7 de julho de 2026

Eduardo Bolsonaro, Maria Corina Machado e a submissão consentida, por Luiz Melchert

Eduardo B. foi criado para ser esbirro dos EUA, enquanto Corina foi conservadora de origem junto com inconformismo por ascensão de Chávez.
Grafite - Reprodução

João Ramalho e Diogo Álvares Correa integraram indígenas e europeus, facilitando a colonização do Brasil no século XVI.
Hernan Cortez conquistou o México militarmente, apoiado por Malinche, que foi sua tradutora e aliada cultural.
Eduardo Bolsonaro e Maria Corina Machado atuam hoje como facilitadores da influência dos EUA no Brasil e Venezuela.

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Eduardo Bolsonaro, Maria Corina Machado e a submissão consentida

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Quando Martim Afonso de Sousa chegou à Baía de Santos, em 1532, para tomar posse da Capitania de São Vicente, João Ramalho já se encontrava estabelecido na região havia vários anos. Sua origem exata permanece objeto de debate entre os historiadores. Sabe-se apenas que era português de nascimento, nascido em 1493, chegado ao Brasil por volta de 1510, ainda adolescente. Sua morte é documentada como ocorrida em 1582, aos oitenta e nove anos.

Quando encontrado por Martim Afonso de Souza,  já estava totalmente integrado à sociedade indígena.

Casado com Bartira, filha do cacique Tibiriçá e posteriormente batizada como Isabel Dias,  João Ramalho já não se tinha como um estrangeiro vivendo entre indígenas, mas um integrante de uma ampla rede de alianças e parentesco que lhe conferia prestígio e influência nos dois mundos, aborígene e europeu. Sua posição tornou-se particularmente relevante em razão do controle exercido sobre a principal passagem entre o litoral e o planalto de Piratininga.

A Serra do Mar, com escarpas que em alguns pontos ultrapassam oitocentos metros de altitude, constituía uma barreira natural de difícil transposição. Não por acaso, era conhecida como a Muralha. Era resguardada por ser um dos ramais do Peabiru (em guarani, caminho para o Peru), trilha que ligava o Planalto de Piratininga, via Rio Tietê, a Potosí, hoje Bolívia, então, Império do Peru. A presença de artefatos de prata e bronze encontrados em posse de indígenas da costa demonstrava contatos comerciais de longa distância muito anteriores à chegada dos europeus.

Aos olhos de Martim Afonso de Souza, o suposto acesso à prata de Potosí era a única riqueza de sua capitania, haja vista que não havia pau-brasil a explorar e era muito ao sul para a exportação de açúcar. Daí a tentativa de reservá-lo para si. Não conseguiu, pois Souza assumiu o posto de governador nas Índias Orientais, onde morreu de malária, nunca mais voltando ao Brasil. Sua partida franqueou o acesso ao Planalto de Piratininga, onde o papel de elo exercido por João Ramalho atingiu a sua plenitude, tornando Tibiriçá, seu sogro, num aliado de primeira ordem dos portugueses. Seu papel foi tão importante na simbiose entre europeus e algumas nações indígenas que se pode inferir que sem seu concurso, o interior do Brasil não se teria conquistado, pelo menos, não na mesma velocidade e intensidade em que ocorreu. Sobrenomes como Tibiriçá e Caiovás ainda se encontram na sociedade paulista mais tradicional.

Diogo Álvares Correa desempenhou papel semelhante no nordeste de Brasil, porém, com documentação até pujante para a época. Sabe-se precisamente onde e quando nasceu (10 de janeiro de 1475), assim como a data e local de sua morte (5 de outubro  de 1557), e como veio dar na costa da Bahia como náufrago de um navio francês por volta de 1510, portanto, já homem feito. Também é sabido que integrou-se à sociedade tupinambá e passou grande parte de sua vida intermediando o comércio – provavelmente, pau-brasil — entre os indígenas e os navegantes de quaisquer nacionalidades que se aventuravam no litoral brasileiro. Seu prestígio levou o cacique Taparica a dar-lhe Paraguaçu como esposa, além das inúmeras concubinas que amealhou  ao longo do tempo. Estiveram na corte francesa, onde ela foi batizada com o nome de Catarina Álvares Paraguaçu. A descendência do casal, fartamente documentada, em particular, e de Diogo Álvares Correa, em geral, posto que teve inúmeras concubinas, não somente prosperou como encontra descendência quinhentos anos depois, haja vista que o sobrenome “Caramuru” ainda é encontrado pelo Brasil todo. Essa aliança com alguns povos indígenas da região nordeste foi essencial para o florescimento da indústria do  açúcar, responsável pela fixação dos europeus no território brasileiro.

Se João Ramalho foi o pai do movimento bandeirista, levando a civilização europeia para o interior do continente, Diogo Álvares Correa esteve mais perto da metrópole. Foi a ele que D. João III recomendou a recepção a Tomé de Souza como governador geral do Brasil. Ambos, pelo casamento, viabilizaram a permanência dos europeus em solo sul-americano, pois, doutra forma falta de contingente e a ignorância acerca da terra teria postergado, quando não impedido a colonização.

