7 de julho de 2026

A colheita invisível, por Celso P. de Melo

O debate brasileiro foi apresentado como uma escolha entre vocação agrícola e desenvolvimento tecnológico, como se um limitasse o outro.
Imagem gerada por IA

Navios brasileiros exportam soja, milho, café, carnes e celulose, mas o verdadeiro legado é a capacidade tecnológica gerada.
Agricultura brasileira impulsiona inovação integrando física, química, biotecnologia e IA, formando um complexo sistema tecnológico.
Desafio atual é conectar competências científicas e empresariais para transformar conhecimento em desenvolvimento sustentável e inovação.

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A colheita invisível

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O que a agricultura brasileira ainda pode ensinar sobre desenvolvimento

por Celso P. de Melo

Há colheitas que enchem navios. Outras mudam a história.

O que realmente embarca nos navios?

Todos os dias, navios deixam os portos brasileiros carregados de soja, milho, açúcar, café, carnes e celulose. Seguem para a China, a Europa, o Oriente Médio e dezenas de outros mercados. Para economistas, representam exportações; para produtores rurais, produtividade; para o país, uma das maiores histórias de sucesso da agricultura mundial.

Mas essa é apenas a parte mais visível da história.

Cada um desses navios transporta também uma pergunta que raramente fazemos: o que uma nação deveria colher, além dos produtos que exporta?

A resposta parece evidente: alimentos, divisas, empregos e crescimento econômico. A história do desenvolvimento sugere outra resposta. Os países que mudaram de posição na economia mundial colheram algo muito mais valioso. Enquanto produziam madeira, alimentos, aço ou carvão, também produziam engenheiros, empresas, universidades, laboratórios e capacidades tecnológicas que sobreviveram muito após ser esgotada a vantagem inicial proporcionada pelos recursos naturais.

Essa é a colheita invisível.

Ela não aparece nas estatísticas de exportação nem pode ser medida em toneladas ou dólares. Ainda assim, costuma ser ela – e não os produtos embarcados – que distingue os países que apenas exploram recursos naturais daqueles que constroem uma economia baseada no conhecimento.

Durante muito tempo, o debate brasileiro foi apresentado como uma escolha entre vocação agrícola e desenvolvimento tecnológico, como se o sucesso em um caminho limitasse necessariamente o outro.

Talvez essa tenha sido a pergunta errada.

A experiência histórica mostra que as sociedades mais bem-sucedidas não abandonaram seus recursos naturais. Transformaram seus recursos naturais em plataformas de aprendizagem, convertendo problemas produtivos em conhecimento, conhecimento em soluções de engenharia e essas soluções em empresas, instituições e ecossistemas permanentes de inovação. O recurso natural foi apenas o ponto de partida; a verdadeira riqueza surgiu do conhecimento acumulado ao longo desse processo.

Sob essa perspectiva, a agricultura deixa de ser apenas um setor da economia. Torna-se um laboratório de inovação, onde desafios ligados à produtividade, à mecanização, aos novos materiais, aos sensores e à inteligência artificial mobilizam conhecimentos provenientes da física, da química, da ciência dos materiais, da eletrônica, da computação, das telecomunicações, da biotecnologia e da engenharia.

É justamente por isso que este ensaio não trata, em última análise, de agricultura.

Trata de desenvolvimento.

Da capacidade de transformar atividades produtivas em competências permanentes.

Porque a pergunta decisiva para o futuro do Brasil talvez já não seja quantos navios deixarão nossos portos nas próximas décadas.

A pergunta é outra.

Quando o último navio partir, o que terá permanecido no país?

Quando os problemas produzem engenheiros

Se a abundância de recursos naturais fosse suficiente para explicar o desenvolvimento econômico, a geografia da riqueza mundial seria muito diferente da que conhecemos. Países ricos em florestas, terras férteis ou minérios ocupariam naturalmente as posições mais avançadas da economia mundial. A história mostra exatamente o contrário.

Recursos naturais são apenas oportunidades. O desenvolvimento depende da capacidade de transformá-los em problemas tecnológicos capazes de mobilizar o conhecimento, a engenharia e a inovação.

