15 de julho de 2026

Entre Lula e Bolsonaro: o futuro da Palestina e da esquerda latina, por Rasem Bisharat

Essas eleições não são vistas como um evento local isolado, mas como um marco capaz de redesenhar os contornos da política externa brasileira
Lula (por Ricardo Stuckert/PR) e Flávio Bolsonaro (por Evaristo Sá/AFP) - Reprodução

Eleições brasileiras podem redefinir política externa e influência do país sobre a questão palestina e a esquerda latino-americana.
Flávio Bolsonaro propõe alinhamento com Israel e mudança na embaixada, enquanto Lula mantém apoio à autodeterminação palestina.
Resultado impacta equilíbrio político da América Latina e o papel do Brasil no Sul Global e nas organizações internacionais.

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Entre Lula e Bolsonaro: como as eleições brasileiras se transformaram em uma batalha pelo futuro da Palestina e da esquerda latino-americana?

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por Rasem Bisharat

À medida que se aproxima a data das eleições presidenciais no Brasil, as atenções se voltam para esse pleito, cujo impacto não se limita ao cenário político interno, mas se estende a questões regionais e internacionais mais amplas. A disputa atual não representa apenas um conflito tradicional entre direita e esquerda pelo poder, mas uma confrontação que poderá definir os rumos da política externa brasileira e a posição do país no cenário internacional nos próximos anos. A importância dessas eleições decorre do papel ocupado pelo Brasil como a maior economia da América Latina e uma das principais potências emergentes do Sul Global, o que o transformou em um ator influente em diversos dossiês internacionais, da questão palestina às relações com as grandes potências e aos equilíbrios políticos no continente latino-americano. Por isso, o acompanhamento dos resultados eleitorais não se restringe ao cenário interno brasileiro, mas desperta grande interesse em diversas capitais ao redor do mundo, diante das possíveis indicações de mudanças políticas e diplomáticas que ultrapassam as fronteiras do próprio Brasil.

No centro desse cenário, as recentes declarações do candidato de direita Flávio Bolsonaro lançaram luz sobre a natureza das opções apresentadas ao eleitor brasileiro. Ao prometer recolocar o Brasil no que chama de “campo de apoio a Israel” e afirmar que o país se tornará uma “nação irmã de Israel”, ele não apresenta apenas uma visão para o desenvolvimento das relações bilaterais entre os dois países, mas transmite mensagens políticas relacionadas ao reposicionamento do Brasil dentro de uma rede de alianças internacionais e ideológicas distinta daquela adotada pelo governo do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Essas declarações adquirem importância adicional diante de sua promessa de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém nos primeiros meses de seu mandato, uma medida que carrega dimensões políticas e jurídicas que transcendem o quadro diplomático tradicional, em razão da posição singular que a questão de Jerusalém ocupa no conflito palestino-israelense e no sistema do direito internacional.

Essas posições abrem espaço para questionamentos mais amplos sobre a forma que a política externa brasileira poderá assumir em caso de chegada de Bolsonaro ao poder. Caminhará Brasília para o abandono da política de equilíbrio que caracterizou sua diplomacia nas últimas décadas, em favor de um alinhamento mais claro com Israel e com as correntes conservadoras de direita no cenário internacional? Ou essas declarações se inserem no contexto da mobilização eleitoral e da busca por conquistar as bases conservadoras e religiosas dentro do Brasil? Entre essas duas possibilidades, as próximas eleições parecem mais um referendo sobre a identidade política do Brasil e seu lugar no mundo do que uma simples disputa pelo poder entre candidatos rivais.

Sob essa perspectiva, essas eleições não são vistas como um evento local isolado, mas como um marco capaz de redesenhar os contornos da política externa brasileira e de produzir impactos diretos sobre questões regionais e internacionais, em especial a causa palestina e o futuro da corrente de esquerda na América Latina, que continuou a considerar o Brasil como seu principal centro de gravidade política e econômica ao longo das últimas duas décadas.

O papel do Brasil na equação do Sul Global

A importância da posição brasileira em relação à questão palestina não decorre apenas do fato de o Brasil ser um dos maiores países da América Latina, mas, sobretudo, do peso estratégico que passou a representar no cenário internacional nas últimas décadas. O Brasil não é apenas uma potência regional influente, mas um ator internacional presente nos principais agrupamentos econômicos e políticos globais, dos BRICS ao G20, além de seu papel crescente no que se convencionou chamar de países do Sul Global. Essa posição lhe conferiu uma capacidade cada vez maior de influenciar os debates internacionais relacionados às questões de segurança, desenvolvimento e direitos dos povos, fazendo com que suas posições políticas fossem acompanhadas tanto pelas potências internacionais quanto pelos atores regionais.

Nesse contexto, a política adotada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva adquiriu uma importância especial para os palestinos. Desde seu retorno ao poder, o Brasil buscou recuperar um discurso diplomático centrado nos princípios do direito internacional e no direito dos povos à autodeterminação, o que se refletiu em posições mais claras em relação à questão palestina quando comparadas ao período anterior, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro. Nos últimos anos, o Brasil também se destacou como uma das vozes influentes do Sul Global que defenderam a necessidade de alcançar uma solução justa para a questão palestina, ao mesmo tempo em que intensificou suas críticas às políticas israelenses, especialmente diante da contínua escalada nos territórios palestinos e da guerra em Gaza.

A importância dessas posições não esteve ligada apenas à natureza do discurso político adotado pelo governo Lula, mas também ao peso do país de onde essas posições emanam. Quando um país do porte do Brasil manifesta apoio aos direitos palestinos ou defende o respeito ao direito internacional, isso confere um impulso político adicional à causa palestina dentro das instituições internacionais e fortalece sua presença nos debates diplomáticos globais, que testemunham uma competição crescente entre as grandes potências em torno da configuração da ordem internacional e do futuro de suas crises em aberto.

Assim, qualquer mudança potencial na liderança brasileira não é vista apenas como uma simples alternância de poder entre duas correntes políticas internas, mas como um desenvolvimento capaz de influenciar os equilíbrios diplomáticos relacionados à questão palestina. Uma mudança no Palácio do Planalto não significaria apenas uma alteração das prioridades internas, mas poderia conduzir a uma redefinição do papel do Brasil nas alianças internacionais e a uma revisão da natureza de suas posições nas Nações Unidas e em outras organizações multilaterais, em um momento em que o cenário internacional presencia uma polarização crescente em torno da guerra em Gaza e do futuro da solução política para o conflito palestino-israelense. Por essa razão, diversos atores internacionais e regionais acompanham atentamente o processo eleitoral brasileiro, considerando-o um fator capaz de influenciar a reconfiguração dos equilíbrios políticos e diplomáticos relacionados a um dos temas mais sensíveis do mundo.

As repercussões das eleições brasileiras sobre a questão palestina

A importância da permanência de Luiz Inácio Lula da Silva no poder não se limita à esfera interna brasileira, mas se estende ao papel que o Brasil desempenha no cenário internacional. A continuidade de Lula significa, em grande medida, a manutenção da política externa adotada pelo país nos últimos anos, baseada na preservação de certo grau de autonomia nas posições internacionais e na evitação de um alinhamento completo com qualquer um dos blocos que disputam influência em escala global. Essa abordagem também está associada ao apoio aos princípios do direito internacional e à reafirmação do direito dos palestinos de estabelecer seu Estado independente de acordo com a solução de dois Estados.

Muitos observadores consideram que uma nova vitória de Lula garantiria a continuidade do papel do Brasil como defensor dos direitos palestinos nas Nações Unidas e em outras organizações internacionais, especialmente diante dos crescentes desafios políticos e diplomáticos enfrentados pela causa palestina. Em razão da posição internacional que o Brasil ocupa, suas posturas não constituem meros gestos simbólicos, mas fazem parte dos esforços internacionais destinados a manter a questão palestina presente na agenda da comunidade internacional.

