11 de julho de 2026

As Mulheres Deixaram de Pedir Licença, por Maria Luiza Falcão

Durante décadas, opositores do sufrágio feminino sustentavam que mulheres eram excessivamente emocionais para participar da política.
Passeata dos artistas de Teatro - Greve contra a Censura - Reprodução

Até 1962, mulheres casadas no Brasil precisavam da autorização do marido para trabalhar, com igualdade plena só em 1988.
Setores da extrema direita desqualificam o voto feminino quando contraria seus interesses, questionando a autonomia política das mulheres.
Mulheres hoje decidem eleições e ocupam posições de liderança, incomodando autoritários que resistem à independência feminina.

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As Mulheres Deixaram de Pedir Licença

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por Maria Luiza Falcão Silva

Durante séculos, a sociedade ensinou às mulheres que seu lugar era obedecer. Obedecer ao pai, depois ao marido e, por fim, às convenções de uma ordem social construída por homens e para homens. Sua presença na vida pública era vista como exceção. Sua autonomia, como ameaça.

No Brasil, essa condição possuía até respaldo legal.

Pouca gente se lembra de que, até 1962, uma mulher casada precisava da autorização do marido para exercer uma atividade profissional. O Código Civil de 1916 atribuía ao homem a condição de chefe da sociedade conjugal e tratava a esposa como relativamente incapaz para diversos atos da vida civil. Apenas com o Estatuto da Mulher Casada, aprovado naquele ano, elas conquistaram o direito de trabalhar sem depender do consentimento do marido. A igualdade jurídica plena entre homens e mulheres no casamento somente seria consagrada pela Constituição de 1988.

Essa lembrança histórica não pertence apenas aos livros de Direito. Ela ajuda a compreender um fenômeno político que atravessa o mundo contemporâneo: o desconforto de setores da extrema direita diante da crescente autonomia política das mulheres.

Não se trata de impedir que elas votem. Essa batalha foi perdida há muito tempo. O novo desafio consiste em desqualificar suas escolhas quando elas contrariam determinados projetos políticos.

A linguagem mudou.

A lógica permanece surpreendentemente semelhante.

Quando o voto feminino passa a incomodar

Donald Trump tornou-se talvez o maior símbolo internacional dessa contradição.

Ao longo de sua trajetória política, construiu um discurso baseado na defesa da liberdade individual, mas frequentemente reagiu com evidente desconforto quando pesquisas mostravam ampla rejeição entre o eleitorado feminino.

Em vez de perguntar por que tantas mulheres rejeitavam suas propostas, suas explicações frequentemente apontavam para fatores externos: a imprensa, as universidades, o feminismo, Hollywood, os professores, a chamada cultura “woke“.

A conclusão implícita era sempre parecida. Se uma mulher votava em Trump, fazia uma escolha livre. Se votava contra ele, provavelmente havia sido manipulada.

Essa forma de pensar não nega formalmente o direito ao voto. Mas questiona silenciosamente a capacidade das mulheres de exercerem sua autonomia política.

A mensagem é sutil, porém poderosa: quando escolhem diferente, não estariam decidindo por si mesmas.

O medo da independência feminina

Esse comportamento não nasceu com Trump.

Durante décadas, opositores do sufrágio feminino sustentavam que mulheres eram excessivamente emocionais para participar da política. Diziam que lhes faltava racionalidade para decidir os destinos da nação.

Mais de um século depois, o argumento ganhou nova embalagem. Já não se afirma que mulheres são incapazes de votar. Afirma-se que votam “mal”.

Foi exatamente essa ideia que voltou ao debate brasileiro recentemente.

O influenciador Paulo Figueiredo, um dos principais interlocutores internacionais do bolsonarismo, afirmou que “mulheres votam muito mal”, acrescentando que mulheres casadas costumam acompanhar o voto dos maridos. A declaração gerou forte repercussão e acabou sendo repudiada até por Flávio Bolsonaro, preocupado com sua campanha eleitoral à presidência  de 2026, que a classificou como equivocada e ofensiva. Paulo Figueiredo, contudo, não recuou do conteúdo de sua tese.

O episódio é revelador. Mais importante do que a frase em si é a concepção de sociedade que ela revela. Ela parte do pressupost de que o voto feminino precisa ser explicado sempre que produz resultados indesejados.

Nunca se admite, simplesmente, que milhões de mulheres possam chegar, por conta própria, a conclusões políticas diferentes.

A dificuldade da extrema direita

Não é coincidência que o eleitorado feminino tenha se tornado uma das maiores preocupações estratégicas da extrema direita em diversos países.

Nos Estados Unidos, pesquisas sucessivas mostram desempenho inferior de Trump entre mulheres. No Brasil, ocorre fenômeno semelhante.

As dificuldades do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino tornaram-se tão evidentes que Flávio Bolsonaro passou a investir fortemente na tentativa de reduzir essa rejeição, discutindo inclusive a escolha de uma mulher para compor sua chapa e buscando ampliar o diálogo com esse segmento do eleitorado.

Essa movimentação revela um reconhecimento político importante. As mulheres não constituem apenas metade do eleitorado. Elas passaram a decidir eleições. E isso modifica profundamente a dinâmica do poder.

Durante muito tempo, imaginou-se que a política seria conduzida predominantemente pelos homens e legitimada pelas famílias.

Hoje, mulheres possuem renda própria, formação universitária, ocupam posições de liderança, organizam movimentos sociais, comandam empresas e bancos, dirigem universidades, governam países e fazem escolhas políticas independentes.

É exatamente essa autonomia que incomoda setores autoritários.

Da autorização para trabalhar à autorização para pensar

Existe uma impressionante continuidade histórica entre o passado e o presente. Ontem, dizia-se que mulheres precisavam da autorização do marido para trabalhar. Hoje, alguns parecem acreditar que precisam da autorização de líderes políticos, influenciadores ou líderes religiosos para pensar.

Mudam as formas. Permanece a dificuldade em aceitar a independência feminina.

Não por acaso, ataques ao feminismo costumam caminhar lado a lado com ataques às universidades, às professoras, às jornalistas, às artistas e às instituições responsáveis pela formação crítica da sociedade.

No fundo, o que está em disputa não é apenas uma eleição.

É o reconhecimento de que mulheres são sujeitos políticos plenamente autônomos.

A democracia começa pela autonomia

A democracia não consiste apenas no direito formal de depositar um voto na urna. Ela pressupõe algo muito mais profundo: reconhecer que cada cidadão possui plena capacidade para formar suas próprias convicções.

Quando se afirma que mulheres votam “mal”, ou que votam apenas porque foram manipuladas, não se está criticando um resultado eleitoral. Está-se questionando sua capacidade de decidir.

Essa ideia já não propõe retirar direitos conquistados. Procura apenas desqualificar quem ousa exercê-los.

As mulheres brasileiras passaram séculos pedindo licença para estudar, trabalhar, administrar seus bens e participar da vida pública. Não precisarão pedir licença para votar.

E talvez seja exatamente isso que mais assuste aqueles que ainda sonham com um mundo em que a autoridade masculina definia não apenas o destino da família, mas também o destino da democracia.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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