10 de agosto de 2026

A “Guerra às Drogas” teve mais a ver com guerra do que com drogas, por Carlos Ron

Pretexto é usado para sequestrar um presidente e confiscar o petróleo, para submeter o Brasil, para declarar o governo do México um cartel.
Reprodução

Chefe da DEA afirmou que cartéis mexicanos e governo do México são “a mesma coisa”, sem apresentar provas.
Guerra às Drogas dos EUA militarizou a América Latina, mas não reduziu produção ou consumo de drogas.
EUA usam combate às drogas para intervir em governos independentes e controlar recursos, como petróleo venezuelano.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

no Globetrotter

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A “Guerra às Drogas” teve mais a ver com guerra do que com drogas

por Carlos Ron

Em 14 de julho, em uma reunião em Orlando, o chefe da Agência Antidrogas dos EUA (DEA), Terrance Cole, declarou que os cartéis mexicanos e o governo do México são “a mesma coisa”. Ele não apresentou nenhuma evidência. A presidente Claudia Sheinbaum exigiu provas; nenhuma foi apresentada. O Gabinete de Segurança do México respondeu com números — dezenas de milhares de prisões, centenas de toneladas de narcóticos apreendidos —, enquanto o gabinete de Cole permanecia em silêncio. A acusação nunca teve a intenção de ser comprovada. Seu único objetivo era ser lançada.

Qualquer pessoa que tenha estudado o arco de meio século da “Guerra às Drogas” de Washington reconhece essa manobra instantaneamente. A pesquisa Adictos al Imperialismo, produzida pelo Instituto Tricontinental em conjunto com centros de pesquisa parceiros em toda a América Latina, documenta o padrão com precisão: o rótulo de “narcoestado” não é uma constatação, mas uma arma, direcionada com notável consistência a governos que afirmam sua soberania e, com igual consistência, omitida em relação a governos que se submetem. Declarar que um Estado é indistinguível de um cartel é a pré-condição para tratá-lo como alvo. Quando a Casa Branca afirmou, no início de 2025, que os traficantes mexicanos mantinham uma “aliança intolerável” com o governo do México, e quando Cole agora eleva isso ao nível de identidade — governo e cartel como uma única estrutura —, estão sendo lançadas as bases, publicamente, para uma intervenção contra um vizinho soberano governado por um partido que Washington não consegue controlar.

Consideremos, em primeiro lugar, o que 50 anos dessa “guerra” de fato produziram. A própria liderança da DEA relatou, em maio de 2024, que somente os cartéis de Sinaloa e Jalisco mantêm associados e facilitadores em todos os 50 estados dos EUA. Após o Plano Colômbia — o maior programa de combate às drogas da história, que consumiu bem mais de dez bilhões de dólares americanos —, a produção potencial de cocaína da Colômbia aumentou de 1.053 toneladas em 2016 para 1.738 toneladas em 2022, acompanhada por uma área recorde plantada com coca. Entre 2001 e 2024, Washington canalizou mais de 20 bilhões de dólares em “assistência antinarcóticos” para a América Latina e o Caribe — três quartos desse montante por meio do Pentágono. Esse último número é revelador: este nunca foi um programa de saúde pública que fracassou. Trata-se, ao contrário, de um programa de assistência militar que teve sucesso — na militarização do hemisfério, na inserção de agências e tropas americanas na segurança interna de Estados nominalmente soberanos e na criminalização do campesinato, enquanto os lucros eram lavados em direção ao norte.

A Venezuela é o caso definitivo. Em março de 2020, o procurador-geral William Barr exibiu cartazes de “procurado” com o rosto do presidente Nicolás Maduro, oferecendo 15 milhões de dólares pela cabeça de um chefe de Estado e acusando-o de ser líder de um “Cartel de los Soles” que analistas sérios nunca conseguiram localizar, exceto nas acusações dos EUA. As provas foram reunidas pela própria DEA por meio da Operação Money Badger, uma infiltração clandestina na Venezuela conduzida, segundo os próprios memorandos internos da agência, unilateralmente e sem notificar as autoridades venezuelanas — ou seja, ilegalmente. Essas acusações forjadas serviram de pretexto para o ataque a Caracas em janeiro de 2026 e o sequestro de um presidente em exercício.

E o que se seguiu ao sequestro? Nem um grama a menos de cocaína chegou às ruas dos Estados Unidos — os próprios dados da ONU mostram que a Venezuela nunca foi uma rota significativa de produção ou trânsito em comparação com o corredor do Pacífico, que perpassa os aliados mais próximos de Washington. O que se seguiu, em vez disso, foi a questão do petróleo. Em poucos dias, a Casa Branca anunciou que a Venezuela entregaria de 30 a 50 milhões de barris de petróleo bruto, comercializados por autoridades americanas, com as receitas depositadas em contas controladas pelos EUA. Novas licenças do Tesouro abriram os campos venezuelanos para a Chevron, a ExxonMobil, a BP e a Shell. O próprio Trump dispensou o pretexto usado para a intervenção, prometendo que as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos entrariam no país, gastariam bilhões e começariam a extrair das maiores reservas comprovadas do planeta. Executivos foram recebidos na Casa Branca enquanto o verdadeiro dividendo da operação “antidrogas” era repartido. Raramente um império confessou seus motivos tão prontamente.

