14 de julho de 2026

A geopolítica da Copa das contradições, por Samuel Penteado Urban

FIFA escolheu para sede um país que não tem tradição no futebol e tem por prática a desunião dos povos. O ideal seria se fosse no México.
Divulgação FIFA

FIFA promove Copa em EUA, país sem tradição no futebol, enquanto Rússia é banida por conflito com Ucrânia.
Seleção do Irã enfrenta restrições logísticas e diplomáticas nos EUA, treinando no México durante a Copa.
Protestos pró-Palestina ocorrem na Copa, com manifestações e apoio de técnicos e jogadores em meio a tensões geopolíticas.

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A geopolítica da Copa das contradições

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por Samuel Penteado Urban

Vivemos em uma sociedade onde o futebol adquire centralidade, regendo parte de nossas vidas, queiramos ou não. Sua presença manifesta-se, por exemplo, nas vestimentas, nas conversas cotidianas, funcionando inclusive como pretexto para interagir com conhecidos e desconhecidos; bem como no fato de ser o esporte mais praticado nas horas de lazer em grande parte do planeta. No Brasil, isso não é diferente, sobretudo nos períodos de Copa do Mundo de futebol masculino. O esporte também é utilizado nas mais diversas escalas comerciais e empresariais — do bar de esquina à indústria cervejeira, da padaria que faz salgados sob encomenda à rede de fast-food —, servindo para alavancar vendas e aquecer a economia de determinados setores.

Sendo, então, uma das maiores instituições sociais da atualidade — e, como as demais (a escola, por exemplo), estando inserido na sociedade capitalista —, o futebol acaba reproduzindo as contradições oriundas do atual contexto sócio-histórico. E nesta Copa do Mundo, é possível observar de forma nítida e concreta algumas das contradições que a envolvem, sobretudo no que se refere à relação entre os Estados Unidos (EUA) e seus inimigos externos.

Transformado em mercadoria, a primeira contradição perceptível é que, ao mesmo tempo em que a Federação Internacional de Futebol (FIFA) tenta propagar a ideia de união dos povos, promoveu uma Copa do Mundo de futebol masculino em um país sem tradição no esporte e que adota, por essência, práticas de desunião. Pensando estritamente sob a ótica do futebol, o ideal seria que todo esse evento fosse realizado no México.

Ainda sobre a escolha da sede principal da Copa, é evidente a existência de dois pesos e duas medidas. Ou seja, enquanto a Rússia foi banida de todas as competições internacionais devido ao conflito com a Ucrânia, os Estados Unidos não apenas participam da Copa, como são a sede principal do evento da FIFA, mesmo estando ligados, direta e indiretamente, à diferentes conflitos e invasões pelo mundo. Destacam-se, principalmente, os ataques dos EUA ao Irã e o genocídio do povo palestino.

Sobre a seleção nacional do Irã, vale apontar que a equipe se classificou para a Copa do Mundo de 2026 na primeira colocação de seu grupo (Grupo A) durante as eliminatórias asiáticas, com os mesmos 23 pontos do Japão, que também se classificou no primeiro lugar do Grupo C.

Dito isso, a seleção do Irã tem sofrido, desde o início de sua participação no torneio, restrições “incompatíveis com o princípio de igualdade de condições para as equipes participantes, e que poderiam afetar a preparação técnica da seleção”, conforme publicou a Federação Iraniana de Futebol (FFI).

Isso tem ocorrido em função dos empecilhos logísticos e diplomáticos promovidos pela Casa Branca, o que obrigou a delegação do Irã a estabelecer sua base de treinamentos e concentração em Tijuana, no México, muito embora seus jogos da primeira fase estivessem sendo realizados nos EUA.

Problemas dessa natureza continuaram acontecendo mesmo após a promessa dos EUA de flexibilizar as restrições de viagem à delegação iraniana. Um exemplo ocorreu em 23 de junho, quando autoridades estadunidenses criaram entraves para a delegação, resultando em atrasos para o jogo entre Irã e Egito, conforme novo comunicado da FFI.

