18 de julho de 2026

Quando as potências deixam de parecer invencíveis, por Celso P. de Melo

Potências raramente entram em crise quando perdem poder. Entram em crise quando deixam de transformar esse poder em resultados políticos.
Imagem gerada por IA

Grandes potências perdem eficácia política mesmo mantendo poder militar, econômico e tecnológico.
Exemplos: Alemanha na 2ª Guerra, África do Sul em Angola e Israel no Oriente Médio.
Brasil deve adaptar estratégia externa diante da mudança na ordem internacional global.

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Quando as potências deixam de parecer invencíveis

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Quando a força continua existindo, mas deixa de produzir os mesmos resultados políticos.

por Celso P. de Melo

Toda potência parece invencível até o dia em que deixa de parecer.

O ativo invisível do poder

A história costuma registrar grandes mudanças geopolíticas quando impérios caem, fronteiras são redesenhadas ou guerras terminam. Raramente, porém, elas começam nesses momentos. Frequentemente, têm início muito antes, quando uma transformação menos visível altera a forma como aliados e adversários percebem o poder de uma grande potência.

Esse processo ocorre quando um país continua a ser economicamente poderoso, tecnologicamente avançado e militarmente superior, mas deixa de parecer invencível.

A diferença pode parecer apenas semântica. Não é.

Toda grande potência acumula ativos materiais: riqueza, indústria, tecnologia, capacidade científica e forças armadas. Mas acumula também um patrimônio imaterial de enorme valor estratégico: a convicção, compartilhada por aliados e adversários, de que sua superioridade basta para desencorajar qualquer desafio.

Enquanto essa percepção permanece intacta, a dissuasão produz efeitos antes mesmo do emprego da força. Muitos conflitos simplesmente deixam de ocorrer porque a vitória parece impossível. A credibilidade transforma-se, ela própria, em um instrumento de poder [1].

O problema é que essa credibilidade pode começar a se deteriorar muito antes do poder material. Tanques, aviões, navios, satélites e tecnologias continuam existindo. O que começa a desaparecer é a expectativa de que eles sejam suficientes para produzir os resultados políticos desejados.

É justamente nesse intervalo – entre a permanência da força e a erosão de sua eficácia política – que a história costuma mudar de direção.

As grandes potências raramente entram em crise quando perdem poder. Em geral, entram em crise quando deixam de transformar esse poder em resultados políticos.

Quando a invencibilidade começa a desaparecer

A Segunda Guerra Mundial oferece talvez o exemplo mais conhecido desse fenômeno.

Depois da campanha da França, em 1940, e dos avanços fulminantes de 1941, a Wehrmacht parecia praticamente invencível. Sua combinação de mobilidade, coordenação entre blindados e aviação e elevada capacidade operacional produziu uma sucessão de vitórias que levou muitos observadores a acreditar que a derrota da Alemanha era apenas uma questão de tempo para seus adversários.

Essa percepção começou a mudar diante de Moscou, no inverno de 1941, mas foi Stalingrado, entre 1942 e 1943, que marcou a inflexão decisiva [2]. A derrota do VI Exército mostrou que a máquina militar nazista podia ser detida. Poucos meses depois, Kursk consolidou essa mudança de percepção.

A Alemanha continuava dispondo de forças militares extraordinárias. O que havia desaparecido era algo menos tangível, mas politicamente muito mais importante: a convicção de que venceria inevitavelmente a guerra.

Não foi apenas uma derrota militar. Foi uma ruptura psicológica e estratégica. Pela primeira vez, aliados, adversários e povos submetidos ao domínio alemão passaram a considerar plausível um desfecho que, poucos meses antes, parecia inimaginável.

A partir daquele momento, a força militar alemã continuava a existir, mas já não produzia os mesmos efeitos políticos.

Angola: quando a superioridade militar deixou de bastar

A mesma lógica voltaria a aparecer algumas décadas depois, em outro continente e sob circunstâncias completamente diferentes.

Durante boa parte da Guerra Fria, as Forças Armadas sul-africanas eram consideradas a organização militar mais poderosa da África Subsaariana. Dotadas da única força aérea moderna da região, tecnologia militar avançada e um elevado grau de profissionalização, constituíam um dos pilares da estratégia regional do regime do apartheid.

