27 de julho de 2026

ONU alerta para risco de nova alta nos casos de HIV, enquanto Brasil amplia acesso à prevenção

Atualmente, cerca de 41 milhões de pessoas vivem com HIV, mas aproximadamente 22% delas ainda não recebem tratamento
Crédito: RUSLANAS BARANAUSKAS/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images

Relatório da UNAIDS alerta que cortes em financiamento e barreiras a tecnologias ameaçam avanços no combate à AIDS até 2030.
Brasil vai pedir à Conitec inclusão do cabotegravir, PrEP injetável, no SUS para ampliar prevenção contra o HIV.
Financiamento global caiu 18% em 2025, afetando prevenção e tratamento, especialmente em países africanos e populações vulneráveis.

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Os avanços científicos no combate ao HIV nunca foram tão promissores, mas o mundo ainda corre o risco de assistir a um ressurgimento da epidemia caso haja redução dos investimentos em prevenção, tratamento e acesso a novos medicamentos. O alerta consta no relatório Unidas e Unidos para acabar com a AIDS, divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.

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O documento aponta que a combinação de cortes no financiamento internacional, redução dos serviços comunitários e barreiras ao acesso às novas tecnologias ameaça comprometer décadas de avanços e coloca em risco a meta de eliminar a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.

Apesar do cenário de preocupação, o Brasil anunciou uma medida para ampliar a prevenção. O Ministério da Saúde informou que enviará, na próxima semana, à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) o pedido para que o cabotegravir, medicamento injetável de longa duração usado na profilaxia pré-exposição (PrEP), passe a ser oferecido pela rede pública.

O anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante a conferência.

Desafios

Segundo o UNAIDS, em 2025 foram registrados 1,2 milhão de novos casos de HIV e 570 mil mortes relacionadas à AIDS no mundo, os menores números das últimas três décadas. Ainda assim, a agência alerta que o progresso é desigual e pode ser revertido.

Atualmente, cerca de 41 milhões de pessoas vivem com HIV, mas aproximadamente 22% delas ainda não recebem tratamento. Entre as crianças, quase metade permanece sem acesso à terapia antirretroviral.

O relatório também mostra que 21 países registraram aumento das infecções no último ano, enquanto os novos casos cresceram em três regiões do planeta.

Para a diretora-executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, os avanços científicos só terão impacto se os medicamentos chegarem às populações mais vulneráveis. “Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça.”

PrEP injetável

Enquanto o relatório destaca a necessidade de ampliar o acesso às novas tecnologias, o governo brasileiro anunciou um passo nessa direção.

O cabotegravir é uma PrEP injetável aplicada a cada dois meses, alternativa aos comprimidos de uso diário atualmente oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O medicamento foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2023 e já é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo Alexandre Padilha, o pedido de incorporação será encaminhado após o laboratório fabricante apresentar ao governo um preço considerado adequado. A decisão final, porém, dependerá da análise da Conitec, que avaliará eficácia, impacto orçamentário e custo-benefício antes de recomendar sua inclusão no SUS.

Estudos clínicos realizados também no Brasil apontaram que o cabotegravir apresentou eficácia cerca de 69% superior à PrEP oral tradicional, além de facilitar a adesão ao tratamento por exigir apenas seis aplicações ao longo do ano.

Lenacapavir

O ministro também criticou o preço do lenacapavir, outro medicamento de longa duração aprovado pela Anvisa e administrado apenas duas vezes por ano.

Segundo Padilha, o governo tentou negociar a compra do medicamento para o SUS, mas não chegou a um acordo com a fabricante.

De acordo com o ministro, o Brasil se dispôs a pagar até dez vezes o valor praticado para países como Indonésia e Tailândia, proposta que teria sido rejeitada.

“Não vamos drenar o recurso dos contribuintes para atender exclusivamente ao interesse de lucro de uma empresa”, afirmou Padilha.

O relatório do UNAIDS também cita o impasse. Embora o Brasil tenha participado dos estudos clínicos do lenacapavir, o país não recebeu licença voluntária para produção de versões genéricas ou aquisição por preços reduzidos e avalia recorrer ao licenciamento compulsório.

Cortes de recursos

Um dos principais alertas do relatório é a queda histórica do financiamento internacional destinado ao combate ao HIV. Segundo o UNAIDS, os recursos globais para programas contra a doença caíram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, redução de 18% e o menor patamar em quase duas décadas.

A assistência oficial ao desenvolvimento encolheu 23% no período, afetando principalmente países africanos que dependem de recursos externos para financiar a maior parte de suas políticas de prevenção e tratamento.

Os cortes também atingiram organizações comunitárias. Em alguns países, o financiamento para preservativos foi reduzido em mais de 90%, enquanto serviços voltados para populações vulneráveis sofreram retrações superiores a 80%.

Metas para 2030

Além das dificuldades financeiras, o UNAIDS alerta para o aumento da criminalização de grupos considerados mais vulneráveis ao HIV.

Atualmente, segundo o relatório, 168 países criminalizam o trabalho sexual, 152 mantêm punições relacionadas ao porte de pequenas quantidades de drogas, 66 criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo e 14 adotam leis contra pessoas trans.

Para Winnie Byanyima, esse cenário dificulta o acesso aos serviços de saúde e compromete o controle da epidemia.

Apesar dos desafios, a ONU reafirma que é possível acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030, desde que sejam mantidos os investimentos, ampliado o acesso às novas tecnologias de prevenção e garantida a proteção dos direitos humanos.

Entre as metas estabelecidas estão colocar 40 milhões de pessoas em tratamento e garantir acesso à PrEP para 20 milhões de pessoas até o fim da década. Segundo a instituição, o cumprimento desses objetivos poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030.

*Com informações do g1.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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