Essa talvez seja uma das principais lições da história econômica moderna. As grandes transformações industriais raramente nasceram da simples exploração de riquezas naturais. Nasceram da necessidade de resolver problemas cada vez mais complexos. Cada desafio vencido deixou um legado permanente: novos conhecimentos, empresas mais sofisticadas, profissionais mais qualificados e instituições capazes de enfrentar desafios ainda maiores. O verdadeiro produto desse processo nunca foi apenas a mercadoria produzida, mas também a capacidade de resolver problemas cada vez mais complexos.

A Suécia ilustra esse mecanismo de forma exemplar. As extensas florestas suecas impunham desafios de engenharia consideráveis: transportar toras de grandes dimensões por terrenos acidentados e sob condições climáticas rigorosas. Superá-los exigiu o desenvolvimento de máquinas mais robustas, aços de melhor desempenho, rolamentos mais resistentes, motores mais eficientes e sistemas logísticos cada vez mais sofisticados.

As árvores nunca produziram caminhões.

Produziram problemas.

E foram esses problemas que impulsionaram competências em metalurgia, engenharia mecânica e manufatura de precisão. O conhecimento acumulado no setor florestal transbordou para outros segmentos da economia, criando as competências que, mais tarde, dariam origem a empresas como a SKF, referência em rolamentos, a Scania e a Volvo, fabricantes de veículos pesados, além de fornecedores de equipamentos industriais e de mineração. O setor florestal deixou de ser apenas um produtor de madeira.

Tornou-se uma escola de engenharia.

Essa lógica repetiu-se em diferentes contextos históricos. A Alemanha construiu sua força industrial apoiando-se na engenharia, na química e na manufatura de precisão. Nos Estados Unidos, a mecanização agrícola evoluiu para uma plataforma de inovação que hoje integra hidráulica, eletrônica, sensores, posicionamento por satélite e inteligência artificial. A China, por sua vez, utilizou a modernização da agricultura para fortalecer os fabricantes nacionais e desenvolver competências em automação, robótica, eletrônica e máquinas agrícolas avançadas.

As trajetórias foram distintas.

A lógica foi a mesma.

Nenhum desses países enriqueceu simplesmente porque possuía florestas, terras férteis ou grandes mercados consumidores. Enriqueceram porque transformaram problemas produtivos em conhecimento, e esse conhecimento em novas capacidades tecnológicas, que passaram a irradiar inovação por toda a economia.

Talvez essa seja a verdadeira matéria-prima do desenvolvimento.

As commodities podem iniciar uma trajetória de crescimento.

São as capacidades tecnológicas construídas ao longo dessa trajetória que a tornam duradoura.

E se estivermos contando a história errada?

Quando se discute desenvolvimento industrial brasileiro, costuma prevalecer uma narrativa conhecida. Segundo ela, o país jamais conseguiu construir uma base tecnológica compatível com sua extraordinária potência agrícola. Exportamos soja, milho, carnes, café, celulose e minério, mas continuamos dependentes de máquinas, componentes e tecnologias desenvolvidas no exterior.

Essa interpretação contém parte da verdade.

Mas não toda ela.

Ao concentrar a atenção apenas naquilo que o Brasil não conseguiu fazer, corremos o risco de ignorar um patrimônio tecnológico construído silenciosamente ao longo de décadas. Um patrimônio que raramente aparece nas estatísticas econômicas, mas permanece incorporado às competências de empresas, universidades, laboratórios, centros de pesquisa e milhares de profissionais altamente qualificados.

A história da agricultura brasileira não é apenas a história da expansão da produção agrícola.

É também a história da construção de capacidades tecnológicas.

Muito antes da agricultura digital, empresas nacionais já desenvolviam máquinas adaptadas às condições tropicais, implementos agrícolas, sistemas de pulverização e soluções próprias de mecanização. Vemag, CBT, Romi, Agrale, Jacto, Baldan, Marchesan e Stara representam momentos distintos dessa trajetória de aprendizagem tecnológica.

Nenhuma delas se transformou em uma John Deere brasileira.

Mas essa talvez não seja a pergunta mais importante.

Mais relevante do que reproduzir a trajetória de uma única empresa é perguntar se o Brasil foi capaz de construir competências tecnológicas distribuídas entre diferentes organizações.

