Um novo levantamento realizado pelo Monitor do Debate Público aponta que a articulação política da cúpula da extrema-direita para o cenário eleitoral de 2026 começa a enfrentar resistências dentro da sua própria base.
Monitorando grupos focais de WhatsApp entre os dias 29 de junho e 5 de julho de 2026, a pesquisa detectou que até mesmo os chamados Bolsonaristas Convictos (BC) — o eleitorado mais ideológico e alinhado ao movimento — discordam de figuras centrais como o senador Flávio Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo.
O estudo avaliou o comportamento dos grupos diante de três acontecimentos recentes: o embate público entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e Flávio; as negociações antecipadas do senador com o governo dos Estados Unidos; e as declarações de Paulo Figueiredo.
Preocupação com o desgaste eleitoral
Diferente da postura de apoio irrestrito observada em outros momentos, o eleitorado de direita reagiu com forte pragmatismo à exposição pública das divergências entre Michelle Bolsonaro e o senador. Predominou, tanto entre os bolsonaristas convictos quanto entre os moderados, a percepção de que a principal consequência do episódio foi o desgaste político para o campo conservador.
Mais do que discutir o mérito da disputa, os participantes demonstraram preocupação com os impactos da quebra de coesão do grupo às vésperas das eleições. Em ambos os segmentos, a expectativa era de que divergências familiares e partidárias tivessem sido tratadas de forma reservada, evitando alimentar conflitos que pudessem beneficiar adversários políticos. Os participantes tentaram evitar julgamentos definitivos e interpretaram o episódio como um problema pontual de gestão política.
Essa postura de contenção e o apelo para estancar a crise ficam evidentes no relato de uma participante baiana do grupo de convictos: “Importante a explicação dela. Tem um posicionamento muito claro. Peço ao bom Deus que esse mal-entendido desapareça, e se desculpem, não é hora de brigas familiares terem prioridade, família unida faz bem a todos” — (BC, 47 anos, administradora, BA).
Se entre os apoiadores o esforço foi para minimizar o impacto, a reação mudou fora da bolha: para os grupos de centro e progressistas, o episódio foi interpretado diretamente como uma disputa por poder e interesses eleitorais dentro da família.
Rejeição a Paulo Figueiredo
O ponto de maior fricção e rejeição explícita ocorreu em torno do influenciador Paulo Figueiredo. Tradicional articulador de narrativas da extrema-direita na internet, Figueiredo enfrentou forte resistência do núcleo duro.
Os Bolsonaristas Convictos defenderam o rompimento e o afastamento do influenciador, classificando suas falas como prejudiciais ao campo da direita e à candidatura de Flávio Bolsonaro. A pressa em isolar o analista para proteger a campanha eleitoral aparece na reação de um jovem eleitor de Rondônia:
“Falas estúpidas, pelo amor de Deus, acho incrível a facilidade que algumas pessoas possuem de falar merda. Não conheço esse influenciador e discordo do que ele disse! É bom o Flávio ficar longe desse tipo de pessoa para não prejudicar a candidatura” — (BC, 22 anos, vigilante, RO).
Já entre os Bolsonaristas Moderados (BM) e os Indecisos Conservadores (IC), a reação foi de forte condenação às declarações, classificadas como misóginas e machistas. O diagnóstico nesses grupos foi de que a postura do influenciador aprofunda o desgaste político e afasta o eleitorado feminino.
Soberania nacional e o debate sobre as tarifas
A ambivalência da base também atingiu as movimentações externas de Flávio Bolsonaro. Ao testar a recepção sobre uma negociação antecipada do senador com os Estados Unidos, o relatório apontou que o discurso nacionalista gerou divisões. Enquanto os convictos buscaram enxergar preparo e oportunidade econômica na iniciativa, os bolsonaristas moderados e os indecisos de direita reagiram com forte cautela, manifestando preocupação de que a proposta pudesse comprometer a soberania nacional e ampliar a interferência norte-americana no país.
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