18 de julho de 2026

Breve Geopolítica do Futebol na Copa 2026, por Euclides de Sousa

Trump não inovou em sua interferência junto ao presidente da FIFA. Foi mais contundente. Não é exceção, um “raio num céu azul”, como dizem.
Foto de Fabio Rodrigues-Pozzebom - Agência Brasil

A Copa do Mundo 2026 reflete um soft power geopolítico, com regras e arbitragem influenciadas por interesses nacionais.
Mudanças nas regras visam maior fluidez e favorecem seleções com desempenho físico superior, como as europeias.
Interferências políticas, como a dos EUA na FIFA, evidenciam a relação entre esporte, política e poder global.

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Breve Geopolítica do Futebol na Copa do Mundo de 2026

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por Euclides Roberto Novaes de Sousa

Antes das “invasões” dos dórios e aqueus, na região da Grécia, por volta do décimo terceiro século a.C., o sistema matrilinear ainda se encontrava bem estabelecido e funcionando, mesmo após a migração dos povos chamados helênicos à região, por volta de 2000 a.C. Nesse período, houve uma acomodação entre os helenos e os povos autóctones, representados num sistema político em que um rei e uma rainha dividiam o poder e funções sacras ou reinavam em anos alternadamente. A sucessão em cada caso era diferente. Enquanto no caso da rainha dava-se no plano matrilinear, no caso do rei era complexa, envolvendo sacrifício ao final de um determinado período, cujo reinado evoluiu para tempos cada vez mais longos. Zeus ainda não se impunha, os cultos eram realizados em louvor a uma tripla-deusa e o calendário seguia uma regra lunar.

As competições na fase matrilinear eram realizadas por mulheres, claro — e geralmente eram corridas a pé. Eram realizadas por ninfas (possivelmente jovens a partir de doze até dezoito anos, no máximo) entre as quais a mais veloz, a ganhadora das competições, era a escolhida para o rei sagrado, que iria reger determinado período.  As competições, portanto, tinham uma função prática dentro daquele sistema religioso e as cerimônias, bem como festas, assim a acompanhavam.

Após o período dórico e acaico tudo mudou. O sistema patriarcal foi se impondo, bem como Zeus; as competições foram sendo realizadas por homens, envolvendo múltiplas modalidades e ganhando cada vez mais uma função cívico-militar ao lado da religiosa, a qual nunca deixou de estar presente em tais eventos. Havia também os jogos fúnebres, vinculados às práticas heroicas, onde as festas, a distribuição de prêmios, sacrifícios (de animais e mesmo humanos) eram realizadas não apenas para homenagear o morto, mas reafirmar o vínculo social.

A competição de jogos interestatal (entre cidades, melhor dizendo) dava-se antes ou após as guerras, que se intensificaram no período comercial — onde as cidades disputavam os locais (portos) privilegiados para as trocas e distribuição de mercadorias que vinham do extremo oriente e Índia.

Esta breve introdução da função dos jogos no mundo antigo vai nos servir para aclarar um aspecto oculto dos jogos modernos, em especial na Copa do Mundo, onde a função cívico-militar não está aparente, mas não deixa de estar latente e mesmo presente. Até mesmo a função religiosa permanece de fundo, embora não como motivadora das decisões. A aparência é civil. O objetivo, sob os escrutínios da FIFA, é a “confraternização mundial”. Nada mais enganador. Evidente que, sob a ótica da análise das relações internacionais,  o futebol faz parte de um soft power de cada nação. E cada uma exerce o seu da melhor forma e naquilo que mais interessar, seja dentro ou fora das fronteiras nacionais.

A FIFA mudou as regras para esta Copa um pouco antes do início da competição e reorientou os árbitros, como sempre o faz, para as novas determinações. Além da novidade da pausa para a hidratação, está o “combate à cera”, para uma reposição mais rápida da bola em jogo; maior poder do VAR, aumento o número de consultas a ele pelo árbitro; alterações no atendimento médico: possíveis lesões que exigem entrada da equipe médica obrigam o jogador a ficar fora de campo por um minuto (irá pensar duas vezes antes de ficar caído em campo…). Estas são as mais visíveis e as que interferem mais diretamente na regra escrita. Outras orientações incidem num critério que está diretamente nas mãos (pelo apito) do árbitro durante o jogo: disputas de corpo leves e contatos “normais” de jogo não devem ser marcados como infração. A justificativa é dar mais fluidez à partida, segundo o argumento mais comum. No entanto, o que é o contato leve e “normal”? Trata-se de uma decisão discricionária, que pode ser bastante discutível, como tem sido em vários jogos. Uma falta mais grosseira pode ser entendida diferentemente em cada jogo, em cada árbitro e para cada time. E na base disso é que tem se discutido se uma seleção foi mais favorecida e se outra foi prejudicada. Para mim o fato nítido é que tal tipo de orientação pode favorecer as equipes com maior desempenho físico, como as europeias, por exemplo. Como uma grande parte dos jogadores selecionados jogam na Europa, então isso se dilui para quase todas as grandes seleções. E até mesmo para algumas menores, como vimos, Cabo Verde, que fez uma ótima apresentação, dentro das condições que lhe foram oferecidas.

