As Mulheres Deixaram de Pedir Licença
por Maria Luiza Falcão Silva
Durante séculos, a sociedade ensinou às mulheres que seu lugar era obedecer. Obedecer ao pai, depois ao marido e, por fim, às convenções de uma ordem social construída por homens e para homens. Sua presença na vida pública era vista como exceção. Sua autonomia, como ameaça.
No Brasil, essa condição possuía até respaldo legal.
Pouca gente se lembra de que, até 1962, uma mulher casada precisava da autorização do marido para exercer uma atividade profissional. O Código Civil de 1916 atribuía ao homem a condição de chefe da sociedade conjugal e tratava a esposa como relativamente incapaz para diversos atos da vida civil. Apenas com o Estatuto da Mulher Casada, aprovado naquele ano, elas conquistaram o direito de trabalhar sem depender do consentimento do marido. A igualdade jurídica plena entre homens e mulheres no casamento somente seria consagrada pela Constituição de 1988.
Essa lembrança histórica não pertence apenas aos livros de Direito. Ela ajuda a compreender um fenômeno político que atravessa o mundo contemporâneo: o desconforto de setores da extrema direita diante da crescente autonomia política das mulheres.
Não se trata de impedir que elas votem. Essa batalha foi perdida há muito tempo. O novo desafio consiste em desqualificar suas escolhas quando elas contrariam determinados projetos políticos.
A linguagem mudou.
A lógica permanece surpreendentemente semelhante.
Quando o voto feminino passa a incomodar
Donald Trump tornou-se talvez o maior símbolo internacional dessa contradição.
Ao longo de sua trajetória política, construiu um discurso baseado na defesa da liberdade individual, mas frequentemente reagiu com evidente desconforto quando pesquisas mostravam ampla rejeição entre o eleitorado feminino.
Em vez de perguntar por que tantas mulheres rejeitavam suas propostas, suas explicações frequentemente apontavam para fatores externos: a imprensa, as universidades, o feminismo, Hollywood, os professores, a chamada cultura “woke“.
A conclusão implícita era sempre parecida. Se uma mulher votava em Trump, fazia uma escolha livre. Se votava contra ele, provavelmente havia sido manipulada.
Essa forma de pensar não nega formalmente o direito ao voto. Mas questiona silenciosamente a capacidade das mulheres de exercerem sua autonomia política.
A mensagem é sutil, porém poderosa: quando escolhem diferente, não estariam decidindo por si mesmas.
O medo da independência feminina
Esse comportamento não nasceu com Trump.
Durante décadas, opositores do sufrágio feminino sustentavam que mulheres eram excessivamente emocionais para participar da política. Diziam que lhes faltava racionalidade para decidir os destinos da nação.
Mais de um século depois, o argumento ganhou nova embalagem. Já não se afirma que mulheres são incapazes de votar. Afirma-se que votam “mal”.
Foi exatamente essa ideia que voltou ao debate brasileiro recentemente.
O influenciador Paulo Figueiredo, um dos principais interlocutores internacionais do bolsonarismo, afirmou que “mulheres votam muito mal”, acrescentando que mulheres casadas costumam acompanhar o voto dos maridos. A declaração gerou forte repercussão e acabou sendo repudiada até por Flávio Bolsonaro, preocupado com sua campanha eleitoral à presidência de 2026, que a classificou como equivocada e ofensiva. Paulo Figueiredo, contudo, não recuou do conteúdo de sua tese.
O episódio é revelador. Mais importante do que a frase em si é a concepção de sociedade que ela revela. Ela parte do pressupost de que o voto feminino precisa ser explicado sempre que produz resultados indesejados.
Nunca se admite, simplesmente, que milhões de mulheres possam chegar, por conta própria, a conclusões políticas diferentes.
A dificuldade da extrema direita
Não é coincidência que o eleitorado feminino tenha se tornado uma das maiores preocupações estratégicas da extrema direita em diversos países.