Foi nesse contexto que, em 1975, Pretória decidiu intervir militarmente em Angola para impedir a consolidação do governo do MPLA após a independência. A expectativa era de uma campanha rápida, capaz de preservar a posição estratégica sul-africana e redefinir o equilíbrio político da África Austral.

Os acontecimentos seguiram outro rumo.

A intervenção cubana alterou profundamente a correlação de forças. Ao longo dos anos seguintes, o conflito deixou de ser uma operação limitada para se transformar em uma guerra prolongada, culminando nas batalhas de Cuito Cuanavale, entre 1987 e 1988 [3]. Independentemente das interpretações sobre seu desfecho militar, tornou-se evidente que Pretória já não conseguia impor unilateralmente seus objetivos políticos pela força.

Esse foi, provavelmente, o aspecto mais importante daquele conflito.

A África do Sul não perdeu imediatamente seu exército, sua capacidade industrial ou sua superioridade tecnológica regional. O que começou a desaparecer foi a convicção de que essa superioridade bastava para determinar, sozinha, o futuro político da África Austral.

Essa mudança de percepção teve consequências muito além do campo de batalha. Em poucos anos, tornaram-se politicamente viáveis processos que antes pareciam improváveis: a independência da Namíbia, a libertação de Nelson Mandela, a legalização do Congresso Nacional Africano e, finalmente, o desmantelamento do apartheid [4, 5].

Naturalmente, nenhum desses acontecimentos decorreu exclusivamente da guerra em Angola. Crises econômicas, sanções internacionais, pressões diplomáticas e a mobilização da sociedade sul-africana desempenharam papéis decisivos. Ainda assim, Angola revelou um limite estratégico que alterou profundamente o cálculo político de todos os atores envolvidos.

Em retrospecto, talvez esse seja seu significado histórico mais duradouro: não ter destruído o poder militar sul-africano, mas ter demonstrado que esse poder já não era capaz de produzir automaticamente os resultados políticos que, durante anos, parecera garantir.

O Oriente Médio: quando a superioridade deixa de garantir o resultado

É sob essa perspectiva que os acontecimentos recentes no Oriente Médio merecem ser observados.

Durante décadas, Israel consolidou uma reputação de superioridade militar praticamente incontestável na região. A combinação entre inteligência, poder aéreo, guerra eletrônica, tecnologia de ponta e sistemas avançados de defesa construiu uma capacidade de dissuasão que ia muito além do emprego efetivo da força. Boa parte da estabilidade regional apoiava-se justamente na convicção de que poucos adversários seriam capazes de desafiar esse predomínio sem enfrentar custos insuportáveis [6].

Essa credibilidade estratégica foi construída ao longo de sucessivas vitórias militares, do desenvolvimento de uma das mais sofisticadas bases científico-tecnológicas do mundo e do estreito apoio político e militar dos Estados Unidos. Mais do que uma vantagem operacional, tornou-se um dos pilares da arquitetura de segurança israelense e da legitimidade política de governos que fizeram da superioridade militar o principal instrumento de dissuasão regional.

Os conflitos dos últimos anos, contudo, sugerem que essa relação entre a superioridade militar e os resultados políticos tornou-se mais complexa.

A guerra do Líbano, em 2006, já havia demonstrado que um adversário muito menos poderoso podia impor custos significativos a uma força tecnologicamente superior. Os confrontos mais recentes envolvendo o Irã acrescentaram um novo elemento a essa equação: mesmo sistemas defensivos altamente sofisticados podem enfrentar limitações quando submetidos a ataques múltiplos, prolongados ou de saturação.

Esses episódios também ilustram uma transformação tecnológica mais ampla. Sistemas ofensivos relativamente baratos – drones, mísseis de precisão e ataques coordenados – passaram a impor custos crescentes a plataformas defensivas extremamente sofisticadas e muito mais caras [7]. Ainda é cedo para medir o alcance dessa mudança, mas ela ajuda a explicar por que a superioridade tecnológica já não se converte automaticamente em superioridade política.

A questão central, porém, não é determinar quem venceu cada confronto, nem sugerir que Israel tenha perdido sua superioridade militar, que continua sendo uma das mais avançadas do mundo. A pergunta é outra: estaremos assistindo ao início de um processo em que essa superioridade deixa de produzir, automaticamente, os resultados políticos que, durante décadas, parecia assegurar?

