11 de julho de 2026

E se Flávio perder?, por Gustavo Tapioca

Da guerra ao terror ao narcoterrorismo, a nova doutrina de Donald Trump coloca uma pergunta inédita no centro da eleição brasileira.
Imagem gerada por IA

EUA classificam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, afetando investigações brasileiras.
Governo Lula rejeita definição unilateral dos EUA, defendendo combate via cooperação e soberania nacional.
Pergunta central: EUA respeitarão resultado eleitoral se Flávio Bolsonaro perder em 2026?

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E se Flávio perder? 

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por Gustavo Tapioca 

O assunto voltou, de repente, às manchetes brasileiras. 

Nos últimos dias, a própria Polícia Federal informou que sanções adotadas pelos Estados Unidos contra pessoas investigadas por ligação com o PCC interferiram em uma investigação brasileira e contribuíram para a fuga de um dos alvos.  

O episódio recolocou no centro do debate uma decisão tomada pelo governo Donald Trump que, à primeira vista, parecia apenas uma mudança de nomenclatura: classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. 

Não é apenas uma mudança de palavras 

Durante décadas, o narcotráfico foi tratado como questão de polícia, investigação, inteligência e cooperação internacional. Ao substituir a expressão “narcotraficantes” por “narcoterroristas”, Washington desloca o problema para outro terreno: o da segurança nacional dos Estados Unidos. 

Essa mudança altera profundamente o significado político da questão. 

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 — que derrubaram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York — o Congresso norte-americano aprovou uma autorização para o uso da força militar que inaugurou a chamada “guerra ao terror”.  

Ao longo dos anos, essa doutrina serviu de fundamento para operações militares, intervenções e ataques em diversos países. 

O primeiro caso foi o Afeganistão, em 2001, quando os Estados Unidos invadiram o país para derrubar o Talibã e destruir bases da Al Qaeda. Em nome da luta contra o terrorismo. 

Depois vieram operações militares e ataques contra grupos classificados como terroristas no Paquistão, no Iêmen, na Somália, na Síria e no Iraque. 

Ao longo de um quarto de século, a guerra ao terror deixou de ser apenas uma resposta aos atentados de Nova York e Washington.  

Transformou-se em um dos principais instrumentos de projeção militar e política dos Estados Unidos. 

Agora surge uma novidade que merece toda a atenção da América Latina. Pela primeira vez, organizações do narcotráfico passam a ser enquadradas oficialmente dentro dessa mesma lógica. 

O Paquistão oferece um exemplo particularmente revelador dessa doutrina 

Em maio de 2011, forças especiais dos Estados Unidos cruzaram a fronteira sem informar previamente o governo paquistanês, localizaram Osama bin Laden na cidade de Abbottabad, mataram o líder da Al Qaeda e levaram seu corpo, posteriormente lançado ao mar. 

A justificativa foi a própria lógica da guerra ao terror: quando Washington considera determinado alvo uma ameaça direta à segurança nacional dos Estados Unidos, a soberania do país onde ele se encontra deixa de ser considerada um limite absoluto para a ação militar. 

O episódio tornou-se emblemático porque o Paquistão era, oficialmente, aliado dos Estados Unidos na guerra ao terrorismo. Nem isso impediu que a operação fosse executada sem conhecimento prévio das autoridades paquistanesas. 

Venezuela: o precedente recente na América do Sul 

Sob acusações de narcoterrorismo, Donald Trump determinou uma operação militar que culminou com a captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.  

Independentemente do julgamento político que cada um faça sobre o regime venezuelano, o precedente está colocado: a acusação de narcoterrorismo passou a integrar a justificativa apresentada pelo governo norte-americano para uma ação direta contra outro Estado. 

É justamente esse precedente que torna o debate brasileiro muito mais sério. 

Ninguém discute que o PCC e o Comando Vermelho devem ser combatidos com firmeza pelo Estado brasileiro. 

A posição do governo Lula nunca foi a de negar a gravidade do PCC e do Comando Vermelho. 

Ao contrário. A Polícia Federal, o Ministério da Justiça e os órgãos de inteligência brasileiros vêm tratando as duas facções como organizações criminosas de alta periculosidade, com redes nacionais e internacionais de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, armas e controle territorial. 

A divergência do governo brasileiro com Washington é outra. O Brasil defende que PCC e Comando Vermelho sejam combatidos como organizações criminosas, por meio de investigação, inteligência financeira, cooperação policial, bloqueio de bens, prisão de lideranças e desarticulação de redes de lavagem de dinheiro. 

