Durante anos, a economia dos Estados Unidos foi descrita como uma economia em formato de “K”: enquanto os americanos mais ricos mantinham o consumo em ritmo elevado, as famílias de renda baixa e média enfrentavam maiores dificuldades para acompanhar esse movimento.
Agora, dados recentes de bancos indicam que essa distância está diminuindo — e que a convergência ocorre principalmente porque os trabalhadores de menor renda estão ganhando mais e ampliando seus gastos.
O movimento foi destacado pelo Bank of America, que classificou a tendência como uma “grande convergência”. Dados de seus clientes mostram que o crescimento dos gastos e dos salários passou a convergir entre os diferentes grupos de renda desde maio.
Em julho, os gastos das famílias de menor renda cresceram 5,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, acima dos 4,9% registrados entre as famílias de renda média. O avanço também aparece nos salários: a renda após impostos dos americanos de menor renda aumentou 5,2% em julho na comparação anual. Pela primeira vez desde dezembro de 2024, o crescimento dos salários desse grupo superou o registrado entre as famílias de maior renda.
Os dados do PNC apontam na mesma direção. Segundo o banco, a diferença entre o crescimento dos gastos de seus clientes mais ricos e mais pobres caiu para apenas 0,1 ponto percentual em julho. No ano passado, o intervalo chegou a cinco pontos percentuais.
Para os bancos, parte importante dessa redução está relacionada à melhora do mercado de trabalho. Com mais pessoas de baixa renda empregadas e recebendo salários, essas famílias passam a ter maior capacidade de consumo.
Nesse sentido, a aproximação entre os diferentes grupos pode tornar o consumo mais resistente. A diferença não está desaparecendo porque os mais ricos deixaram de gastar, mas porque os grupos de renda baixa e média passaram a acompanhar melhor esse ritmo.
A mudança foi incorporada ao discurso do governo de Donald Trump. Em entrevista à CNBC, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, declarou que a “economia em K acabou” e afirmou que os trabalhadores de menor renda finalmente estão alcançando os demais grupos.
Entre outros indicadores, Bessent citou o crescimento dos salários dos trabalhadores na base da distribuição. Segundo ele, os trabalhadores do quartil inferior registraram aumento salarial anual de 5,5%, enquanto o avanço entre os trabalhadores do quartil superior foi três vezes menor.
O secretário também atribuiu parte da melhora às medidas tributárias do governo Trump, mencionando políticas como a isenção de impostos sobre gorjetas e horas extras, benefícios tributários para idosos que recebem a Previdência Social e a dedução de juros de empréstimos para automóveis.
Bessent argumentou ainda que a melhora dos salários reais pode ajudar a enfrentar o problema de acessibilidade econômica deixado pelo forte aumento do nível de preços nos últimos anos. Para ele, além de desacelerar a inflação, a recuperação do poder de compra dos trabalhadores é fundamental para reduzir a pressão sobre as famílias.
Os dados, porém, recomendam cautela com a conclusão de que a desigualdade econômica americana teria sido superada. O próprio levantamento do Bank of America mostra que os 5% mais ricos continuam apresentando crescimento dos gastos superior ao das demais faixas de renda, mesmo com uma desaceleração do crescimento de seus salários.
Além disso, a percepção dos americanos sobre a economia ainda reflete essa diferença. A confiança econômica dos consumidores de menor renda melhorou, mas permanece 12 pontos abaixo da registrada entre os grupos de renda mais elevada, segundo os dados mais recentes da Universidade de Michigan.
Deixe um comentário