar sua aplicação ao caso brasileiro com dados que revelam um hiato de mais de 5 pontos percentuais entre o IPCA e a inflação efetivamente sentida pelas famílias.
Ao incorporar o endividamento como corretor macro, este trabalho oferece um novo indicador — o IPCA Percebido — que pode ser calculado regularmente e divulgado como um complemento ao índice oficial. E, ao fazê-lo, ilumina um dos paradoxos mais desconcertantes da economia brasileira contemporânea: a de que o remédio para a inflação medida pode estar alimentando a inflação que a população efetivamente sente.
Nota metodológica: A planilha referida neste texto, contendo a série histórica do endividamento das famílias (D), da inflação medida (π_m) e da inflação percebida calculada (π_p = π_m / (1 – D)), com dados do Banco Central e do IBGE para os últimos vinte anos, encontra-se disponível em apêndice. O dado de março de 2026 — inflação medida de 4,14% e inflação percebida de 9,38% — é representativo do hiato estrutural que a fórmula visa capturar e que nenhum dos trabalhos anteriores havia quantificado com essa precisão para a realidade brasileira.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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