Sob esse aspecto, a resposta parece claramente afirmativa.

Ao lado dessas empresas, a Embrapa revolucionou a agricultura tropical, demonstrando que conhecimento científico também pode ser uma vantagem competitiva. Universidades formaram sucessivas gerações de engenheiros, cientistas e pesquisadores. Fabricantes nacionais desenvolveram motores, componentes, sistemas hidráulicos, softwares e equipamentos especializados. Empresas como a WEG mostraram que competências construídas em um setor podem irradiar inovação para muitos outros.

Vista em conjunto, essa trajetória revela uma realidade diferente daquela normalmente apresentada.

O Brasil aprendeu muito mais do que costuma reconhecer.

Esse patrimônio, porém, desenvolveu-se em um ambiente competitivo profundamente assimétrico. Empresas brasileiras disputam mercados dominados por corporações globais que acumulam décadas de aprendizagem, enormes economias de escala, redes internacionais de fornecedores e crescente domínio sobre plataformas digitais e serviços. Preservar espaços de aprendizagem para que os processos nacionais possam evoluir tornou-se, por isso, parte integrante de qualquer estratégia de desenvolvimento tecnológico.

Durante décadas, perguntamos por que o país não conseguiu construir determinadas competências tecnológicas.

Hoje a pergunta precisa ser outra.

O Brasil não sofre de escassez de competências. Sofre de abundância de competências pouco conectadas.

Essa talvez seja a principal diferença entre a experiência brasileira e a dos países discutidos anteriormente. Na Suécia, na Alemanha, nos Estados Unidos e, mais recentemente, na China, competências desenvolvidas em determinados setores transbordaram progressivamente para o restante da economia, formando ecossistemas industriais integrados. No Brasil, esse processo também ocorreu, mas de forma mais fragmentada. Construímos excelentes empresas, universidades e instituições científicas, que frequentemente evoluíram em paralelo, conectando-se apenas parcialmente entre si.

Essa constatação muda a natureza do desafio brasileiro.

Já não se trata apenas de criar competências.

Trata-se de articulá-las em torno de missões capazes de conduzi-las da pesquisa ao mercado, da inovação à produção e da produção à formação de novos ecossistemas tecnológicos.

É justamente nesse ponto que a agricultura brasileira revela seu verdadeiro significado. Ela deixa de ser apenas um setor econômico para tornar-se um sistema tecnológico extraordinariamente complexo, no qual convergem física, química, ciência dos materiais, eletrônica, telecomunicações, biotecnologia, inteligência artificial e engenharia.

É nesse laboratório invisível que talvez se encontre uma das maiores oportunidades de desenvolvimento do Brasil.

Onde a agricultura encontra a Física

É aqui que a agricultura deixa definitivamente de ser apenas agricultura.

À primeira vista, a agricultura pertence ao domínio da biologia. Plantas, sementes, solos, água, fertilizantes e clima parecem explicar quase tudo.

Mas a agricultura do século XXI tornou-se também um dos sistemas tecnológicos mais sofisticados da economia contemporânea.

Hoje, cada decisão tomada no campo depende da integração entre agronomia, física, química, ciência dos materiais, eletrônica, computação, telecomunicações e inteligência artificial.

Essa transformação ocorreu quase silenciosamente.

O olhar do agricultor passou a ser ampliado por sensores que monitoram, em tempo real, a umidade e a composição do solo. Satélites, drones e câmeras multiespectrais acompanham o desenvolvimento das lavouras, enquanto algoritmos identificam padrões invisíveis ao olho humano e antecipam deficiências nutricionais, estresses hídricos, pragas e perdas de produtividade.

Por trás dessas aplicações existe uma infraestrutura científica extremamente sofisticada. Sensores, novos materiais, fotônica, microeletrônica, sistemas de posicionamento por satélite, redes digitais e inteligência artificial passaram a integrar o cotidiano da agricultura moderna.

A agricultura continua produzindo alimentos.

Mas passou também a produzir os problemas tecnológicos mais desafiadores da economia contemporânea.