Nos Estados Unidos, pesquisas sucessivas mostram desempenho inferior de Trump entre mulheres. No Brasil, ocorre fenômeno semelhante.
As dificuldades do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino tornaram-se tão evidentes que Flávio Bolsonaro passou a investir fortemente na tentativa de reduzir essa rejeição, discutindo inclusive a escolha de uma mulher para compor sua chapa e buscando ampliar o diálogo com esse segmento do eleitorado.
Essa movimentação revela um reconhecimento político importante. As mulheres não constituem apenas metade do eleitorado. Elas passaram a decidir eleições. E isso modifica profundamente a dinâmica do poder.
Durante muito tempo, imaginou-se que a política seria conduzida predominantemente pelos homens e legitimada pelas famílias.
Hoje, mulheres possuem renda própria, formação universitária, ocupam posições de liderança, organizam movimentos sociais, comandam empresas e bancos, dirigem universidades, governam países e fazem escolhas políticas independentes.
É exatamente essa autonomia que incomoda setores autoritários.
Da autorização para trabalhar à autorização para pensar
Existe uma impressionante continuidade histórica entre o passado e o presente. Ontem, dizia-se que mulheres precisavam da autorização do marido para trabalhar. Hoje, alguns parecem acreditar que precisam da autorização de líderes políticos, influenciadores ou líderes religiosos para pensar.
Mudam as formas. Permanece a dificuldade em aceitar a independência feminina.
Não por acaso, ataques ao feminismo costumam caminhar lado a lado com ataques às universidades, às professoras, às jornalistas, às artistas e às instituições responsáveis pela formação crítica da sociedade.
No fundo, o que está em disputa não é apenas uma eleição.
É o reconhecimento de que mulheres são sujeitos políticos plenamente autônomos.
A democracia começa pela autonomia
A democracia não consiste apenas no direito formal de depositar um voto na urna. Ela pressupõe algo muito mais profundo: reconhecer que cada cidadão possui plena capacidade para formar suas próprias convicções.
Quando se afirma que mulheres votam “mal”, ou que votam apenas porque foram manipuladas, não se está criticando um resultado eleitoral. Está-se questionando sua capacidade de decidir.
Essa ideia já não propõe retirar direitos conquistados. Procura apenas desqualificar quem ousa exercê-los.
As mulheres brasileiras passaram séculos pedindo licença para estudar, trabalhar, administrar seus bens e participar da vida pública. Não precisarão pedir licença para votar.
E talvez seja exatamente isso que mais assuste aqueles que ainda sonham com um mundo em que a autoridade masculina definia não apenas o destino da família, mas também o destino da democracia.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
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AMBAR
14 de julho de 2026 2:01 amSOBRE A CAPACIDADE DA MULHER.
A Lei 3.071 de 1.o de Janeiro de 1916 – O CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO, vigeu de 1916 até 2002.
Foram quase 100 anos em que os homens brasileiros sobrepuseram seus direitos, por escrito aos demais seres que não eles.
(Afinal, os homens em geral só tiveram seus direitos humanos reconhecidos em 02/10/1789, na Revolução Francesa)
O CÓDIGO CIVIL DE 1916
Na sua Parte Geral, no seu artigo segundo dizia:
…………
Art. 2. Todo homem é capaz de direitos e obrigações na ordem civil.
Quanto às mulheres a lei assim determinava:
“Art. 6. São incapazes, relativamente a certos atos (art. 147, n. 1), ou à maneira de os exercer:
I. Os maiores de dezesseis e menores de vinte e um anos (arts. 154 a 156).
II. As mulheres casadas, enquanto subsistir a sociedade conjugal.
III. Os pródigos.
IV. Os silvícolas.
…………….