Não esqueçamos também da proibição da camisa da seleção do Haiti, que representava em seu uniforme a revolução haitiana, a qual resultou na abolição da escravidão e na independência do país (1791-1804), e do sistema de precificação dinâmica, que faz com que ingressos cheguem a custar até 60 mil reais. Isso deixa evidente que, junto às propagandas de apostas esportivas, o lucro tem tido centralidade nesta Copa como nunca antes visto.

Sobre esse cenário, faz-se necessário relembrar a previsão de um dos maiores nomes do futebol mundial, Diego Maradona, que, durante a Copa do Mundo de 2018, afirmou que os “EUA vão criar quatro tempos na Copa para fazer publicidade”. Algo que se concretizou sob a nomenclatura de “pausa para hidratação”.

Por outro lado, se compreendemos o futebol como uma importante instituição social que rege parte de nossas vidas, ele também acaba se tornando um campo de disputas em meio a todo um processo contraditório. Desta forma, dialeticamente, o esporte em questão tem proporcionado manifestações dissonantes.

A esse respeito, precisamos destacar os protestos pró-Palestina que aconteceram antes da partida entre Canadá e Bósnia e Herzegovina, em 12 de junho, quando manifestantes estenderam faixas exigindo que Israel seja expulso da FIFA, em protesto contra o genocídio promovido em Gaza.

Ainda na Copa do Mundo, em especial após a classificação da seleção do Egito contra a Austrália na segunda fase, o técnico Hossam Hassan comemorou a vitória levantando uma bandeira da Palestina para a torcida egípcia. Além disso, em alguns jogos, foi possível observar a presença de bandeiras palestinas em meio ao público. O mesmo técnico voltou a defender o povo palestino após o jogo contra a Argentina, pelas oitavas de final da competição, afirmando: “Eu imploro, deixem o povo palestino viver”, conforme publicação da Al Jazeera.

Sobre isso, não podemos deixar de dizer que diante dessas manifestações do técnico Hossam Hassan, alguns torcedores argentinos, semelhantemente ao que acontece em partidas da Copa da Libertadores da América, proferiram ofensas racistas direcionadas ao técnico egípcio, durante a partida das oitavas de final entre Argentina e Egito que, ao denunciar os insultos, acabou recebendo um cartão amarelo.

Vale destacar que, em prol da causa palestina, Lamine Yamal, o principal jogador da seleção espanhola, já havia erguido a bandeira da Palestina durante a comemoração do título do Barcelona no Campeonato Espanhol de 2026.

E, para além das questões envolvendo os inimigos dos EUA, não podemos esquecer da anulação do cartão vermelho recebido pelo jogador Folarin Balogun durante o jogo contra a Bósnia e Herzegovina, a mando de Trump. Destaca-se que o cartão vermelho foi aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus, que havia expulsado o jogador da seleção estadunidense, fazendo com que tal anulação fira o Código Disciplinar da Fifa, o qual prevê que a expulsão por cartão vermelho resulta automaticamente em suspensão para a próxima partida da equipe.

Portanto, o futebol, como instituição social contemporânea, apresenta-se na vida das pessoas de forma direta ou indireta, reproduzindo as contradições que se manifestam na sociedade capitalista. Ao mesmo tempo, a própria história do futebol, como um todo, é repleta de conflitos e lutas, mesmo que saibamos que essas são desiguais, uma vez que o capital está do lado dos EUA e da FIFA.

Destaca-se, por fim, que existem diversas outras contradições que não foram pontuadas neste texto, visto que o objetivo principal foi apontar e discutir a questão geopolítica envolvida junto à Copa do Mundo de 2026.

Samuel Penteado Urban – Professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERNDocente do Programa de Pós-Graduação em Educação – POSEDUC/UERNMembro do Grupo de Estudos e Pesquisas Educação e Linguagens – GEPEL/LEFREIRE/UERNPesquisador Associado da Coordenadoria de Estudos da Ásia (CEASIA/UFPE)

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