22 de junho de 2026

A Argentina sob o choque do neoliberalismo na era de Javier Milei, por Rasem Bisharat

Disse que iria “cortar as raízes da crise” por meio da redução do papel do Estado ao mínimo e da liberalização radical da economia
Foto de Gage Skidmore - Flickr

Argentina enfrenta crise econômica profunda, com mudança no consumo alimentar e ascensão do presidente liberal Javier Milei.
Milei promove “terapia de choque” econômica, reduzindo Estado e subsídios, enfrentando oposição e tensão social crescente.
Política externa alinhada a Israel intensifica polarização interna entre direita liberal e esquerda solidária à Palestina.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Do “asado” à carne de burro: a Argentina sob o choque do neoliberalismo na era de Javier Milei

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Rasem Bisharat

Em um país cuja identidade nacional esteve historicamente associada à cultura da carne bovina e aos rituais do “asado”, que para os argentinos representam muito mais do que um simples hábito alimentar, falar sobre o aumento do consumo de carne de burro parece ser um indicador simbólico da profundidade da crise que o país atravessa. A Argentina, que durante muito tempo foi apresentada como o “celeiro do mundo” e um dos países mais ricos da América Latina em recursos agrícolas, encontra-se hoje diante de uma forte deterioração econômica que levou amplos setores da população pobre e até mesmo parcelas da classe média a buscar alternativas alimentares mais baratas. Por isso, a mudança nos padrões de consumo já não é interpretada apenas como uma consequência natural do aumento dos preços, mas como o reflexo de uma transformação social mais profunda que afeta a própria imagem da sociedade argentina e seu tradicional padrão de vida.

O caráter simbólico desse cenário torna-se ainda mais evidente com a ascensão do presidente de direita Javier Milei, que lidera uma das experiências liberais mais radicais da história contemporânea da América Latina. Desde sua chegada ao poder, Milei adotou um discurso baseado no desmantelamento do modelo econômico e social que governou a Argentina durante décadas, considerando que o Estado, os subsídios governamentais e as políticas sociais não são soluções para a crise, mas parte de suas causas. Por isso, suas políticas econômicas foram estruturadas em torno da redução do papel do Estado, da eliminação de subsídios, da liberalização do mercado e da imposição de algo semelhante a uma “terapia de choque”, com o objetivo de reconstruir a economia segundo a lógica do livre mercado, conceito intelectualmente associado ao economista norte-americano Milton Friedman e à Escola de Economia da Universidade de Chicago.

No entanto, reduzir a crise atual a uma simples onda inflacionária ou ao aumento do custo de vida seria uma simplificação enganosa da natureza do que está ocorrendo na Argentina. Em sua essência, o cenário reflete um conflito mais profundo entre dois modelos antagônicos de Estado e de sociedade. De um lado, existe um longo legado do Estado social e das tradições peronistas baseadas na proteção social, na intervenção estatal e no apoio às classes populares. De outro, Milei propõe um projeto fundamentado no “capitalismo absoluto” como o único caminho para sair do colapso econômico.

Por isso, o confronto atual não parece ser apenas uma divergência sobre políticas econômicas, mas uma batalha ideológica e cultural em torno do próprio futuro da Argentina. Milei não se apresenta apenas como um presidente que busca reformar a economia, mas como um líder que trava um confronto direto contra a esquerda e contra o legado político que governou o país durante décadas, utilizando um discurso contundente contra o “socialismo”, a “justiça social”, os sindicatos e os movimentos de esquerda. Em contrapartida, amplos setores da oposição entendem que o que está ocorrendo não é tanto uma reforma econômica, mas uma tentativa de remodelar a sociedade segundo um modelo neoliberal que poderá levar ao desmantelamento do Estado social e ao aprofundamento das desigualdades de classe.

Dessa forma, o debate em torno da alimentação, dos preços e dos padrões de consumo revela, na realidade, uma crise mais ampla relacionada à identidade do Estado, aos limites do liberalismo econômico e ao futuro da relação entre mercado e sociedade em um dos países mais importantes e influentes da América Latina.

Como Javier Milei chegou ao poder?

Para compreender a ascensão de Javier Milei e sua transformação de figura midiática controversa em presidente da Argentina, é necessário compreender primeiro a dimensão da crise que o país enfrentava antes de sua chegada ao poder. Sua ascensão não foi um acontecimento isolado nem simplesmente o resultado de uma campanha eleitoral bem-sucedida, mas ocorreu no contexto de um longo colapso econômico e político que corroeu a confiança de amplos setores da sociedade nas elites tradicionais e no modelo que governou o país durante décadas.

