A revolucionária Alexina Crêspo e sua memória *
por Urariano Mota
A Editora CEPE em boa hora publica “Os poemas de Apolo e outros escritos”, de Alexina Crêspo. A organização do livro coube a Raul Calle de Paula, seu bisneto. Observo que nessa organização tem amor, pois Raul fala: “o que me motivou a produzir o livro foi tanto a dimensão quanto o esquecimento sobre a vida e a obra dela, além, claro, do afeto pessoal. Ela foi uma mulher imensa, com uma biografia e uma produção independentes de Francisco Julião”.
Até o lançamento do livro, os que sabiam da sua existência viam-na apenas como a mulher de Francisco Julião. Outros, como eu próprio, sequer adivinhávamos a sua vida. Ignorância minha e falha coletiva, nas condições de obscurecimento sobre a vida das mulheres dos “grandes homens”, como se vê erradamente.
Na orelha do livro, o poeta e ex-preso político Marcelo Mário Melo escreve que “geralmente, as esposas de líderes políticos são consideradas apenas ‘primeiras-damas’, acompanhantes e figurantes. Em parte, isso ocorreu também com Alexina Crêspo, esposa de Francisco Julião, grande líder das Ligas Camponesas… Acontece que Alexina começou a desenvolver as suas atividades políticas, antes e independentemente de Julião, ligada ao velho PCB”. A poeta e vereadora Cida Pedrosa, no prefácio, fala: “debruçar-se sobre os escritos dessa autora é um deleite. Você encontra a coragem em cada página, a liberdade em cada linha, o pulso em cada palavra. Não há como sair ileso dessa leitura. Somos levados a admirá-la anda mais, haja vista o compromisso que ela tem, tanto com a luta quanto com a arte”.
Os poetas Marcelo Mário Melo e Cida Pedrosa acabam por dar o norte destas linhas. Vejamos.
De um ponto de vista biográfico, o que é uma divisão arbitrária, pois separamos a obra escrita de Alexina Crêspo e a sua vida, anotamos: em 1955, enquanto surgem os primeiros esforços para a criação das Ligas Camponesas, Alexina participa da instalação no Recife da Federação das Mulheres. Preside a Federação pernambucana em três oportunidades. E vem como delegada para a Assembleia Nacional das Mães, no Rio de Janeiro, onde é uma das falas da abertura, com a bela frase: “a paz é a mãe da humanidade, e ganhar a paz é tão belo quanto ter um filho”.
Mas em 1957, o governador Cordeiro de Farias fecha a sede da Federação de Mulheres de Pernambuco, que a imprensa local chamou de “subsidiária do PC”, e Alexina de “uma das principais diretoras” daquela subversão. Depois de 1960, Alexina treina guerrilha em Cuba, para mais adiante organizar uma resistência armada de defesa do camponês contra os latifundiários, que estavam em guerra contra as Ligas Camponesas. Em 1962, Alexina retorna a Cuba, para cuidar das comunicações internacionais das Ligas Camponesas. Dessa vez, pisa em solo cubano com os quatro filhos. Então ela visita a República Popular da China, na qualidade de porta-voz das Ligas Camponeses. É recebida por Mao Tsé-Tung e Chou en-Lai. Na foto a seguir, com as duas filhas, recebida por Mao.
Em artigo no jornal O Globo, a jornalista Letícia Lins publicou em 15/04/2012:
“No período anterior ao golpe de 1964, chegou a negociar a entrada de armas no país e a manter entendimentos com líderes como Fidel Castro e Mao Tsé-Tung, por achar que a guerrilha era a melhor forma de realizar a reforma agrária em terras então dominadas econômica e politicamente pelos usineiros, que mantinham seus lavradores em regime de semiescravidão”.
Anacleto Julião, filho de Alexina e Julião, lembra que a mãe possuía uma visão diferente da luta quanto à reforma agrária no Brasil daquela época. “Francisco Julião dizia: ‘Reforma agrária na lei ou na marra’. E Alexina dizia para ele: ‘Reforma Agrária, só na marra. Não tem a possibilidade de que seja legal’ ”. Em 1963, essas divergências chegaram ao ponto de ela se separar de Francisco Julião.
Agora, em novo corte arbitrário, pulamos o seu tempo de exílio e militância depois do golpe de 1964. Ela volta ao Recife com a anistia. Então, chega a vez da sua obra poética reunida no livro “Os poemas de Apolo e outros escritos”. Os textos selecionados foram escritos por Alexina Crêspo entre as décadas de 1980 e de 2000.
É comovente, e para mim o texto de melhor realização estética, a “Carta a Aurora”, sua mãe, que já não existia. A carta é bela, simples e tocante, mas como possui 5 páginas, sou obrigado a resumi-la em algumas frases:
“Estivemos em terras longínquas. Umas cheias de sol, valor e muitas músicas. Outras frias, geladas, cinzentas. Quando as atribulações eram maiores, eu pedia, em pensamento, o teu auxílio e, como uma criança, me encolhia toda e baixinho dizia: ‘Mamãe, ajude-me!’. E, aos poucos, como se tu houvesses recebido a minha mensagem, eu ia me acalmando e me sentia mais forte para continuar lutando”.
No poema “Pontes”, a poesia de Alexina reflete sobre a vida:
“Braços estendidos,
mãos dadas,
unindo um bairro a outro.
Se se soltassem,
eles deslizariam para o mar.
Nunca mais voltariam…
Seguram-se obstinadamente
para não se perderem
na imensidão das águas.
Atravessar uma ponte
é caminhar
para o outro lado da vida…
É encontrar,
talvez,
um pedaço
no nosso sonho”
A seguir, neste poema, onde mais que versos, há uma compreensão íntima da pessoa:
“Chorei pelos beijos não dados,
Saudades pelos roubados.
Lembranças dos ódios.
Suspiros dos desejados”.
“Saudades pelos beijos roubados” seria um verso comum, trivial, se não fosse antecipado pelo “Chorei pelos beijos não dados”. Mais, até, se não expressasse o desejo rebelde de uma guerrilheira, que a maioria pensa não ter sensibilidade para o amor erótico. Quanta incompreensão sobre a militância comunista. De modo geral, a poesia de Alexina Crêspo é sempre uma meditação sobre o humano, ainda que fale do cotidiano mais simples, como na Carta a Aurora:
“Pentearei os teus cabelos. Iremos à manicure. Tomaremos sorvete e comeremos bom-bocado”.
Então chegamos ao fim e ao começo. Alexina contava que ao ser recebida pelo presidente Mao, pediu a ele diretamente armas. “Ele perguntou quantas armas nós tínhamos. Eu disse que tínhamos muito pouca coisa. Ele não deu uma resposta logo. Mais tarde, ele mandou uma delegação de três companheiros para verificar como estava a situação.”
Em resumo: Francisco Julião foi grande, mas a radical maior foi Alexina Crêspo. Vivam a sua memória e o livro!
*Vermelho A revolucionária Alexina Crêspo e sua memória – Vermelho
Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.
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