O exposto acima é válido para apontar um importante aspecto dos jogos modernos: o enredo geopolítico que os envolve. Fica claro, com as alterações nas regras, que elas visam agradar a um público estadunidense, seja ele natural ou aclimatado (por imigrantes). E mais: um público estadunidense apreensivo no cenário das atuais “guerras quentes”, pelo governo Trump, pela guerra comercial e pela disputa geoeconômica com a China. A seleção dos EUA não foi muito bem, em campo.  Talvez isso fosse até previsível. Mas o fato é que preciso se mostrar ao mundo ainda como um bom organizador de espetáculos — a despeito dos altos preços dos ingressos e do tratamento vergonhoso dado à seleção do Irã, que para lá foi, corajosamente. É preciso mostrar ao mundo quem ainda dá ordens, mesmo na festa. Outro acontecimento vergonhoso foi a interferência, explícita, do presidente estadunidense junto à FIFA, solicitando ao presidente desta organização o cancelamento de um cartão vermelho dado ao jogador da seleção, Balogun, para que pudesse jogar uma próxima e decisiva partida. E foi aceito o pedido, num segundo ato vergonhoso. Para um país que não obedece às próprias regras que impõe ao mundo, parece que está tudo bem. É compreensível, mas não aceitável, de parte alguma. A despeito de todos os protestos o jogador entrou em campo, mas não foi suficiente para os EUA ganharem no placar. Vergonha total no ano em que os 250 anos da Constituição é comemorado. Mais ainda pela humilhante derrota imposta pela seleção da Bélgica, com Balogun e tudo. Assim, o soft power não pôde ser operado diretamente pelo encanto do selecionado, dada a decepção, mas pela pretensa boa e vistosa organização geral do evento. Mas mesmo isso deixou margens para a dúvida, se foi efetivo ou não, em termos de imagem, considerando todo o ocorrido. Em todo caso, não é exagero afirmar, diante dos fatos, que a Copa do Mundo, um evento tipicamente esportivo, comportou também uma função cívico-militar, tal como mostramos acima para o mundo grego.

Trump não inovou em sua interferência inopinada junto ao presidente da FIFA. Apenas foi mais contundente. Não é uma exceção, um “raio num céu azul”, como dizem. Os EUA atuaram nas Copas mesmo não estando presentes com sua seleção. Como dizem no futebol, “jogou sem bola”. E foi assim que contamos com o senhor Kissenger em várias oportunidades, muito bem registradas. Sua presença mais notória aconteceu na Copa do Mundo de 1978, na Argentina, onde visitou o vestiário da seleção peruana junto com o ditador Jorge Videla antes do polêmico jogo de 6 a 0. Mas não foi só. Antes mesmo de ser secretário de Estado já perambulava por aqui, no Brasil, em 1962, num país apreensivo pela chegada da Copa, disputada então no Chile. O ganhador do Nobel da Paz de 1973 não via o futebol apenas como torcedores, como nós mortais. Soube estabelecer boas relações com o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, sendo convidado VIP nas Copas de 2006 (Alemanha) e 2010 (África do Sul). Na Copa do Mundo de 1994 (Estados Unidos) desempenhou um papel diplomático, tão importante quanto obscuro, como presidente honorário do comitê de candidatura e do conselho consultivo do torneio. Suas relações pessoais continuaram privilegiadas a ponto de sempre garantir sua presença no meio esportivo, sendo convidado assim, por Blatter, a integrar o comitê de notáveis e soluções da FIFA, em 2011, destinado a combater a corrupção na entidade e conseguindo atuar como embaixador e conselheiro da Federação de Futebol dos EUA (U.S. Soccer) nas tentativas de sediar os mundiais de 2018 e 2022. Conta-se também que ele foi um dos que convenceram Pelé a jogar nos EUA, nos anos 1970.

Conclusão

A conclusão necessária é que não é possível separar evento esportivo, especialmente o futebol, da política  e não é possível, como demonstrou Clausewitz, separar a política da guerra. Dentro de campo, ao final, quem decide são os jogadores, que mostrarão sua arte, seu empenho, seu amor ao jogo e a vontade de se consagrar no Olimpo.

Referências para este artigo:

Graves, Robert. Os mitos gregos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021. [A exposição de R. Graves não limita a descrever os mitos. Ele inclui pesquisa histórica e explicações sociológicas. Trata-se da melhor obra no assunto.]

https://www.flashscore.pt/noticias/futebol-campeonato-do-mundo-menos-faltas-menos-cartoes-menos-var-a-nova-filosofia-da-arbitragem-no-mundial-2026/6mAiuog3

https://www.fifa.com/pt/tournaments/mens/worldcup/canadamexicousa2026/articles/novas-regras-copa-do-mundo-2026

https://piaui.uol.com.br/revista/238/kissinger-no-meio-do-redemoinho

https://ludopedio.org.br

Euclides Roberto Novaes de Sousa, 64. – É servidor público estadual, graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia. Licenciado em Sociologia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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