Ao longo dos anos, a Argentina sofreu uma crise econômica crônica caracterizada por altas taxas de inflação, acúmulo de dívida externa, desvalorização da moeda nacional e incapacidade dos sucessivos governos de alcançar uma estabilidade econômica sustentável. Embora os governos peronistas e de esquerda tenham conseguido, em determinados períodos, ampliar programas de assistência social e melhorar as condições dos setores mais pobres, eles não foram capazes de construir um modelo econômico capaz de controlar a inflação, restaurar a confiança no peso ou atrair investimentos suficientes para retirar a economia de sua crise estrutural. Com o passar do tempo, as políticas baseadas em gastos públicos e subsídios começaram a revelar seus limites diante da redução das reservas monetárias e do crescente recurso ao endividamento.

À época das últimas eleições, a sociedade argentina vivia uma situação de exaustão econômica e social sem precedentes. A inflação havia alcançado níveis recordes que corroíam rendimentos e salários, enquanto o poder de compra diminuía drasticamente e a pobreza se expandia até mesmo entre setores que anteriormente eram considerados parte de uma classe média estável. Ao mesmo tempo, crescia um sentimento generalizado de perda de confiança nas instituições políticas tradicionais, uma vez que muitos argentinos passaram a considerar que as elites governantes — tanto da direita tradicional quanto das correntes peronistas e de esquerda — eram incapazes de oferecer soluções reais para a crise em agravamento.

Foi precisamente nesse momento que Javier Milei surgiu como a expressão da indignação e da rebelião contra o “sistema” político e econômico vigente. Ele construiu sua imagem com base em um discurso confrontador dirigido contra o Estado, os sindicatos, os impostos, o banco central e até mesmo contra o legado político que governou o país durante décadas. Apresentou-se como o homem que iria “cortar as raízes da crise” por meio da redução do papel do Estado ao mínimo e da liberalização radical da economia, utilizando o símbolo da “motosserra” para representar seu projeto baseado no desmantelamento da burocracia e dos gastos públicos. Por isso, Milei não foi visto apenas como um candidato tradicional de direita, mas como um fenômeno político de protesto que refletia o desejo de amplos setores da sociedade de romper com o antigo sistema, independentemente do custo que essa ruptura pudesse acarretar.

“A terapia de choque”: por que a alimentação se tornou uma crise?

O conceito de terapia de choque está intelectualmente associado ao economista norte-americano Milton Friedman e à Escola de Economia da Universidade de Chicago. Trata-se da implementação de reformas econômicas amplas e dolorosas de uma só vez, em vez de de forma gradual. Friedman defendia que as crises representam “oportunidades” para a aprovação rápida de reformas radicais, porque as sociedades, durante períodos de crise, tendem a estar mais dispostas a aceitar mudanças que não seriam possíveis em circunstâncias normais.

Desde a chegada de Javier Milei ao poder, seu governo começou a aplicar um programa econômico baseado no que é conhecido como política de “terapia de choque”, isto é, a implementação de reformas fiscais e econômicas profundas e rápidas com o objetivo de reestruturar a economia argentina e interromper o colapso monetário acumulado ao longo de anos. Nesse contexto, o governo adotou uma série de medidas severas que incluíram a redução dos gastos públicos, a diminuição dos subsídios governamentais, a liberalização dos preços, a desvalorização da moeda, além da demissão de milhares de funcionários e da redução do papel do Estado nos serviços e nos setores sociais. Essas políticas foram apresentadas como uma necessidade inevitável para restabelecer o equilíbrio fiscal e recuperar a confiança dos mercados e dos investidores.

Do ponto de vista econômico, o objetivo declarado dessas medidas era conter a inflação e pôr fim ao déficit fiscal crônico que debilitou a economia argentina durante décadas. De fato, o governo conseguiu alcançar alguns indicadores que os apoiadores de Milei consideraram prova do sucesso do projeto liberal, como a obtenção de um superávit fiscal primário e uma redução relativa em alguns indicadores monetários. No entanto, esses êxitos financeiros vieram acompanhados de um elevado custo social, que se refletiu diretamente na vida cotidiana dos cidadãos, especialmente entre as classes pobres e médias.

Com a rápida liberalização dos preços e a eliminação de diversas formas de subsídios, os custos dos alimentos, da energia e do transporte registraram aumentos acentuados, provocando uma erosão sem precedentes do poder de compra dos salários. Em um contexto de inflação persistente e de desvalorização da moeda, amplos setores da sociedade tornaram-se incapazes de manter padrões de consumo que antes eram considerados parte essencial da vida cotidiana na Argentina, sobretudo o consumo de carnes tradicionais associadas à cultura do “asado” e à identidade alimentar nacional.

Foi nesse contexto que começaram a surgir relatos sobre o recurso a alternativas alimentares mais baratas, entre elas a carne de burro e de cavalo em algumas regiões empobrecidas, não como uma transformação cultural ou um “novo hábito alimentar”, mas como um indicador da deterioração do padrão de vida e da transição para formas de consumo impostas pela necessidade em decorrência de graves crises econômicas. Por isso, a questão da alimentação adquiriu uma dimensão simbólica e política que ultrapassa a simples questão dos preços, tornando-se uma expressão das transformações vividas pela sociedade argentina sob a pressão das políticas de austeridade.

Nesse contexto, a crise já não é medida apenas por números econômicos ou indicadores financeiros, mas também pelo impacto que produz na vida cotidiana das pessoas e na própria imagem da Argentina como um país historicamente associado à abundância alimentar e à força de sua classe média. Por isso, os opositores de Milei consideram que a “terapia de choque” conseguiu amenizar alguns indicadores econômicos, mas, em contrapartida, transferiu diretamente para a sociedade o custo das reformas, fazendo com que a própria alimentação se transformasse em um espelho da crise social e política que o país atravessa.

Por que a carne de burro possui um significado político e simbólico?

Na América Latina, a alimentação não é vista como uma questão de subsistência separada da política, mas como um dos principais indicadores da natureza da relação entre o Estado e a sociedade. Por isso, as transformações nos padrões de consumo, especialmente no que diz respeito aos alimentos associados à identidade nacional, costumam adquirir uma dimensão política e simbólica que ultrapassa seu valor econômico imediato. No caso argentino em particular, a carne bovina representa muito mais do que um simples produto alimentício; ela faz parte da imagem que o país construiu de si mesmo como uma nação agrícola rica, dotada de abundância alimentar e de uma capacidade histórica de proporcionar um padrão de vida estável à sua classe média.

Por essa razão, a redução da capacidade de amplos setores da sociedade de adquirir carnes tradicionais não é interpretada apenas como um indicador do aumento dos preços, mas como um sinal da erosão do “contrato social” sobre o qual se construiu o Estado moderno argentino. Quando produtos que antes simbolizavam a abundância nacional deixam de estar ao alcance dos pobres e até mesmo de parcelas da classe média, a alimentação passa a refletir a crise econômica, social e política que o país enfrenta.

Por isso, a oposição de esquerda procura apresentar o fenômeno do recurso a alternativas alimentares mais baratas, como a carne de burro ou de cavalo, como uma evidência simbólica do “fracasso do neoliberalismo selvagem” defendido por Javier Milei. No discurso da esquerda, essas imagens são associadas a uma longa história de crises relacionadas às políticas do Fundo Monetário Internacional e à austeridade na América Latina, onde filas para conseguir pão, bairros pobres e o colapso do poder de compra tornaram-se símbolos recorrentes das duras consequências sociais produzidas pelas experiências neoliberais no continente.

Por outro lado, os apoiadores de Milei rejeitam a ideia de atribuir exclusivamente às suas políticas a responsabilidade pela crise atual. Eles argumentam que o que a Argentina vive hoje é o resultado acumulado de décadas de “populismo econômico”, gastos insustentáveis e expansão do papel do Estado sem a existência de uma base produtiva sólida que sustentasse esse modelo. Em sua visão, a crise atual não passa do custo adiado do colapso de um modelo econômico baseado em subsídios excessivos, déficit fiscal e inflação crônica, e as reformas dolorosas representam uma necessidade inevitável para reconstruir a economia, mesmo que seu custo social seja elevado no curto prazo.

É justamente aí que reside a essência da batalha política e ideológica dentro da Argentina. A esquerda sustenta que o livre mercado, quando deixado sem mecanismos de controle social, conduz à fragmentação da sociedade, ao aprofundamento das desigualdades de classe e à transformação de direitos fundamentais em privilégios condicionados pelo poder aquisitivo. Já a direita liberal considera que foi o Estado assistencialista e o populismo que levaram o país à beira do colapso, e que a liberalização do mercado e a redução do papel do Estado representam o único caminho para superar a crise.

