Por que o crédito é tão caro no Brasil (2)?
Artigo 2 – O banco é o vilão? O que realmente está por trás dos juros cobrados no Brasil
por Maurício Martinelli Luperi
No artigo anterior vimos que o Brasil possui diversas formas de financiamento — bancos, cooperativas de crédito, fintechs, empresas de fomento mercantil, FIDCs, securitizadoras e antecipação de recebíveis. Mas também vimos que, para a imensa maioria das famílias e das pequenas e médias empresas, o sistema bancário continua sendo a principal fonte de crédito.
A pergunta que naturalmente surge é simples:
Se os bancos são os principais fornecedores de crédito, seriam eles os únicos responsáveis pelos juros elevados?
A resposta é mais complexa do que parece.
O que existe dentro dos juros que o banco cobra?
Quando uma instituição financeira empresta dinheiro, a taxa cobrada não corresponde apenas ao lucro do banco.
Ela é formada por diversos componentes.
O primeiro deles é o próprio custo de obtenção dos recursos.
Em seguida aparecem as perdas esperadas com inadimplência, as despesas administrativas, os tributos, as exigências regulatórias, o custo do capital exigido pelos acionistas e, finalmente, a margem líquida da instituição.
Em outras palavras, quando um empréstimo custa caro, nem todo esse valor representa ganho bancário.
Mas isso não significa que o problema esteja resolvido.
A verdadeira questão é saber por que todos esses componentes são tão elevados justamente no Brasil.
A explicação tradicional
Ao longo dos últimos vinte anos, pesquisadores do Banco Central, como Eduardo Nakane, Rita de Cássia Afanasieff, Márcio Lhacer e Fernando Koyama, procuraram decompor o spread bancário brasileiro.
Os estudos mostram que vários fatores contribuem para sua formação.
Entre eles estão:
- inadimplência;
- despesas administrativas;
- tributos;
- depósitos compulsórios;
- custos regulatórios;
- margem financeira.
Esses trabalhos são importantes porque demonstram que não existe uma única causa para os juros elevados.
Mas eles também levantam uma pergunta incômoda.
A inadimplência explica tudo?
Sempre que o debate reaparece, a resposta costuma ser imediata:
“Os juros são altos porque o brasileiro não paga suas dívidas.”
A afirmação possui lógica.
Se muitos clientes deixam de pagar, os bancos precisam incorporar essas perdas aos empréstimos concedidos aos demais.
O problema é que essa explicação olha apenas uma direção da relação.
Ela pressupõe que a inadimplência produz juros elevados.
Mas será que o contrário também acontece?
Imagine uma pequena empresa que toma capital de giro para atravessar uma queda temporária nas vendas.
Se a taxa de juros for muito elevada, a dívida cresce rapidamente.
Mesmo uma empresa economicamente saudável pode transformar um problema de liquidez em insolvência.
O mesmo ocorre com as famílias.
Uma dívida de cartão de crédito ou cheque especial pode crescer em ritmo muito superior ao da renda.
Nesse caso, juros elevados deixam de ser apenas consequência da inadimplência.
Passam também a produzi-la.
A relação deixa de ser linear.
Forma-se um círculo vicioso.
Os bancos ganham apenas emprestando dinheiro?
Outro argumento muito utilizado afirma que os bancos obtêm a maior parte de seus lucros por meio da prestação de serviços, e não dos spreads.
Isso é parcialmente verdadeiro.
As receitas bancárias incluem tarifas, administração de recursos, seguros, cartões, investimentos e diversas outras operações.
Mas isso não elimina a importância do crédito.
O crédito continua sendo uma das principais atividades do sistema bancário e exerce enorme influência sobre toda a economia.
Mais importante do que perguntar de onde vem o lucro dos bancos é perguntar:
Por que o financiamento da produção continua tão caro?
O empresário paga uma conta diferente
Quando um consumidor encontra juros elevados, normalmente adia uma compra.
Quando uma empresa encontra juros elevados, muitas vezes adia um investimento.
Essa diferença muda completamente a economia.
Capital de giro caro significa menos produção.
Menos estoques.
Menos máquinas.
Menos contratação de trabalhadores.
Menor crescimento.
Por isso, discutir spreads bancários não é discutir apenas bancos.
É discutir desenvolvimento econômico.
Concentração importa, mas não resolve o enigma
Outra explicação recorrente aponta a elevada concentração do sistema bancário brasileiro.
Poucas instituições concentram grande parte dos depósitos, do crédito e dos meios de pagamento.
Isso reduz a pressão competitiva.
Mas novamente surge uma dúvida.
Os Estados Unidos também possuem grandes conglomerados financeiros.
Então por que os resultados são tão diferentes?
Porque a concorrência não ocorre apenas entre bancos.
Ela ocorre entre diferentes formas de financiamento.
Uma empresa americana pode recorrer aos bancos, mas também emitir títulos privados, utilizar commercial papers, acessar fundos de crédito, captar recursos junto ao mercado ou recorrer a diversos outros instrumentos.
No Brasil, embora existam alternativas importantes — como cooperativas, factorings, FIDCs, securitizadoras e fintechs — elas ainda não possuem escala suficiente para reduzir de forma significativa a predominância bancária no financiamento da atividade produtiva.
Em outras palavras:
A concorrência existe.
Mas ainda é limitada.
O que os estudos deixam de explicar?
Até aqui, vimos que a literatura tradicional identifica corretamente vários elementos que compõem o spread.
Ela ajuda a responder como os juros são formados.
Mas responde apenas parcialmente por que eles permanecem tão elevados.
Por que a inadimplência brasileira é maior?
Por que o custo financeiro é tão elevado?
Por que o empresário depende tanto do crédito bancário?
Por que o mercado de capitais continua pouco acessível para pequenas e médias empresas?
Por que a remuneração das aplicações financeiras permanece tão elevada?
Responder essas perguntas exige sair da contabilidade dos bancos e olhar para a arquitetura do sistema financeiro.
É exatamente isso que faremos no próximo artigo.
O personagem que ainda não entrou em cena
Até aqui falamos de bancos.
No próximo artigo aparecerá o personagem que organiza praticamente todo o sistema financeiro brasileiro:
a Selic.
Veremos que ela não influencia apenas o custo dos empréstimos.
Ela influencia também a remuneração dos títulos públicos, o comportamento dos bancos, as decisões dos investidores, o custo do capital de giro e, de forma muito particular no Brasil, toda a estrutura das taxas de juros.
Discutiremos ainda um aspecto pouco conhecido do público.
O economista Yoshiaki Nakano mostrou que a ampla utilização de títulos públicos indexados à Selic — as LFTs — aproxima os juros de curto e de longo prazo.
Recentemente, José Luis Oreiro retomou essa discussão ao observar que essa característica tende a tornar a curva de juros brasileira mais “flat”, isto é, mais achatada e muito mais dependente da taxa básica do que ocorre em economias como a americana.
Talvez seja justamente aí que comece a diferença mais profunda entre Brasil e Estados Unidos.
E talvez seja aí que esteja uma parte importante da explicação para os spreads brasileiros.
Porque, afinal, um banco nunca empresta dinheiro isoladamente.
Ele sempre decide entre emprestar à economia real ou aplicar seus recursos em ativos financeiros.
E essa escolha começa muito antes da porta da agência bancária.
Começa na própria arquitetura monetária construída pelo país.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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