Grande progresso se considerarmos que a mulher casada, tanto quanto seus filhos, eram considerados patrimônio do marido no direito romano ( no qual se inspirou nossa legislação)
Sobre as impressões de Trump quanto a capacidade de votar das mulheres percebe-se que, de modo geral, não só ele, mas o homem comum não acredita que a mulher seja um ser individual. Talvez por estar sempre à serviço da família ou sob dependência econômica, ela não seja vista como sujeito de necessidades ou aspirações próprias.
Até os homens mais inteligentes têm essa percepção, e não raro surpreendem-se com o abandono das mulheres por causa disso.
Outrossim, quando se diz que ontem, as mulheres precisavam da autorização do marido para trabalhar não se lida com a verdade dos fatos.
A mulher bem casada não precisava de autorização do marido para trabalhar, ela trabalhava quando queria, quando tinha emprego ou quando precisava, afinal havia comum acordo.
Por outro lado, a mulher casada contava com o aval do estado para seu controle e opressão pelo marido:
A CLT – que vigorou de 1943 a 1989:
(Decreto Lei 5452 de 1.o de maio de 1943) assim previa:
“Art. 446 – Presume-se autorizado o trabalho da mulher casada e do menor de 21 anos e maior de 18. Em caso de oposição conjugal ou paterna, poderá a mulher ou o menor recorrer ao suprimento da autoridade judiciária competente. (Revogado pela Lei nº 7.855, de 24.10.1989)”
Parágrafo único. Ao marido ou pai é facultado pleitear a rescisão do contrato de trabalho, quando a sua continuação for suscetível de acarretar ameaça aos vínculos da família, perigo manifesto às condições peculiares da mulher ou prejuízo de ordem física ou moral para o menor. (Revogado pela Medida provisória nº 89, de 1989) (Revogado pela Lei nº 7.855, de 24.10.1989)
Foi a necessidade , o mal casamento e o abandono que levou as mulheres à luta pela sobrevivência sua e de seus filhos, e a terem que competir no mercado de trabalho impondo-se de qualquer maneira, mesmo suportando vicissitudes e desconsideração. (Vide Carolina Maria de Jesus, por exemplo) .
Ah! e não nos esqueçamos das guerras.
Se hoje alguns homens parecem acreditar que as mulheres precisam da autorização de líderes políticos, influenciadores ou líderes religiosos para pensar eles, seguramente, estarão equivocados. A mulher só não faz o que ela não quer, e às vezes por se acomodar acaba por ter que fazer mais do que precisava.
As mulheres que sempre tiveram tudo não poderiam entender a necessidade das que não tinham, tampouco percebiam que careciam de direitos quando nada lhes faltava, tanto quanto os homens que sempre dispuseram do trabalho ou da boa vontade das mulheres.
Ainda hoje é assim.
Quanto ao “repúdio” do Flávio sobre as declarações do “figueiredinho, neto do ditador”, tenhamos como mais uma de suas manifestações de hipocrisia, já que o Figueiredo neto mandou o Flávio desautoriza-lo com o discurso de que ” As mulheres votam bem, tanto é que vão votar em mim ( Flávio)
https://twitter.com/i/status/2072364164010442944
Ainda a esse respeito, designação de uma candidata à vice, especificamente, em vez de qualquer candidato, será mais uma demonstração de machismo do Flávio, onde ele se utilizará de uma mulher para enganar as mulheres e delas se aproveitar.
SOBRE O VOTO EMOCIONAL
O voto. mais que um ato consciente, é SIM , um ato emocional, independentemente do gênero do eleitor. Dizem até que o brasileiro vota com o fígado . Assim não fosse os bolsonaristas não matariam lulistas em festa de aniversário, não caminhariam centenas de quilômetros até rasgarem os pés e nem estariam urrando na chuva, levando raios na cabeça pedindo a “liberdade para o capitão”.
Desconsideremos, portanto, as “considerações” do figueiredinho sobre o voto feminino, e rezemos para que ninguém mais se exploda na frente do STF.