Dessa forma, o debate sobre a alimentação, a capacidade de comprar carne e os padrões cotidianos de consumo transforma-se na expressão de um conflito muito mais amplo relacionado ao próprio futuro do Estado argentino: continuará ele sendo um Estado social que intervém para proteger os setores populares ou se transformará em um modelo mais radical baseado na primazia do mercado, mesmo que isso implique elevados custos sociais?

A guerra ideológica: por que Milei mira Guevara e a esquerda?

Javier Milei não encara o exercício do poder como uma simples administração da crise econômica ou uma tentativa de corrigir indicadores financeiros, mas como uma batalha ideológica e cultural destinada a redefinir a identidade política da Argentina após décadas de predominância das correntes peronistas e de esquerda na esfera pública. Por isso, seus ataques recorrentes à esquerda ou suas decisões relacionadas à remoção de símbolos associados a Che Guevara não parecem ser meros detalhes simbólicos ou gestos de propaganda, mas parte de um projeto político mais amplo que busca estabelecer uma ruptura com o legado intelectual e social que marcou a América Latina ao longo das últimas décadas.

Milei parte da convicção profunda de que a Argentina, assim como grande parte do continente, pagou o preço do que ele descreve como o domínio das ideias socialistas e do nacionalismo populista sobre a economia e o Estado. Em sua visão, a inflação crônica, o déficit fiscal, o crescimento excessivo da burocracia e a queda da produtividade não são crises circunstanciais, mas consequências diretas de um modelo econômico baseado na intervenção estatal, na assistência social e no gasto público excessivo. Por isso, apresenta-se como alguém que trava um confronto histórico contra esse legado, e não apenas como um presidente que aplica um programa econômico temporário.

Por essa razão, Milei adota um discurso doutrinário explícito fundamentado na exaltação do capitalismo de livre mercado e na crítica aos conceitos de justiça social e intervenção governamental. Declarações como “a justiça social é uma injustiça social” ou “somente o capitalismo tira as pessoas da pobreza” não aparecem em seu discurso apenas como slogans eleitorais, mas como fundamentos filosóficos de seu projeto político. Além disso, ele apresenta o conflito com a esquerda como parte de uma batalha mais ampla contra aquilo que chama de “avanço socialista” na América Latina, em uma tentativa de reposicionar a Argentina dentro de um bloco global mais próximo da direita liberal e conservadora.

Esse discurso aproxima Milei da onda global de direita populista que ganhou força nos últimos anos em diversos países, na qual o livre mercado é apresentado como a única solução para as crises econômicas, enquanto a esquerda e o Estado social são retratados como a origem dos problemas. Contudo, esse conflito assume na América Latina uma intensidade e uma complexidade ainda maiores devido à longa história de confrontos entre os movimentos de esquerda e nacionalistas, de um lado, e as correntes liberais conservadoras frequentemente apoiadas pelas elites econômicas e por instituições ocidentais, de outro. Por isso, o ataque a símbolos como Che Guevara possui um significado que ultrapassa a mera simbologia cultural, tornando-se uma declaração de intenção voltada para a reescrita da própria identidade política do continente.

Milei é um fenômeno passageiro ou o início de uma transformação histórica?

Até o momento, ainda é prematuro emitir um julgamento definitivo sobre a experiência de Javier Milei, pois a Argentina atravessa uma fase de transição extremamente turbulenta, na qual a crise econômica se mistura com uma intensa polarização política e social. Ainda assim, os acontecimentos em curso revelam uma série de indicadores que fazem com que a experiência de Milei ultrapasse a condição de um simples governo de direita passageiro, transformando-se em um verdadeiro teste para o futuro do liberalismo radical na América Latina.

O primeiro desses indicadores é a evidente contradição entre alguns dos êxitos financeiros alcançados pelo governo e o crescente descontentamento social dentro da sociedade argentina. O governo conseguiu melhorar determinados indicadores monetários e alcançar um superávit fiscal primário, algo que os apoiadores de Milei consideram uma prova da eficácia das políticas de livre mercado. No entanto, esses resultados vieram acompanhados pelo aumento dos índices de pobreza e desemprego, bem como pela intensificação de protestos e greves, criando uma distância cada vez maior entre a linguagem dos indicadores econômicos e a realidade social vivida por amplos setores da população.

