As decisões em torno da escolha das sedes da Copa do Mundo vão muito além do aspecto puramente esportivo, consolidando-se como verdadeiras ferramentas de poder, diplomacia e articulação política. Esse cenário tem sido amplamente explorado pelo presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Gianni Infantino. De acordo com as análises promovidas no programa Observatório de Geopolítica [assista abaixo], transmitido pelo canal TV GGN na noite de segunda (15), as dinâmicas de poder global não apenas determinam os países que acolhem o torneio, mas também explicam transformações estruturais recentes, como a expansão do campeonato para quarenta e oito seleções.
O desenho da Copa do Mundo de 2026, que será realizada conjuntamente nos Estados Unidos, México e Canadá, ilustra com clareza essa imbricação política. O processo de escolha da sede remonta diretamente às investigações lideradas pelo FBI após os estadunidenses perderem a candidatura de 2022 para o Catar. Esse desdobramento culminou na queda de Joseph Blatter e na subsequente ascensão de Infantino, que assumiu o comando da entidade com a promessa de expandir a competição. O novo formato, ao ampliar as vagas para quarenta e oito países, funcionou como um mecanismo para democratizar o acesso e, simultaneamente, garantir o apoio político de diversas confederações continentais. Com 75% das partidas programadas para o solo estadunidense, o arranjo é interpretado como uma espécie de premiação e consolidação da influência da federação internacional na América do Norte.
A engenharia política da FIFA também se manifesta de forma evidente nos arranjos multilaterais para as edições seguintes. Para a Copa do Mundo de 2030, a geopolítica foi o instrumento utilizado para pacificar e equilibrar os interesses de múltiplas confederações de uma só vez. Embora o Uruguai e a Argentina pleiteassem o torneio de forma a celebrar o centenário da primeira Copa, Infantino articulou um modelo complexo que uniu a Espanha, Portugal e Marrocos como sedes principais, integrando os interesses da UEFA e da Confederação Africana de Futebol. Para aplacar os ânimos sul-americanos e evitar atritos diretos com a CONMEBOL, foram alocados jogos inaugurais isolados na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, pulverizando o evento em três continentes.
Essa expansão de fronteiras e alinhamentos econômicos pavimentou o caminho para a consolidação de novos atores globais no cenário esportivo. A escolha consensual da Arábia Saudita como sede para a Copa do Mundo de 2034 é fruto direto de uma costura política minuciosa patrocinada pela própria FIFA. O governo saudita tem promovido investimentos massivos e sem precedentes no futebol, o que engloba a privatização de clubes locais e a contratação de estrelas internacionais de primeira grandeza. Essa estratégia utiliza o esporte como uma plataforma central para a projeção de poder, prestígio internacional e consolidação de sua influência global.
A despeito dos discursos institucionais de neutralidade, as análises evidenciam profundas contradições na aplicação dos critérios de soberania nacional e direitos humanos por parte da entidade máxima do futebol. Enquanto a Rússia foi prontamente suspensa das competições da FIFA e da UEFA em decorrência da guerra na Ucrânia, os Estados Unidos recebem um tratamento nitidamente diferenciado. Mesmo com o histórico de envolvimento em conflitos internacionais e a imposição de barreiras migratórias controversas — como a recente recusa de vistos para árbitros e delegações oficiais do Irã e da Palestina —, a federação internacional esquiva-se de sanções sob o argumento de que não pode interferir nas decisões soberanas do país norte-americano.
Essa postura contrasta de forma drástica com o episódio envolvendo a Indonésia, que perdeu o direito de sediar o Mundial Sub-20 em 2023 devido à recusa governamental em receber a delegação de Israel, demonstrando uma aplicação seletiva e assimétrica do conceito de soberania conforme a conveniência de seus interesses políticos de momento.
Esse pragmatismo político ganha contornos ainda mais evidentes no alinhamento direto entre a cúpula da FIFA e lideranças do chamado “trumpismo”. Gianni Infantino é apontado como um verdadeiro diplomata da bola que soube construir uma estreita aliança com Donald Trump, chegando inclusive a agraciá-lo no passado com o Prêmio FIFA da Paz. Sob essa ótica, a Copa do Mundo de 2026 se desenha como uma poderosa vitrine de promoção política e ideológica, consolidando um cenário contemporâneo no qual as fronteiras entre o interesse público, os negócios privados e o espetáculo midiático tornam-se deliberadamente difusas.
As reflexões e análises apresentadas nesta matéria foram debatidas no programa Observatório de Geopolítica, uma produção da TV GGN que vai ao ar ao vivo no YouTube de segunda a sexta-feira, sempre às 19 horas. Esta edição, em especial, contou com a participação do cientista político Pedro Costa Júnior, doutor pela USP e analista de Relações Internacionais do canal; da jurista e doutoranda Luciana Bauer, fundadora do coletivo Jusclima e pesquisadora de geopolítica do clima; e de Gisele Agnelli, cientista política, socióloga e fellow do Washington Brazil Office, especialista em estudos sobre erosão democrática e relações entre o Brasil e os Estados Unidos. Assista abaixo:
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