Essa mudança altera completamente o papel estratégico do setor. Um problema agrícola já não mobiliza apenas agrônomos. Mobiliza físicos, químicos, engenheiros, cientistas dos materiais, especialistas em telecomunicações, desenvolvedores de software e pesquisadores em inteligência artificial. A agricultura deixa de ser apenas usuária de tecnologia para tornar-se um poderoso indutor de inovação.

No Brasil, dificilmente essa transformação teria ocorrido sem a atuação da Embrapa. Desde sua criação, a instituição demonstrou que adaptar a agricultura tropical exigia muito mais do que desenvolver novas variedades vegetais. Exigia compreender os solos, aperfeiçoar sistemas de produção e integrar conhecimentos provenientes de diferentes áreas da ciência.

Essa convergência torna-se particularmente evidente na Embrapa Instrumentação, em São Carlos. Ali, sensores ópticos, fotônica, nanotecnologia, novos materiais, microeletrônica, automação e agricultura digital convergem em um mesmo ambiente de pesquisa. É um exemplo concreto de como problemas agrícolas passaram a mobilizar algumas das áreas mais avançadas da Física e da engenharia e, ao mesmo tempo, de como a Física passou a encontrar na agricultura um de seus mais ricos campos de aplicação.

Essa perspectiva também permite reinterpretar a própria história recente da agricultura brasileira. Costuma-se atribuir seu sucesso à abundância de terras, ao clima favorável ou ao empreendedorismo dos produtores. Todos esses fatores foram importantes. Mas nenhum deles explica, por si só, a transformação ocorrida nas últimas cinco décadas.

A verdadeira revolução ocorreu porque a agricultura brasileira passou a gerar desafios científicos e tecnológicos suficientemente complexos para mobilizar universidades, institutos de pesquisa, empresas e centros tecnológicos em torno de problemas comuns.

Em outras palavras, o maior produto da agricultura brasileira talvez nunca tenha sido apenas soja, milho, café ou carne.

Talvez tenha sido a construção de um ambiente no qual a ciência, a engenharia e a produção aprenderam a trabalhar juntas.

É justamente essa convergência que distingue os setores capazes de liderar processos duradouros de desenvolvimento.

Nessa perspectiva, a agricultura deixa de ser apenas um setor econômico.

Ela se revela um dos mais poderosos motores de inovação da economia brasileira.

As peças que ainda não conectamos

Se o diagnóstico apresentado até aqui estiver correto, o principal desafio brasileiro talvez já não seja produzir conhecimento. Também não parece ser a falta de empresas inovadoras, de universidades qualificadas ou de pesquisadores competentes. Ao longo das últimas décadas, o país demonstrou ser capaz de construir competências científicas, tecnológicas e empresariais em diferentes áreas.

O problema parece residir em outro lugar: na dificuldade de transformar essas competências em capacidades nacionais.

Essa mudança de perspectiva altera a própria natureza do debate sobre desenvolvimento. Durante muito tempo, discutimos como fortalecer as universidades, ampliar os investimentos em ciência e tecnologia ou estimular as empresas inovadoras. Essas continuam sendo questões fundamentais. Mas a pergunta decisiva passa a ser outra: como fazer o conhecimento percorrer o caminho entre o laboratório e a produção em escala?

O Brasil já dispõe de boa parte das instituições necessárias para isso. A Embrapa consolidou um dos mais bem-sucedidos sistemas de pesquisa agropecuária do mundo tropical. A Embrapii aproximou universidades e empresas em projetos de inovação. A Finep acumulou décadas de experiência no financiamento ao desenvolvimento tecnológico. O BNDES continua sendo um dos principais instrumentos de financiamento de longo prazo. Mais recentemente, a Nova Indústria Brasil recolocou no centro do debate a ideia de missões tecnológicas.

Observadas isoladamente, essas iniciativas parecem instituições independentes.

Vistas em conjunto, revelam os elementos de uma arquitetura nacional de inovação.

Mas existe um gargalo decisivo.

O Brasil ainda dispõe de poucos mecanismos capazes de conduzir tecnologias pelo trecho mais difícil da inovação: a passagem entre a pesquisa aplicada, a validação tecnológica, o protótipo e a produção em escala. É justamente nesse intervalo – correspondente aos níveis intermediários de maturidade tecnológica (TRL 4 a 7) – que muitas iniciativas promissoras deixam de avançar.

