12 de junho de 2026

O Brasil e o seu longo passado pela frente, por Rodrigo Medeiros

Futuro depende da capacidade de compreender criticamente o passado e de transformá-lo em uma ordem republicana mais inclusiva e estável.
Jean Dubuffet

Eleições de 2026 no Brasil ocorrem em contexto de heranças históricas como escravidão e patrimonialismo, afetando política e cidadania.
Elite brasileira mantém poder com interesses extrativistas, concentrando renda e dificultando reformas progressivas e renovação política.
Sistema eleitoral favorece políticos tradicionais, marginaliza grupos e impede mudanças, apesar da demanda social por transparência e reformas.

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O Brasil e o seu longo passado pela frente

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por Rodrigo Medeiros

Imersos no presente em um contexto futebolístico de Copa do Mundo, caminhamos aceleradamente para a disputa eleitoral de 2026. O que está em jogo é o futuro do Brasil, ou como ironicamente sugeriu Millôr Fernandes, o nosso enorme passado. Afinal, as eleições brasileiras ainda são capazes de mobilizar as esperanças para um futuro coletivo melhor?

Entre nós, o professor José Murilo de Carvalho se mostrou cético e pessimista sobre o futuro do Brasil nos anos finais de sua vida, especialmente em suas últimas entrevistas. Segundo o historiador, o Brasil carrega heranças estruturais profundas, como a escravidão, o patrimonialismo e a fragilidade da cultura republicana, elementos que continuam moldando a vida política.

Para ele, essas marcas históricas alimentam desigualdades persistentes, limitam a cidadania e dificultam a construção de um projeto nacional inclusivo. O professor enxergava um país marcado pela instabilidade institucional, pela recorrente tutela militar e pela falta de lideranças comprometidas com o fortalecimento democrático e o bem-estar da população.

Em síntese, José Murilo de Carvalho destacou que os impasses contemporâneos do Brasil não podem ser compreendidos sem o reconhecimento das continuidades históricas que estruturam o Estado, a sociedade e a política nacional. Portanto, qualquer projeto de futuro depende da capacidade de compreender criticamente esse passado e de transformá-lo em uma ordem republicana mais inclusiva e estável.

No instigante livro ‘XXVII crônicas anacrônicas’ (Viseu, 2026), o professor Luiz Henrique Lima Faria abordou questões dessa natureza. O nosso projeto de futuro comum, em vez de ser novidade, tem sido a continuação das velhas estruturas. Em sua crônica XVII, por exemplo, o autor analisou a permanência da cultura do patrimonialismo no Brasil: a “captura da esfera pública pelo interesse privado desvirtua a democracia e resgata os vícios senhoriais do passado, em que o poder circulava entre poucos e os demais eram relegados à condição de meros expectadores”.

O “andar de cima” no Brasil, diria Elio Gaspari, gosta de se autoproclamar como modernizador e reformista. Sejamos sinceros, a elite brasileira quer um país que continue servindo aos seus interesses. Interesses extrativos e reformas regressivas caminham juntos.

De acordo com o Índice de Qualidade das Elites (EQx 2026), a elite brasileira ocupa a posição 54 de um ranking de 151 países, revelando um país dominado por modelos de negócios extrativistas. Ela segue lucrando com juros altos, subsídios, privilégios regulatórios e renúncias fiscais. Tal perspectiva nos ajuda a compreender a lógica do reformismo regressivo e concentrador de rendas e patrimônios.  

Segundo o Relatório da Desigualdade Mundial 2026, a renda concentrada no topo cresceu no Brasil, que recorrentemente aparece entre os países mais desiguais do mundo nos principais levantamentos internacionais sobre distribuição de renda. Os 10% mais ricos detêm aproximadamente 59% dos rendimentos nacionais, enquanto os 50% mais pobres recebem somente 9%. A concentração patrimonial é ainda maior no Brasil.

Enquanto isso, o Congresso trabalha incansavelmente para se blindar. A minirreforma eleitoral conseguiu reduzir punições, flexibilizar regras e ampliar privilégios. Tudo aprovado com muita naturalidade, sem debate e sem resistência popular.

O sistema eleitoral favorece quem já está no poder, desestimula renovação, marginaliza mulheres e negros, e transforma partidos em cartórios de distribuição de recursos. A cada ciclo, o Legislativo se distancia das dificuldades diárias da população.

Afinal, queremos bons serviços públicos, mas não queremos o trabalho cívico que sustenta uma democracia saudável. Queremos políticos melhores, mas não queremos mudar as regras que selecionam os piores. Queremos reformas progressivas, mas não queremos conflito com o “andar de cima”. A sociedade precisa se organizar para exigir transparência, renovação, responsabilidade e reformas progressivas.

Reformas progressivas são mudanças institucionais que aumentam a criação de valor para a sociedade e reduzem a extração de valor por grupos privilegiados. Vivemos em um país que se acostumou a aceitar o inaceitável. Tristes trópicos? Desde a obra clássica de Lévi‑Strauss, sabemos que os trópicos não são o paraíso imaginado, mas lugares de destruição cultural, desigualdade e melancolia da modernidade. A modernização rápida, desigual e imitativa de padrões externos ainda descreve bem muitos dilemas brasileiros.

Precisamos de um projeto democrático de nação, de proteção à diversidade e de um olhar menos ingênuo e mais profundo sobre nós mesmos. Nesse sentido, a leitura do livro de Luiz Henrique Lima Faria me fez pensar nos dilemas e desafios do nosso tempo presente. No Brasil, o presente não funciona como ruptura; ele funciona como continuidade. O “agora” brasileiro costuma ser habitado por estruturas, práticas e conflitos do passado. Tal fato não é apenas um diagnóstico histórico, mas uma chave interpretativa para entendermos o motivo de que certos problemas parecem insolúveis.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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Rodrigo Medeiros

Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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