11 de julho de 2026

Walnice N. Galvão: Nazareth/ Pixinguinha/ Villa-Lobos/ Jobim (1)

Nazareth é campeão de gravações por pianistas clássicos – de Eudóxia de Barros a Artur Moreira Lima. E isso apesar de ser de difícil execução
Ernesto Nazareth - Reprodução

Ernesto Nazareth é destacado como um dos maiores músicos brasileiros, reconhecido pela complexidade e popularidade de suas composições.
Nazareth influenciou a música popular e erudita, com obras como valsas, choros e tangos, valorizadas por pianistas clássicos.
Mário de Andrade promoveu Nazareth, elogiando seu estilo alegre e títulos criativos, consolidando seu legado na música brasileira.

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Nazareth/Pixinguinha/Villa-Lobos/Jobim (1)

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por Walnice Nogueira Galvão

Se alguém for alinhar os píncaros da arte musical brasileira –  e só os píncaros – ressaltam imediatamente estes quatro, que são unanimidades.

Não é fácil selecionar quais são os mais importantes músicos brasileiros, num país que já é musical desde a colônia, como atestam cronistas e viajantes. Não nos faltam compositores clássicos e populares, instrumentistas, arranjadores, luthiers, cantores e cantoras, maestros etc. E quais seriam os critérios?  Quem sabe poderemos concordar em: abundância de criações, somada à realização de sínteses entre tendências ou fontes diversas, resultando em lindas melodias inesquecíveis

Tomemos o grande Ernesto Nazareth, que Mário de Andrade ainda teve a sorte de alcançar. Ou, ao contrário, foi ele quem teve a a sorte de alcançar Mário, que o promoveu e escreveu coisas notáveis a seu respeito. E ainda lhe dedicou uma conferência na Sociedade de Cultura Artística, que Nazareth veio a São Paulo assistir.

Basta verificar que Nazareth é campeão de gravações por pianistas clássicos – de Eudóxia de Barros a Artur Moreira Lima. E isso apesar de ser de difícil execução, tal sua intrincada rede harmônica e rítmica.

Muitos são os que desconfiam que, se não for anacronismo, Machado de Assis tinha Nazareth em mente quando escreveu “Um homem célebre”. Ali, um compositor de grandes sucessos que a cidade inteira cantava, prolífico e popularíssimo, sofre, porque queria mesmo era compor uma sinfonia. É o que examina Cacá Machado, em Um homem célebre – Vocação e ambição de Ernesto Nazareth

Darius Milhaud o homenageia na suíte musical Boeuf sur le toît. Ele serviu como adido cultural na Embaixada Francesa no Rio, quando em feliz conjuntura o poeta Paul Claudel foi embaixador: eram dois artistas no comando dos negócios diplomáticos entre a França e o Brasil. Milhaud é o autor da suíte, em que faz uma rapsódia com 20 canções populares brasileiras, inclusive a que dá título à sua composição. Privilegia entre todos Ernesto Nazareth, ao lado de Marcelo Tupinambá. Aliás, Mário de Andrade, ao escrever sobre Nazareth em Música, doce música, elogia-o por não ceder à “tristura” tão frequente na obra deste último, bem como em toda a música popular brasileira. Ao contrário, ele é sempre alegre, buliçoso, malicioso…  “É o espevitamento chacoalhado e jovial do carioca que Nazareth representa”.

Suas composições são valsas, choros, xotes, mazurcas, polcas, marchinhas carnavalescas, foxtrotes e sobretudo seus famosos tangos. Estes, na realidade, não eram tangos, assemelhavam-se mais a maxixes, forma intermediária que já é quase o samba. Mas ai de quem assim dissesse! Nazareth abominava que chamassem seus queridos tangos de maxixes, que carregavam então o estigma de ser “dança de negros”.

O que Nazareth trouxe para a música popular foi, além de seu gênio que brotava incoercível, o  requinte de um pianista erudito. Pianeiro de profissão, ganhava a vida tocando piano em lojas que vendiam partituras ou então em luxuosas casas como o Cinema Odeon. Este deu origem ao chorinho Odeon, que muito mais tarde receberia letra de Vinicius de Moraes. Ouve-se logo que ali está um compositor diferente. Mário o louva porque suas composições fogem do vocal, sendo antes obra de instrumentista: não são estróficas nem se baseiam na frase oral, como de praxe aquelas para cantar.

Mostrando sua verve crítica incomparável, Mário dedica ainda uma boa reflexão à titulação de Nazareth – até disso ele é fã! Argumenta que já havia uma tradição de títulos jocosos cheios de pieguice e malícia, na linha dos seresteiros, que Nazareth vai incrementar. Pertencem a essa tradição “Brejeiro” (recordista em execuções), “Apanhei-te cavaquinho”, “Está chumbado” – que imita o cambalear de um beberrão…  e inúmeros outros.

Nazareth é o primeiro dos quatro que selecionamos, e pode-se dizer que seu talento inigualável paira como lume benfazejo sobre o tesouro que é a música brasileira, tecendo uma continuidade que vai do popular ao erudito e vice-versa.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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