A Taxa Básica de Juros e a Nau dos Insensatos
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Para quem não se lembra, a Nau dos Insensatos é uma alegoria renascentista, de autor desconhecido, em que loucos eram embarcados num navio e, por serem loucos, não conseguem navegar. Na verdade, há sempre um timoneiro sonhando, quando não fingindo, conhecer o ofício. Tão louco quanto todos os outros, ele consegue fazer com os demais acreditem que o navio segue uma direção plausível. Como o destino nunca fica mais próximo, o piloto acaba por ser destituído e outro louco toma seu julgar e a viagem eterna não chega a lugar algum.
Lendo uma entrevista com o Prof. Antônio Correa de Lacerda, depois de ter participado de um evento sobre política monetária na PUC, passou-me pela cabeça a seguinte alegoria para descrever a insensatez que é intenção de controlar a inflação via variação da taxa básica de juros.
Assim como qualquer empreendimento, a empresa X vem-se endividando ao longo do tempo. A dívida é proporcional ao tamanho do negócio, o que não tem nada de espantoso. O dinheiro captado no mercado serve para ampliar o negócio, ao mesmo tempo em que regula o fluxo de caixa. Esse endividamento tem um custo de carregamento, ou seja, na medida em que seus títulos vão vencendo, novos têm que tomar o seu lugar e isso tem um custo de aquisição ao que se deve acrescer os juros sobre os papéis que ainda não venceram.
É de se supor que o banco deseje que X tenha uma expectativa de ampliação, assim ela precisará de mais dinheiro para continuar crescendo. Até então, o banco olhou os balanços de X como um mero espectador. O banco acredita que X entenda de seu negócio e saiba o que está fazendo. Num dado momento, um louco assume a administração de X e propõe pagar mais juros ao banco desde que ele não empreste para os concorrentes. Dessa forma, X elimina a concorrência e fica sozinho no mercado. Na medida em que a concorrência seja restrita, o diretor financeiro de X avisa o banco que pagará menos juros porque o objetivo terá sido atingido.
Nesse meio tempo, por ter pagado juros a mais para constranger a atividade da concorrência, seu negócio dará menos lucro e o fluxo de caixa ficará comprometido. Obviamente, o banco não aceitará o argumento porque não tem a menor intenção de cobrar menos juros de X. É nesse momento que o poder de barganha passa de X para o banco que continua cobrando juros cada vez maiores e ele passa de uma loja de dinheiro a um agiota legalizado. A empresa vai ficando cada vez mais endividada. O poder do banco fica tão grande que ele decreta uma intervenção em X e passa a controlar onde a empresa põe o dinheiro, até que chega o momento em que X se vê obrigada a vender seus ativos para continuar pagando juros. É o começo do fim.
Imaginemos agora que a concorrência seja a inflação e que X seja o Governo, enquanto o banco é o mercado financeiro. O custo de carregamento da dívida é uma parcela dos impostos que o Estado cobra do cidadão. A alegoria é muito precisa, exceto pelo fato de que o Governo não quebra, pelo menos, a probabilidade de quebrar é muito remota. Além disso, a quantidade de ativos do Estado é enorme e ele os pode usar como compensação pelos juros por um período indefinido. Como se não bastasse, o interventor continua determinando a taxa de juros e oferecendo-se para pagar mais, sempre que surge uma luz no fim do túnel. O pretexto é que essa luz não significa progresso, mas uma perspectiva de inflação.
Resumindo, tentar controlar a inflação via taxa de juros é o mesmo que jogar toda a população do país a bordo da Nau dos Insensatos, tendo o presidente do Banco Central como timoneiro. A bússola e o sextante estão à sua mão, mas sua mente está embotada demais pelo poder para que ele possa levar a viagem a bom termo. Erasmo de Roterdam, mais tarde Michel Foucault, referiam-se a ela como Stultifera Navis porque quem estiver a bordo, se não for louco, fica.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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