Essa é precisamente a questão que a experiência histórica recomenda observar.

A analogia com Angola não pretende equiparar contextos profundamente distintos, nem estabelecer paralelos simplistas entre o regime do apartheid e o atual conflito no Oriente Médio. Ela procura chamar a atenção para um mecanismo recorrente da história: grandes transformações políticas costumam começar quando uma potência continua poderosa, mas já não consegue converter sua superioridade militar em resultados políticos com a mesma eficácia de antes.

Foi esse o processo iniciado após Stalingrado, quando a Alemanha nazista deixou de parecer militarmente invencível. Foi esse também o significado histórico da intervenção sul-africana em Angola, que revelou os limites da capacidade do regime do apartheid de impor, pela força, a ordem política da África Austral. A questão que hoje se coloca é se algo semelhante poderá estar começando a ocorrer no Oriente Médio.

Se essa percepção vier a se consolidar, sua consequência mais importante talvez não seja militar, mas política. Grandes mudanças internacionais começam quando aliados recalculam suas expectativas, adversários deixam de considerar impossível desafiar a potência dominante e soluções antes impensáveis passam, gradualmente, a tornar-se negociáveis. Foi exatamente esse processo que a África Austral experimentou após Angola.

Se o Oriente Médio estiver entrando em uma dinâmica semelhante, seus efeitos poderão ultrapassar em muito o campo de batalha. É nesses momentos que a força continua existindo, mas deixa de produzir os mesmos resultados políticos.

E o Brasil?

Para o Brasil, essa discussão está longe de ser um exercício de história militar. Mudanças na credibilidade estratégica das grandes potências alteram alianças, cadeias produtivas, investimentos, fluxos financeiros e a própria margem de autonomia dos países intermediários. Toda transição da ordem internacional amplia as incertezas, mas também abre oportunidades para aqueles capazes de reconhecer que a distribuição do poder está mudando.

Os acontecimentos recentes sugerem uma reflexão adicional. Durante décadas, a política externa brasileira desenvolveu-se tendo como referência uma ordem internacional relativamente estável, marcada pela liderança incontestada dos Estados Unidos. Se essa configuração estiver efetivamente entrando em transformação – e se Washington passar a privilegiar uma atuação mais unilateral e uma reafirmação explícita de sua primazia no Hemisfério Ocidental – será natural que o Brasil reavalie, com pragmatismo, suas estratégias de inserção internacional, diversifique parcerias e amplie suas margens de autonomia [8].

Países médios raramente têm condições de determinar os rumos da política internacional. Podem, porém, compreender quando a ordem mundial começa a mudar e adaptar suas estratégias antes que essas transformações se consolidem. Para um país com a dimensão territorial, econômica e geopolítica do Brasil, essa não é apenas uma questão de política externa. É uma condição para construir um projeto de desenvolvimento compatível com o mundo que está emergindo.

Nenhum país escolhe a época em que vive. Mas pode escolher se compreenderá – ou não – as transformações do seu tempo.

Toda potência parece invencível até o dia em que deixa de parecer. E é justamente nesse dia que a história volta a oferecer escolhas aos demais países.

Bibliografia

1.  Schelling, T.C., Arms and Influence. 1966, New Haven: Yale University Press.

2.  Beevor, A., Stalingrad. 1998, London: Penguin Books.

3.  Gleijeses, P., Conflicting Missions: Havana, Washington, and Africa, 1959-1976. 2002, Chapel Hill: The University of North Carolina Press.

4.  Gleijeses, P., Visions of Freedom: Havana, Washington, Pretoria, and the Struggle for Southern Africa, 1976-1991. 2013, Chapel Hill: The University of North Carolina Press.

5.  Mandela, N., Long Walk to Freedom. 1994, London: Little, Brown and Company.

6.  Freedman, L., Deterrence. 2004, Cambridge: Polity Press.

7.  Hammes, T.X., Key Technologies and the Revolution of Small, Smart, and Cheap in the Future of Warfare, in Strategic Assessment 2020. 2020, National Defense University Press: Washington, DC.

8.  Stuenkel, O., The BRICS and the Future of Global Order. 2015, Lanham: Lexington Books.


Celso P. de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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