O Brasil aparece com o mesmo instrumento em sua forma jurídica. Em maio, Washington designou o Comando Vermelho e o PCC como “organizações terroristas estrangeiras”, colocando as gangues criminosas brasileiras na mesma categoria jurídica que o Hamas; em julho, seguiram-se as sanções do Tesouro. O Brasil não solicitou essa “ajuda”. As designações estendem unilateralmente a lei antiterrorismo dos EUA à economia brasileira — qualquer banco, empresa ou cidadão com vínculo indireto agora corre o risco de ser processado nos EUA — e elas chegam na mesma época que tarifas punitivas e sanções contra um ministro do Supremo Tribunal Federal, todas voltadas contra um governo progressista que ousou julgar um ex-presidente envolvido em um golpe e aprofundar laços com o BRICS. A “luta contra o crime organizado” funciona aqui como uma apropriação jurisdicional contra a maior economia da América do Sul.

Agora compare essa severidade com a atitude de Washington em relação aos seus amigos. Juan Orlando Hernández, presidente de Honduras de 2014 a 2022, foi condenado por um júri federal dos EUA por conspirar para importar centenas de toneladas de cocaína — um homem que, segundo os promotores, teria recebido propinas do próprio traficante mexicano El Chapo — e sentenciado a 45 anos. Em 1º de dezembro de 2025, Trump concedeu a ele um perdão total, libertando-o ao mesmo tempo em que endossava o partido de Hernández nas eleições hondurenhas e rotulava a esquerda hondurenha de “narcocomunistas”. O ponto culminante do processo judicial mais ambicioso contra o narcotráfico na história do Departamento de Justiça dos EUA foi demolido da noite para o dia, por conveniência eleitoral. No Equador, entretanto, Daniel Noboa — cujo “Plano Equador” resultou em estados de exceção, imunidade para militares dos EUA, uma aliança mercenária com Erik Prince, da empresa de mercenários Blackwater, e exportações recordes de cocaína pelos portos do país, em meio a persistentes alegações de cumplicidade oficial com o tráfico e de fraude eleitoral — é acolhido como o parceiro modelo de Washington, apesar de acontecimentos preocupantes, como o assassinato, em 14 de junho, do promotor que investigava as execuções extrajudiciais de pescadores equatorianos pelas forças americanas. A lição não poderia ser mais clara: o tráfico é perdoável, até mesmo justificável, em um aliado. A soberania é o único crime imperdoável.

Esse é o padrão, e ele se mantém ao longo de um século de casos que a pesquisa Adictos al Imperialismo traça: a Bolívia e a Venezuela expulsaram a DEA por seu papel em tentativas de golpe e prontamente se tornaram “narcoestados”; Honduras, sob o comando de um traficante, e o Equador, sob o comando de um herdeiro complacente, permaneceram “parceiros em segurança”. A intensidade da acusação acompanha o nível de independência de um governo, nunca sua relação com as drogas.

Por todos os indicadores que ela mesma estabeleceu — produção, consumo, poder dos cartéis, mortes —, a Guerra às Drogas dos EUA é um fracasso de proporções históricas, e seus arquitetos sabem disso: o consumo cresceu, a produção aumentou e os cartéis operam em todos os estados dos EUA, financiados por instituições financeiras americanas e armados por fabricantes de armas dos EUA. Mas, a julgar por sua função real, ela tem sido um sucesso de 50 anos: um pretexto permanente e elástico para vigilância, sanções, guerra jurídica, instalação de bases militares e, agora, invasão. Hoje, o pretexto está sendo utilizado de forma mais descarada do que nunca — para sequestrar um presidente e confiscar o petróleo de seu país, para submeter a economia do Brasil à legislação antiterrorismo, para declarar o governo eleito do México um cartel. Uma guerra séria contra a economia das drogas começaria em Washington, em Wall Street e nas lojas de armas do sul dos EUA. O que a América Latina enfrenta, em vez disso, é uma guerra contra seu direito de se governar — e os governos independentes da região, da Cidade do México a Brasília e Caracas, não são os acusados. Eles são as vítimas previstas.

Carlos Ron é co-coordenador do escritório da Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Ele é um ex-diplomata venezuelano.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Instituto Tricontinental

O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social é uma instituição internacional criada e dirigida por organizações populares, focada em estimular o debate intelectual em torno dos grandes dilemas do nosso tempo, promovendo o pensamento crítico e estimulando pesquisas que possam incidir na realidade com uma perspectiva emancipatória a serviço das aspirações dos povos.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados