A nova lógica das nacionalizações
por Rodrigo Medeiros
A discussão sobre a nova onda de nacionalizações destacada por Nicholas Mulder, na edição de junho da revista Finance & Development do Fundo Monetário Internacional (FMI), revela um fenômeno que ultrapassa a simples disputa entre Estado e mercado. O que está em curso é a reconfiguração estrutural da ação estatal diante de riscos que se tornaram globais, complexos e recorrentes.
Nacionalizações deixam de ser instrumentos ideológicos e passam a ser mecanismos de gestão de vulnerabilidades sistêmicas. A aceleração das nacionalizações não pode ser compreendida apenas como reação a crises econômicas, pois ela decorre de uma combinação de fatores, como instabilidade geopolítica, transição energética, fragilidade das cadeias globais e crescente competição por recursos estratégicos.
Em vez de buscar a eficiência, governos buscam resiliência e tal fato altera profundamente a racionalidade das políticas públicas. O professor observa que setores como energia, mineração, infraestrutura e tecnologia se tornaram arenas de disputa estratégica. A nacionalização, nesse cenário, funciona como uma blindagem contra os choques externos e como instrumento de controle sobre ativos considerados estratégicos para a segurança nacional.
Historicamente, as nacionalizações ocorreram em ambientes de menor integração financeira. O capital é altamente móvel atualmente e mesmo assim os Estados estão optando por intervir. Em síntese, a lógica estratégica da segurança está superando a lógica da eficiência.
Nacionalizações contemporâneas não buscam substituir o mercado, mas reordenar o espaço econômico para reduzir dependências externas e aumentar a capacidade de resposta a crises. Trata-se de uma política de mitigação de riscos, na avaliação do acadêmico da Universidade Cornell, não da expansão estatal indiscriminada.
Um dos aspectos mais relevantes da análise de Mulder é a constatação de que a nova onda de nacionalizações implica na reorganização da globalização em novos blocos. Nesse sentido, a integração será mediada por afinidades geopolíticas.
Portanto, a nova onda de nacionalizações deve ser interpretada como parte de uma transformação mais ampla. O Estado assume papel ativo na proteção de sistemas econômicos vulneráveis. O novo processo é de adaptação a um mundo de crises mais frequentes e interdependentes.
O nosso debate público precisa ir além da simplória dicotomia Estado versus mercado. A questão central é a capacidade institucional de gerir ativos estratégicos com eficiência, transparência e visão de longo prazo. Nacionalizar pode ser algo necessário; administrar bem será indispensável.
Em outro artigo na revista Finance & Development de junho, Jean-Marc Natal, chefe da Unidade de Commodities do FMI, destaca que o controle das matérias‑primas moldou a economia mundial no passado e pode decidir seu futuro. Por serem relevantes, porém distribuídas de forma desigual entre os países, as commodities foram fonte de oportunidades econômicas e de vulnerabilidades geopolíticas.
A transição energética e a digitalização colocam os minerais críticos, como lítio, cobalto e terras raras, no centro das tensões estratégicas globais. Países buscam garantir acesso a esses recursos por meio de alianças, investimentos e políticas industriais, enquanto sanções e controles de exportação se tornam instrumentos de poder.
O artigo conclui que, do passado ao futuro, o controle e o acesso às commodities permanecem determinantes para a ordem econômica e geopolítica mundial, e sua importância tende a crescer à medida que novas tecnologias avançam. Como está esta discussão no Brasil, cujo Congresso está enrolado com escândalos de emendas parlamentares “secretas”? As eleições ainda são capazes de mobilizar as esperanças para um futuro coletivo melhor?
Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)
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