Enquanto isso, no México, Hernan Cortez (1485 – 1547) que já se estabelecera no Caribe, preparava-se para se aventurar no continente em condições muito diferentes das encontradas no Brasil. Tratou-se de uma conquista militar. Quando ele partiu de Cuba, em 1519, a ilha já tinha vinte e sete anos de colonização e já contava com um vice-rei. Ele levou cavalos e canhões na travessia. Mesmo sendo muito mais bem equipado do que Diogo Álvares ou João Ramalho, não teria sido bem sucedido se não fosse seu relacionamento com Malinche, posteriormente batizada como Marina. Ela, como tradutora e conhecedora da cultura local, guiou-o pelas alianças e desavenças que lhe permitiram vencer os mexicas. Ao contrário dos dois portugueses, Cortez não casou com ela, mas teve um filho, Martin Cortez, que viveu majoritariamente na Espanha com o pai; enquanto isso, Malinche foi levada a casar-se com Joan Jaramillo, com quem teve uma filha, que não viveu para criar. Também ao contrário das brasileiras, ela foi interpretada ambiguamente, ora como mãe da pátria, ora como traidora de seu povo. Igualmente ambígua é a memória de Cortez, ora visto como herói, ora visto como genocida.

Na matéria “O Paradoxo da Sujeição”, a intenção foi teorizar sobre como a dominação depende de um facilitador local. Embora não haja registros historiográficos, fica evidente que os casais brasileiros, assim como o relacionamento jamais reconhecido oficialmente entre Hernan Cortez de Malinche fizeram esse papel. Eles conheciam as alianças e antagonismos locais, assegurando a perenidade da dominação pela capacidade de manipular as situações internas, tornando, como diria Antonio Gramsci,  a submissão como parte da vida cotidiana, como algo a ser aceito como parte da Natureza. Claro que poderíamos desenvolver uma verdadeira enciclopédia das relações dominante – dominado, sempre com o foco no mecanismo do facilitador. O que nos importa aqui é mostrar que a existência do fenômeno não implica em que seja homogêneo. Eduardo Bolsonaro e Maria Corina Machado foram cooptados como os facilitadores da atualidade, mas não compartilham das mesmas práticas, assim como não compartilharam os protagonistas dos exemplo deste texto.

Eduardo Bolsonaro, nascido em 1985, é formado em direito pela UFRJ e escrivão concursado da Polícia Federal. Em 2013, mudou seu domicílio eleitoral para São Paulo, por onde foi eleito deputado federal graças ao quociente eleitoral, não obtendo votação suficiente. O impulso inicial foi dado pela sua ligação com Olavo de Carvalho, Seve Bannon e outros atores do neoliberalismo e dentro de uma onda de ultradireita. Ocorre que o mesmo Steve Bannon foi o responsável pela elaboração de um esquema capaz de promover o Brexit e pôr Trump no poder. A eleição de Eduardo Bolsonaro representou a introdução de um facilitador do conquistador estadunidense na Câmara dos Deputados, juntamente com o restante de sua família. Muito provavelmente, se não fosse as ligações entre ele e os mentores de ultradireita, os Bolsonaro não teriam apoio tão escancarado dos Estados Unidos. Era ele que, juntamente com Olavo de Carvalho, interpretaram nossos conflitos internos, sendo catapultado pelo antipetismo oriundo da Lava Jato. Prova desse papel foi a tentativa de seu pai coloca-lo como embaixador em Washington, assim que assumiu o poder em 2019. Sua mudança para os Estados Unidos em 2025 não é mais do que uma intensificação de seu protagonismo na tentativa de entrega do Brasil aos Estados Unidos. Naturalmente, esse é o desejo da família toda, mas é ele que carrega o piano nas terras de Tio Sam.

Maria Corina Machado é nascida numa família da classe dominante e seu pai detinha o controle da maior indústria metalúrgica do país, a Sivensa (Siderúrgica de Venezuela S. A.), que foi expropriada nos primeiros anos de Chavez no poder. Sua atuação política é justificada, quando não esperada, pelas constantes desapropriações de empresas de base no país desde o início do governo de Chavez. Ela participou ativamente da tentativa de golpe de estado em 2002 e, desde então, tem contado com apoio, inclusive financeiro, do governo estadunidense. Ao contrário de Bolsonaro, que sempre teve a política como profissão, ela foi eleita deputada em 2011 por identificar-se com os expropriados. Não se trata aqui de fazer juízo de valor acerca de sua atuação dentro e fora da Venezuela. Trata-se de apresentar seu papel de articuladora interna de uma oposição advinda de perdas materiais concretas, que resultou na invasão de seu país e no subsequente sequestro de seu presidente.

O papel de Eduardo Bolsonaro como esbirro dos estadunidenses começou em 2014, em paralelo com a intensificação das atitudes espúrias da operação Lava Jato. Não foi coincidência a aparição de seu pai discursando para a turma daquele ano na Escola Militar das Agulhas Negras, como preparação para a ampliação do apoio interno à ultradireita no Brasil. Machado teve uma atuação empresarial e de cunho assistencial anterior à ascensão de Chávez ao poder, provavelmente, já fosse conservadora de origem, mas a politização veio do inconformismo, ao contrário de Eduardo Bolsonaro, que já foi moldado como agente estadunidense em solo brasileiro. O fato é que, por caminhos diferentes que sejam, a dominação só se consegue se encontrar eco na sociedade a ser dominada e que, para que isso aconteça, é preciso haver um agente catalisador como foram Machado na Venezuela, ou os Bolsonaro no Brasil.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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