O segundo indicador, talvez o mais preocupante, é o acelerado enfraquecimento da classe média argentina, que historicamente constituiu um fator de estabilidade social e política no país. Com a redução do poder de compra e o aumento do custo de vida, setores dessa classe passaram a sentir que estão perdendo gradualmente sua posição econômica e social, o que empurra a sociedade para níveis mais elevados de polarização e tensão. Nos países da América Latina, o enfraquecimento da classe média frequentemente representa o prelúdio de profundas transformações políticas, já que esse segmento tradicionalmente atua como uma barreira que impede que os conflitos sociais alcancem níveis mais explosivos.

Por outro lado, os sindicatos e as correntes de esquerda começaram a recuperar sua presença nas ruas por meio de protestos e greves alimentados pela indignação popular diante das políticas de austeridade e do aumento do custo de vida. Isso significa que a esquerda, apesar de ter perdido as eleições, não perdeu sua capacidade de mobilização nem sua influência dentro da sociedade. Contudo, o principal problema enfrentado pela oposição reside na crise de credibilidade que continua a persegui-la, já que muitos argentinos responsabilizam as elites peronistas e de esquerda pelo colapso econômico que antecedeu a chegada de Milei ao poder.

Por isso, a Argentina parece viver atualmente um confronto aberto entre dois projetos antagônicos: um projeto liberal radical que busca reconstruir o Estado e a economia por meio da redução do papel estatal ao mínimo possível, e um projeto social que procura preservar o legado da proteção social e do Estado intervencionista. O que determinará o futuro de Milei não será apenas sua capacidade de melhorar os indicadores econômicos, mas também sua habilidade para impedir que a crise social se transforme em uma ampla explosão política capaz de redesenhar completamente o cenário argentino.

Onde se situa a Palestina neste cenário?

A posição de Javier Milei em relação a Israel não parece ser apenas um detalhe ligado à política externa ou às relações diplomáticas tradicionais, mas constitui um elemento fundamental de sua identidade política e ideológica. Desde sua ascensão ao poder, o presidente argentino procurou apresentar-se como um aliado excepcional de Israel, utilizando um discurso direto e contundente que reflete sua inserção no campo da direita liberal conservadora alinhada aos Estados Unidos e ao Ocidente. Por isso, suas repetidas declarações de apoio a Israel ou sua afirmação de orgulho por ser “o presidente mais sionista do mundo” não foram meras posições simbólicas, mas a expressão de um reposicionamento mais amplo da Argentina dentro do sistema internacional.

Nesse contexto, Milei buscou fortalecer suas relações com o governo israelense e adotar posições mais rígidas em relação aos movimentos de esquerda e às correntes solidárias à Palestina dentro da Argentina. Essa orientação reflete uma tentativa clara de inserir o país em um eixo global composto pela direita liberal e conservadora aliada a Washington e Tel Aviv, um eixo que considera o livre mercado e as alianças ocidentais como a base da estabilidade política e econômica. Dessa forma, a política externa tornou-se parte integrante do projeto ideológico interno liderado por Milei, e não apenas uma extensão separada dele.

Por outro lado, amplos setores da esquerda argentina veem a causa palestina como uma continuação histórica das lutas de libertação nacional e da resistência ao colonialismo e à dominação externa. Por isso, a solidariedade à Palestina dentro do discurso da esquerda está associada à ideia de internacionalismo e à memória política que conectou as lutas dos povos latino-americanos aos movimentos de libertação do chamado Terceiro Mundo. Assim, a disputa em torno da Palestina tornou-se parte da própria polarização interna, uma vez que as posições em relação à questão palestina são vistas como um reflexo da divisão mais ampla entre dois projetos antagônicos: um que vê a salvação na integração ao bloco conservador ocidental e outro que associa justiça social e libertação nacional ao enfrentamento da hegemonia internacional.

Essa transformação levou a uma redefinição clara da política externa argentina. Após anos adotando posições mais equilibradas em relação ao Oriente Médio, a Argentina, sob o governo Milei, passou a demonstrar um alinhamento mais explícito com Israel, o que gerou amplas críticas nos meios sindicais, estudantis e entre as correntes de esquerda, que consideraram esse posicionamento um abandono das tradições diplomáticas historicamente vinculadas ao apoio às causas de libertação nacional e aos direitos dos povos.

O que a experiência argentina revela sobre a América Latina?

O que acontece hoje na Argentina não pode ser separado das transformações mais amplas que atravessam toda a América Latina. A experiência de Javier Milei parece refletir uma nova fase vivida pelo continente após anos de ascensão de governos de esquerda e movimentos populistas. O crescimento da direita radical na Argentina não surgiu do nada, mas foi o resultado de uma longa acumulação de crises econômicas e da perda de confiança nas elites tradicionais que governaram durante anos sem conseguir alcançar uma estabilidade econômica duradoura.