A importância dessa questão torna-se ainda mais evidente quando se observa o tema de Jerusalém, que nos últimos anos se transformou em um dos principais símbolos do conflito político e diplomático em torno da causa palestina. A permanência de Lula no poder significa, na prática, a manutenção da posição brasileira contrária à transferência da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, em consonância com a posição tradicional da maioria dos países do mundo, que consideram que o status da cidade deve ser definido por meio das negociações finais entre palestinos e israelenses. Por isso, essa decisão não é vista como uma simples questão administrativa relacionada à localização de uma missão diplomática, mas como uma posição política carregada de implicações ligadas à legitimidade internacional e ao papel que o Brasil deseja desempenhar dentro da ordem internacional.

Por essa razão, os palestinos acompanham o cenário eleitoral brasileiro com um interesse que vai além da curiosidade política normalmente despertada pelas eleições de um país geograficamente distante. Para eles, a questão não se resume ao nome do próximo presidente, mas envolve a natureza do Estado que ocupará uma posição influente dentro de alguns dos mais importantes agrupamentos internacionais e o nível de apoio político que o Brasil poderá continuar oferecendo nas Nações Unidas e em organizações multilaterais, onde a batalha diplomática se tornou parte essencial da luta pelos direitos palestinos e pelo reconhecimento internacional desses direitos.

Por outro lado, a chegada de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto poderá representar o início de uma transformação profunda na orientação da política externa brasileira. O candidato não esconde seu desejo de redirecionar a bússola diplomática do país para relações mais estreitas com Israel e com as correntes conservadoras em ascensão em diversos países ocidentais e latino-americanos. De acordo com as concepções apresentadas durante sua campanha eleitoral, o Brasil não se limitará a fortalecer sua cooperação com Israel, mas buscará redefinir sua posição política dentro de um bloco internacional distinto daquele que Lula procurou consolidar durante seu mandato.

As consequências dessa mudança não se restringem à dimensão simbólica associada à transferência da embaixada ou ao discurso político favorável a Israel, mas abrangem o conjunto da atuação diplomática brasileira nas instituições internacionais. O Brasil, historicamente conhecido por seus esforços para preservar certo grau de equilíbrio nas questões internacionais, poderá tornar-se mais inclinado a adotar posições alinhadas à visão israelense em diversos temas relacionados ao conflito palestino-israelense. Isso inclui a natureza de seu voto nas Nações Unidas, suas posições diante das resoluções internacionais relativas aos assentamentos e à guerra em Gaza, bem como o grau de envolvimento em iniciativas diplomáticas voltadas à defesa dos direitos palestinos.

Sob uma perspectiva política mais ampla, uma mudança dessa natureza representaria uma perda significativa para os palestinos no cenário internacional, não apenas em razão da posição brasileira em si, mas também pelo simbolismo que o Brasil representa dentro do Sul Global. Como uma das maiores democracias do mundo e a principal potência da América Latina, o país confere a qualquer posição que adote um peso político que ultrapassa suas fronteiras nacionais. Assim, sua transição de uma posição percebida como mais próxima do equilíbrio diplomático para outra mais favorável a Israel poderá constituir uma mudança relevante no panorama político internacional relacionado à causa palestina.

A verdadeira batalha: o futuro da esquerda latino-americana

Entretanto, a importância das eleições brasileiras não se limita apenas às suas possíveis repercussões sobre a questão palestina, mas se estende ao futuro do cenário político de toda a América Latina. Os resultados desse processo eleitoral poderão influenciar diretamente o equilíbrio de forças entre direita e esquerda no continente e o futuro das correntes progressistas que desempenharam um papel destacado na vida política latino-americana durante as últimas duas décadas. Essas eleições assumem importância excepcional porque o Brasil é a maior e mais influente potência da América Latina em termos de população, dimensão econômica e influência política. Por isso, qualquer mudança na orientação de sua liderança política não permanecerá restrita às suas fronteiras nacionais, mas repercutirá sobre o conjunto dos equilíbrios regionais e influenciará o curso das alianças e das políticas adotadas pelos países do continente nos próximos anos.

