Um eventual acordo de paz entre Estados Unidos e Irã não será sustentável apenas com garantias militares ou compromissos diplomáticos: a estabilidade vai depender da capacidade de transformar a reconstrução do país em ganhos para a população, principalmente por meio da geração de empregos e da retomada da atividade econômica.
A afirmação é do economista Djavad Salehi-Isfahani, professor da Virginia Tech. Em artigo publicado no Project Syndicate, o especialista avalia que os erros cometidos durante o confronto entre Washington, Tel Aviv e Teerã partiram da expectativa de que a pressão militar poderia provocar o colapso do governo iraniano ou levar a uma rendição completa.
No entanto, para o Irã, instrumentos como o controle do Estreito de Ormuz continuam sendo vistos como mecanismos de defesa diante da possibilidade de novos ataques.
Para Salehi-Isfahani, a experiência histórica mostra que acordos políticos precisam estar acompanhados de projetos econômicos capazes de criar apoio social. Após a guerra Irã-Iraque (1980-1988), o governo de Ali Akbar Hashemi Rafsanjani apostou em um amplo programa de reconstrução, com investimentos em infraestrutura, saúde, educação e eletrificação rural.
A estratégia ajudou a reduzir a pobreza e expandir a classe média iraniana, transformando a reconstrução nacional em uma nova promessa política após anos de conflito. O argumento central do economista é que um processo semelhante seria necessário agora: a paz precisa ser associada à melhoria das condições de vida da população.
Sanções e empregos no centro de um possível acordo
O artigo destaca que a simples liberação de exportações de petróleo ou de ativos financeiros congelados teria impacto limitado sobre a população. Embora essas medidas fortaleçam as contas do governo iraniano, elas não necessariamente criam empregos ou ampliam oportunidades para trabalhadores comuns.
Segundo Salehi-Isfahani, a retirada das sanções financeiras teria um efeito mais amplo ao permitir que pequenas e médias empresas iranianas retomem relações com mercados internacionais. Com uma moeda desvalorizada e uma população altamente escolarizada, o Irã poderia ampliar exportações de bens e serviços, aumentando a demanda por mão de obra.
O economista argumenta que a falta de benefícios econômicos amplos foi um dos fatores que prejudicaram o acordo nuclear de 2015, conhecido como JCPOA. Embora tenha permitido algum alívio econômico, muitos iranianos perceberam que os ganhos ficaram concentrados em setores empresariais e grupos urbanos, enquanto a população de menor renda continuou enfrentando dificuldades.
Por isso, qualquer novo pacto entre Estados Unidos e Irã precisaria demonstrar resultados diretamente ligados ao cotidiano dos cidadãos. Caso contrário, a falta de apoio popular pode comprometer novamente a durabilidade do acordo.
Na visão do articulista, a paz não será mantida apenas pelo equilíbrio militar entre os países, mas pela criação de uma estrutura econômica que dê aos iranianos motivos concretos para defender sua continuidade. Sem empregos e desenvolvimento compartilhado, um novo acordo corre o risco de repetir os mesmos problemas do passado.
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