Universidades geram conhecimento. Empresas identificam oportunidades. Agências financiam projetos. O que frequentemente falta é uma estrutura capaz de articular essas etapas, conectando pesquisa, desenvolvimento tecnológico, engenharia de produto, manufatura-piloto, financiamento, compras públicas, regulação e mercado.

É nesse ponto que a experiência chinesa oferece uma contribuição particularmente relevante. Em vez de tratar a inovação como uma sequência linear – ciência, tecnologia, produto e mercado –, a China passou a organizar cadeias coordenadas de inovação, nas quais universidades, institutos de pesquisa, empresas, instrumentos financeiros e Estado atuam simultaneamente em torno de gargalos tecnológicos estratégicos. A questão deixa de ser apenas a de quem pesquisa ou de quem financia. Passa a ser de quem organiza a travessia entre o conhecimento e a capacidade produtiva.

Essa talvez seja a principal lição para o Brasil.

O desafio já não parece ser criar novas instituições.

É fazer com que as instituições existentes operem como partes de um mesmo sistema, compartilhando missões, prioridades e horizontes de longo prazo.

Quando isso acontece, o conhecimento deixa de permanecer confinado em organizações isoladas. Ele passa a circular por toda a economia, acelerando a inovação, formando novas competências e ampliando continuamente a complexidade tecnológica do sistema produtivo.

É nesse momento que um conjunto de instituições deixa de funcionar como organizações independentes e passa a constituir um verdadeiro sistema nacional de inovação.

Talvez essa seja a próxima fronteira do desenvolvimento brasileiro.

A verdadeira colheita

No início deste ensaio, acompanhamos navios deixando os portos brasileiros carregados de soja, milho, café, carnes, açúcar e celulose. Pareciam transportar apenas mercadorias.

Agora sabemos que essa era apenas uma parte da história.

Ao longo das últimas décadas, a agricultura brasileira produziu muito mais do que apenas alimentos. Produziu desafios científicos, engenheiros, pesquisadores, empresas, universidades, laboratórios e instituições capazes de enfrentar alguns dos problemas mais complexos da produção contemporânea.

Produziu, sobretudo, uma capacidade coletiva de aprender.

Essa talvez seja sua maior contribuição para o desenvolvimento brasileiro.

Não apenas colher mais.

Aprender mais.

Sob essa perspectiva, a antiga oposição entre agricultura e tecnologia perde completamente o sentido. Nunca se tratou de escolher entre commodities e economia do conhecimento. A verdadeira questão sempre foi saber se utilizaríamos nossas commodities para construir capacidades tecnológicas permanentes.

O Brasil já percorreu uma parte importante desse caminho. Ao longo de décadas, construiu empresas inovadoras, universidades de excelência, instituições científicas respeitadas internacionalmente e uma agricultura tropical admirada em todo o mundo. O próximo passo histórico talvez não seja criar novas competências, mas conectá-las, fazê-las crescer e transformá-las em novos ciclos de desenvolvimento.

Durante muito tempo perguntamos como agregar valor às nossas exportações.

Talvez exista uma pergunta ainda mais importante: como transformar produção em aprendizagem?

Porque a riqueza pode ser exportada.

Tecnologias podem envelhecer.

Empresas podem desaparecer.

Mas uma sociedade que aprende continuamente passa a produzir riqueza de uma forma que nenhuma commodity consegue substituir.

No início deste artigo perguntamos o que realmente embarca nos navios que deixam diariamente os portos brasileiros.

A resposta continua sendo soja, milho, café, carnes e celulose.

Mas essa nunca foi a pergunta mais importante.

A pergunta decisiva é outra: o que permanece no país depois que os navios partem?

Se permanecer apenas a renda das exportações, teremos realizado uma boa colheita.

Mas, se permanecerem engenheiros, empresas inovadoras, universidades mais fortes, laboratórios e a capacidade de transformar problemas em novas soluções, então a carga mais valiosa nunca terá embarcado.

Ela terá permanecido em terra.

O verdadeiro patrimônio de uma nação não é aquilo que ela produz, mas aquilo que aprende enquanto produz.

Essa é a verdadeira colheita invisível.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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