De repente, parece que caiu a ficha da mídia em relação a Lula. O Globo, principalmente, parece ter saído da fracassada Operação Lava Jato 2 para dar apoio ostensivo a Lula. São reportagens seguidas sobre as falhas de Flávio Bolsonaro, entremeadas de matérias favoráveis a Lula. Sem elogiar Lula diretamente, o Estadão publica editoriais contundentes contra Flávio, enquanto a Folha se limita a ecoar O Globo nas matérias negativas contra o candidato.
Por trás desse movimento articulado, duas convicções. A primeira é a de que mais bombas virão pelo caminho e que a candidatura de Flávio naufragará. A segunda é a possibilidade de surgir outra candidatura competitiva na direita — do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao representante do MBL, Renan Soares.
O melhor termômetro para isso não são os jornais, mas Ciro Gomes que, depois de perder qualquer veleidade de voltar ao plano político nacional, esmera-se em encontrar algum presidenciável no qual se apoiar. Em suas últimas declarações, incluiu Caiado, de quem se diz “muito amigo”, e o promissor Renan, que sonha em repetir no Brasil a experiência de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que adotou uma política de prisões em massa contra supostos integrantes de gangues.
Em algum lugar desse oceano de pesquisas que afoga a opinião pública, apareceu Caiado superando Lula, dentro da margem de erro, em um segundo turno hipotético — e ele se vangloriou de ainda ser pouco conhecido. Talvez seja esse justamente o motivo.
As pesquisas trabalham com três possíveis adversários de Lula. O governador de um grande estado, como Minas Gerais, poderia ser favorito entre os três, mas tornou-se mais conhecido por comer banana com casca em público.
O candidato que pode surgir como novidade, portanto, é o que se apresenta como o Bukele brasileiro.
Desde 2022, mais de 80 mil pessoas foram presas em El Salvador sob o regime de exceção, em meio a prisões arbitrárias, detenções sem devido processo legal e violações de direitos humanos.
Se Renan mostrar força nas pesquisas, mídia e Ciro certamente repetirão o erro cometido em outros países: apoiar um candidato de PowerPoint, sem nenhuma experiência política e que, se eleito, teria apenas um voluntarismo desvairado para se manter no cargo por algum tempo.
Já houve um caso assim, chamado Fernando Collor. E a saga da imprensa, caso consiga eleger Renan, será semelhante. Na campanha, apoio a ele (se as pesquisas indicarem chances). Eleito, apoio inicial às suas bandeiras — especialmente se indicar algum representante da Faria Lima para comandar a economia e conduzir uma nova rodada de privatização selvagem. Na sequência, o desgaste com sua falta de experiência política, as cabeçadas que dará implementando seu PowerPoint, até desembocar, em algum momento futuro, em outra campanha de impeachment.
Aliás, meu primeiro contato com Ciro foi em um café da manhã no Maksoud Plaza, no qual não parou de bater no governador Mário Covas por ter vetado a ida dos tucanos José Serra e Fernando Henrique Cardoso, para compor o gabinete de Collor.
Para esse pessoal, o Brasil é um eterno laboratório. De qualquer modo, é interessante acompanhar os movimentos de Ciro — não pelo que ele representa para o país, já que matou o que restava de suas ideias, mas pelo fato de funcionar como biruta de aeroporto, indicando o rumo dos ventos políticos.
Com todo esse carnaval, a candidatura de Lula continua sendo, inevitavelmente, a única boia contra o maremoto que sacode a política brasileira desde que o PSDB deixou de ser a segunda via. Isso ocorreu a partir da campanha de José Serra, em 2010, apelando a todo tipo de polarização primária e de ataques via redes sociais. Mas a ficha da rede de alianças do PSDB, da mídia ao Supremo, só caiu quando surgiu, em 2018, o monstro da Lagoa, na figura de Jair Bolsonaro.
Lula tem o bom apoio de Donald Trump, com suas ameaças ao Brasil, e a expectativa de um quarto governo no qual poderá lançar as bases de uma nova etapa de desenvolvimento.
E esse quadro se completará quando à figura de Lula — hoje a maior liderança democrática do mundo, o dirigente que defende todos os princípios internos e internacionais de uma democracia moribunda — baixar o espírito de Franklin Delano Roosevelt e seu New Deal, de De Gaulle e sua Quinta República, de Adenauer e a reconstrução alemã, de Nelson Mandela e a reconciliação nacional, e de Getúlio Vargas lançando as bases da modernização do Estado brasileiro.
A vantagem é que o país está hoje em condições muito melhores do que aquelas enfrentadas por cada um desses estadistas do século passado.
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