Por que devemos votar em Lula?
por Paulo Kliass
Mais uma vez em nossa História, a população vai ser chamada às urnas para escolher o “menos pior” dentre os candidatos à Presidência da República. Para o pleito que se avizinha, não se trata apenas de optar por Lula pelo fato de ele ser muito mais bem preparado do que o filho de Jair Bolsonaro para exercer o cargo. A exemplo do que ocorreu em 2018 e 2022, escolha se dará novamente entre civilização e barbárie. Estamos diante de um sério risco de um novo retrocesso político-institucional, que pode abalar ainda mais a nossa frágil tessitura democrática. O bolsonarismo já deu inúmeras provas de que não tem nenhum pudor em romper as bases de nossa estrutura republicana para se perpetuar no poder e aprofundar o processo de avanço do autoritarismo.
Infelizmente, a campanha por um quarto mandato de Lula não está conseguindo, até o presente momento, empolgar parcelas expressivas do eleitorado e mesmo da militância progressista. O afastamento que se observou, durante o quadriênio que está em vias de se encerrar, em relação às promessas de campanha em 2022 e as necessidades do País é enorme. À época, o candidato havia prometido revogar o Teto de Gastos de Temer, mas na prática apenas promoveu a sua substituição pelo Teto do Haddad, consubstanciado no Novo Arcabouço Fiscal. Lula havia prometido revogar as Reformas Trabalhista e Previdenciária do período posterior ao “golpeachment” de Dilma Roussef. No entanto, ele nada fez nesta direção. Pelo contrário, houve uma espécie de consolidação das péssimas condições e trabalho e de salário de forma generalizada.
Lula havia prometido reestatizar as refinarias da Petrobrás entregues por Bolsonaro ao capital privado, bem como desfazer a privatização da BR Distribuidora. No entanto, tais compromissos foram esquecidos depois de janeiro de 2023. Além disso, o fato relevante é que o terceiro mandato foi marcado por um rigor absoluto do governo às regras da austeridade fiscal. Com isso, todas as iniciativas que poderiam significar a retomada de um projeto desenvolvimentista foram abandonadas. As limitações autoimpostas pela área econômica para qualquer elevação das despesas governamentais operaram para impedir que o governo saísse da ramerrame do debate conjuntural de cumprimento ou não das metas do austericídio.
Lula para evitar o retrocesso.
Diante desse quadro agravado pela elevação ainda maior da taxa referencial de juros para o período posterior à posse de Lula, não causa surpresa as dificuldades enfrentadas pelo governo para melhorar os índices de aprovação do governo nas pesquisas de opinião pública. O comprometimento da renda das famílias de baixa renda com dívidas reduz o volume de recursos disponíveis para o consumo. Os indicadores de endividamento se mantêm em níveis recorde. Assim, ainda que a inflação esteja relativamente sob controle, a sensação da maioria da população é de um descontentamento com a situação geral, em especial pela incapacidade de melhorar suas condições de vida.
Apesar de todas estas dificuldades, é fundamental que as forças progressistas consigam se engajar com maior intensidade no processo eleitoral. Se também é verdade que a coordenação da campanha de Lula tem evitado abrir espaço para propagandas e eventos com maior comprometimento, o fato é que o eleitorado está muito dividido e também desiludido com a política de forma geral. Caso este descontentamento não seja compreendido e canalizado por Lula, abre-se um espaço perigoso na disputa de votos para candidaturas avulsas e de fora da política tradicional, como é o caso de Augusto Cury. Boa parte dos analistas políticos têm se manifestado no sentido de que não basta apenas Lula tentar “vender” os aspectos positivos de seu atual mandato. A população não está plenamente satisfeita com a vida e seu cotidiano difícil difere bastante dos discursos e das imagens oficiais que tentam lhe passar.
O candidato parece mais preocupado em agradar ao povo do financismo e da Faria Lima do que se dirigir às parcelas da população que ainda não definiram seu voto. Estamos a menos de um mês do primeiro turno e Lula precisa urgentemente oferecer espaço para que a campanha saia efetivamente dos espaços reduzidos das articulações por cima e ganhe a empolgação da população nas ruas e nas redes. Sempre se disse que o PT era um partido de chegada. Pois está mais do que na hora de fazer valer esse bordão. Mas para que a militância se envolva de fato na luta cotidiana pela reeleição de Lula, a coordenação tem de ser convencida de tal importância.
Lula deve mudar a campanha para empolgar a militância.
Ele tem colecionado uma sucessão de oportunidades perdidas desde o início de seu terceiro mandato. Talvez seja este momento de uma guinada no rumo da campanha. Por exemplo, tocando no tema do salário-mínimo e oferecendo uma proposta para 2027 superior ao que lhe foi sugerido pelo Ministro da Fazenda. Durigan propôs apenas R$ 1.741, valor claramente insuficiente para a sobrevida mensal de uma família nas condições atuais. O substituto de Haddad se mantém sempre preocupado em restringir direitos do povo para atender aos rigores do arcabouço fiscal, mas Lula poderia anunciar uma novidade a esse respeito.
Por outro lado, o Presidente da República deveria se manifestar respeito das apostas esportivas, as bets. Lula já declarou, em mais de uma oportunidade, ser contrário a esse tipo de vício, que se tornou rapidamente uma epidemia mortal em nosso País. Um posicionamento claro nesta direção teria o apoio da maioria da população e embaralharia o campo de seus opositores. É sabido que as bases das igrejas evangélicas, bem como suas principais lideranças, são também favoráveis à proibição desta jogatina. E a grande maioria das famílias está seriamente atolada neste tipo de endividamento.
Enfim, vivemos um momento em que não se pode permitir nenhum tipo de vacilação política por parte do campo progressista. Mesmo aqueles militantes e influenciadores que não se identificam plenamente como “lulistas” precisam se manifestar contra o sério risco do retrocesso político representado pela candidatura do filho de Bolsonaro. Ainda que consideremos este terceiro mandato como insuficiente no que se refere às expectativas geradas e às necessidades do Brasil, nos domingos 4 e 25 de outubro não existe alternativa responsável em termos do futuro do País que não seja votarmos em Lula. Ficar em casa, votar em branco, votar nulo ou escolher alguma outra candidatura mais à esquerda no espectro político-ideológico só faz crescer o risco da vitória da extrema direita.
Em outubro a única opção é Lula.
O momento é também de votar em candidatos mais comprometidos com as mudanças efetivamente progressistas necessárias para mandatos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. É fundamental que tenhamos uma bancada autêntica de esquerda no Congresso Nacional para ajudar Lula a implementar um programa que enfrente os verdadeiros dilemas da desigualdade, da concentração de renda, da desindustrialização, do arcabouço fiscal, dos juros elevados, dentre tantos outros assuntos. Mas para que esse sonho possa ser transformado aos poucos em realidade, é essencial derrotar o extremismo da direita e recolocar Lula para mais 4 anos à frente do Palácio do Planalto.
Quem se posiciona mais à esquerda no espectro político-ideológico e pretende contribuir para as mudanças que nos aproximem de um futuro sem retrocessos não pode ter dúvida quanto ao voto neste momento crucial da vida política nacional. Nas eleições de outubro devemos eleger Lula!
Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
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