O que o governo Lula rejeita é entregar aos Estados Unidos a prerrogativa de redefinir unilateralmente o crime organizado brasileiro como terrorismo internacional. 

Não se trata, portanto, de proteger facções. Trata-se de proteger a soberania nacional. 

A divergência é outra 

A própria Polícia Federal já demonstrou o problema concreto dessa mudança. Segundo o diretor-geral, Andrei Rodrigues, sanções anunciadas pelos Estados Unidos contra investigados ligados ao PCC atrapalharam uma operação brasileira em andamento e contribuíram para a fuga de um dos alvos.  

Ou seja: a ação unilateral de Washington não fortaleceu o combate ao crime organizado. Ao contrário, interferiu numa investigação conduzida pelo Estado brasileiro. 

O Itamaraty também alertou que a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas não traria benefícios concretos à cooperação internacional e poderia produzir impactos econômicos, jurídicos e de soberania para o Brasil. 

Esta é a linha divisória que precisa ser compreendida. Combater o crime organizado é dever do Estado brasileiro. Aceitar que outro país transforme esse combate em pretexto para sanções, ingerência ou eventual ação de força é outra coisa. 

A divergência do governo brasileiro com Washington é outra. 

Ao transformar organizações criminosas em organizações terroristas, Washington não muda apenas uma definição jurídica. Muda a doutrina sob a qual passa a olhar para os países onde essas organizações atuam. 

A verdadeira questão é outra 

À medida que as dificuldades jurídicas para registrar sua candidatura presidencial se tornavam mais evidentes, Flávio Bolsonaro passou a assumir pessoalmente um papel que, desde abril de 2025, vinha sendo desempenhado principalmente por seu irmão Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. 

As viagens a Washington intensificaram-se. Vieram encontros com integrantes do círculo político de Donald Trump, contatos com Marco Rubio e a aproximação cada vez maior com o núcleo do trumpismo.  

Ao mesmo tempo, Eduardo Bolsonaro manteve sua atuação junto a Steve Bannon e outros aliados internacionais da ultradireita trumpista. Também vieram declarações que não podem ser ignoradas. 

Flávio Bolsonaro já elogiou operações militares norte-americanas contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e sugeriu que lógica semelhante fosse aplicada à Baía de Guanabara. 

Eduardo Bolsonaro já ironizou autoridades brasileiras afirmando que seria mais fácil um porta-aviões norte-americano chegar ao Lago Paranoá do que determinadas autoridades brasileiras serem recebidas em Washington. 

Nassif liga os fatos 

Separadamente, cada episódio pode parecer apenas mais uma controvérsia política. Em conjunto, porém, eles desenham um quadro que merece reflexão. Tarifas comerciais. Sanções contra autoridades brasileiras. Pressões diplomáticas. 

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. A aproximação cada vez maior entre o bolsonarismo e o núcleo político de Donald Trump. 

Foi esse encadeamento que Luís Nassif chamou atenção em artigo publicado nesta quarta-feira, 8, no GGN. Sua principal contribuição foi mostrar que esses fatos podem ser compreendidos como partes de um cenário estratégico mais amplo. 

Perguntas muito difíceis? 

É justamente aí que surge a pergunta que talvez seja a mais importante da eleição de 2026. 

E se Flávio Bolsonaro for candidato e perder a eleição de outubro como indicam as pesquisas? 

Os Estados Unidos reconhecerão naturalmente a decisão soberana das urnas brasileiras? 

Ou a nova doutrina do narcoterrorismo poderá tornar-se mais um instrumento de pressão política, econômica e diplomática sobre o Brasil? 

Não há elementos públicos que permitam afirmar que exista um plano de intervenção contra o país. 

Mas há fatos suficientes para justificar que essa pergunta seja feita antes da eleição — e não depois dela. 

Durante um quarto de século, a guerra ao terror serviu de fundamento para operações militares dos Estados Unidos em diferentes partes do mundo. 

Agora, pela primeira vez, sua lógica alcança diretamente o Brasil por meio da classificação de facções criminosas como organizações terroristas. 

Talvez o debate mais importante desta campanha já não seja apenas quem vencerá as eleições de outubro. Talvez seja outro. 

Como reagirá Washington se seu principal aliado político for derrotado nas urnas brasileiras? 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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