Nesse contexto, a experiência argentina revela o retorno do neoliberalismo ao centro do debate, porém em formas mais intensas e radicais do que aquelas conhecidas pelo continente durante a década de 1990. A questão já não se limita a reformas econômicas ou programas de austeridade, mas envolve uma tentativa abrangente de redefinir o papel do Estado, os limites da justiça social e a relação entre mercado e sociedade. Por isso, as novas políticas econômicas são acompanhadas por uma clara intensificação das guerras culturais e ideológicas, nas quais o conflito já não gira apenas em torno de impostos e subsídios, mas também de identidade, valores, símbolos e da própria história política do continente.

Sob essa perspectiva, a Argentina parece estar travando um confronto que ultrapassa os limites da economia e alcança uma reconfiguração completa da esfera política e cultural. A nova direita não se apresenta apenas como uma alternativa econômica, mas como um projeto destinado a romper a hegemonia intelectual da esquerda nas universidades, nos sindicatos, nos meios de comunicação e na memória política da América Latina. Em contrapartida, os movimentos de esquerda e as organizações sindicais procuram recuperar sua presença associando a atual crise social ao retorno das políticas neoliberais historicamente ligadas à pobreza e à desigualdade social no continente.

No entanto, a experiência argentina também revela um profundo paradoxo. A direita chegou ao poder beneficiando-se da indignação popular diante do colapso econômico e da incapacidade das elites tradicionais, mas enfrenta simultaneamente o risco de fracassar caso o “choque das reformas” econômicas se transforme em uma ampla explosão social. Quanto maior for o custo da austeridade para as classes populares e médias, maiores serão as possibilidades de retorno dos protestos, dos sindicatos e das correntes de esquerda às ruas, deixando o futuro da experiência liberal radical argentina aberto a cenários contraditórios entre o sucesso econômico e a convulsão social.

Conclusão

A transformação da carne de burro em um símbolo recorrente dentro do debate público argentino não pode ser interpretada apenas como um fenômeno curioso associado à crise do custo de vida, mas como um indicador político e social da profundidade das transformações pelas quais o país está passando. A Argentina não vive apenas uma crise econômica passageira; ela atravessa uma experiência radical que busca reconfigurar simultaneamente a economia, o Estado e a cultura política, em meio a uma intensa disputa sobre a natureza do modelo que governará a sociedade na próxima etapa.

No centro dessas transformações, Javier Milei surge como a expressão de uma forte rebelião contra o legado peronista e de esquerda que dominou a vida política argentina durante décadas. Ele não se apresenta apenas como um presidente empenhado em combater a inflação ou reformar as finanças públicas, mas como um líder que pretende desmontar o modelo social e político sobre o qual foi construído o Estado moderno argentino. Contudo, essa tentativa o coloca diante de um desafio extremamente complexo, pois a aplicação de um liberalismo econômico radical em uma sociedade que já sofre com fragilidade econômica e profundas desigualdades sociais implica riscos de uma explosão social capaz de comprometer o próprio projeto que pretende implementar.

Ao mesmo tempo, a experiência argentina demonstra que o conflito já não está restrito às fronteiras nacionais nem limitado exclusivamente às políticas econômicas, mas tornou-se parte de uma polarização global mais ampla entre duas visões antagônicas de mundo. De um lado, existe um campo que considera o livre mercado, a redução do papel do Estado e a aliança com o Ocidente como o único caminho para a estabilidade e a superação das crises. De outro, há um campo que associa a justiça social e as causas de libertação nacional ao enfrentamento da hegemonia econômica e política internacional. Nesse contexto, a questão palestina não aparece como um tema externo distante da realidade argentina, mas como parte dessa divisão ideológica global que está redefinindo alianças e identidades políticas na América Latina e em outras regiões do mundo.

Por isso, o que acontece hoje na Argentina não diz respeito apenas ao futuro de um governo ou a políticas econômicas temporárias, mas reflete um conflito mais profundo sobre os limites do neoliberalismo, o futuro do Estado social, a forma da relação entre sociedade e mercado e o papel que a América Latina deseja desempenhar dentro de uma ordem internacional em constante transformação.

Dr. Rasem Bisharat – Doutor em Estudos da Ásia Ocidental, pesquisador e analista, especializado em assuntos palestinos e latino-americanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Luiz Gonzaga Belluzzo

    2 de junho de 2026 3:34 pm

    O artigo é excelente

Recomendados para você

Recomendados