Dessa forma, a identidade do próximo presidente do Brasil não constitui apenas uma questão doméstica de interesse exclusivo dos brasileiros, mas um indicador do caminho que a América Latina poderá seguir nos próximos anos. Desde o início do novo milênio, o nome de Luiz Inácio Lula da Silva esteve associado à ascensão do que ficou conhecido como a “maré rosa”, que levou forças de esquerda ao poder em diversos países da região e contribuiu para a redefinição das prioridades da política regional com base no fortalecimento da integração entre os países do Sul, na ampliação da margem de independência em relação à influência tradicional dos Estados Unidos e na construção de parcerias internacionais mais diversificadas fora dos marcos tradicionais que regeram as relações latino-americanas com os Estados Unidos durante muitas décadas.

Durante esse período, o Brasil não foi apenas um participante desse processo de transformação, mas seu principal motor. O país desempenhou um papel central na promoção de iniciativas de cooperação regional e no fortalecimento da presença política e econômica da América Latina no cenário internacional, o que transformou Lula em um símbolo político que transcende as fronteiras nacionais e é visto como um dos mais destacados líderes da esquerda global contemporânea. Por isso, sua permanência no poder não é encarada pelos setores progressistas do continente como uma simples vitória eleitoral, mas como uma garantia da continuidade de um projeto político mais amplo, que ainda enfrenta desafios crescentes em vários países latino-americanos.

Essa percepção torna-se ainda mais relevante diante das transformações observadas na região nos últimos anos, quando forças da direita conservadora e populista conseguiram ampliar sua presença política em diversos países, especialmente na Argentina e na Bolívia, beneficiando-se das crises econômicas e das crescentes polarizações sociais. Nesse contexto, manter o Brasil dentro do campo progressista representa uma necessidade estratégica para evitar um desequilíbrio nas correlações de força regionais e preservar o mínimo de equilíbrio político alcançado após anos de disputa entre correntes rivais no continente.

Por outro lado, a chegada de Flávio Bolsonaro à presidência não será interpretada apenas como uma transferência de poder da esquerda para a direita dentro do Brasil, mas como um sinal de um forte retorno do projeto conservador na América Latina. Além disso, poderá conferir impulso político e moral às forças de direita em outros países, incentivando-as a reorganizar suas fileiras e recuperar posições perdidas nos últimos anos. Nesse cenário, o continente poderá encontrar-se diante de uma nova etapa de reconfiguração do mapa ideológico e político, com impactos sobre a natureza das alianças regionais e dos projetos de integração historicamente associados à ascensão dos governos de esquerda.

Em essência, as próximas eleições brasileiras revelam um conflito que transcende indivíduos e partidos e envolve duas visões concorrentes sobre o lugar do Brasil e seu papel no mundo. A primeira busca fortalecer a posição do país como uma potência aberta ao Sul Global, defensora do multilateralismo e da autonomia das decisões políticas, visão representada por Luiz Inácio Lula da Silva. Em contrapartida, a segunda visão, encarnada por Flávio Bolsonaro, propõe uma orientação mais próxima das correntes conservadoras de direita e das alianças políticas que vêm ganhando força em diversas partes do mundo, acompanhada de uma maior aproximação com Israel e de uma redefinição das prioridades da política externa brasileira segundo uma abordagem distinta.

Por essa razão, o acompanhamento dos resultados dessas eleições não ficará restrito aos círculos políticos de Brasília, mas se estenderá a diversas capitais regionais e internacionais, da América Latina ao Oriente Médio. Tudo indica que a questão não se resume à definição da identidade do próximo presidente do Brasil, mas envolve a determinação do rumo que seguirá uma das mais importantes potências emergentes do mundo em desenvolvimento e se ela continuará desempenhando seu papel atual dentro do campo do Sul Global ou avançará para um reposicionamento político e diplomático capaz de produzir amplos impactos sobre os equilíbrios regionais e internacionais nos próximos anos.

 Dr. Rasem Bisharat – Doutor em Estudos da Ásia Ocidental, pesquisador e analista, especializado em assuntos palestinos e latino-americanos.

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