10 de setembro de 2026

A regulação do mercado financeiro é uma questão de segurança

O sistema financeiro não é uma abstração de planilhas, mas um campo que afeta diretamente a sobrevivência das famílias brasileiras.
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O desaparecimento da fintech Naskar expôs R$900 milhões perdidos e a fragilidade do sistema financeiro brasileiro.
Durante a gestão de Campos Neto, a desregulação facilitou a entrada do crime organizado no mercado financeiro.
Em 2025, o Banco Central endureceu regras para fintechs, incluindo fim de bancos de fachada e maior segurança no Pix.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Reportagem da série Dossiê Fintechs, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional

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O “sumiço” da fintech Naskar Gestão de Ativos trouxe à tona uma realidade que muitos preferem ignorar: o sistema financeiro não é uma abstração de planilhas, mas um campo que afeta diretamente a sobrevivência das famílias brasileiras. Quase três mil investidores vivem o desespero de ver R$900 milhões simplesmente desaparecerem em uma estrutura que se revelou um castelo de cartas.

Segundo o Sindicato dos Bancários de São Paulo, esses casos revelam uma fragilidade alarmante na regulação, onde fintechs e fundos de investimento deixam de ser ferramentas de inovação para se tornarem instrumentos de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio por organizações criminosas.

Como a desregulação favoreceu o crime organizado

Durante a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central (2019-2025), o Brasil assistiu a um afrouxamento deliberado das normas de controle. Sob o pretexto de “incentivar a concorrência”, permitiu-se a proliferação das “fintechs de coworking” — empresas que, sem sedes físicas reais ou estruturas de governança, passaram a operar como quase-bancos.

Essa política transformou o mercado em um ambiente de anarquia. Ao facilitar a entrada de atores sem lastro, o regulador institucionalizou o que Luis Nassif define como a “era das pirâmides e golpes”. Em entrevista ao Spbancarios (site do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região), Nassif foi categórico: “Campos Neto escancarou as portas do mercado financeiro para o crime organizado”.

O ponto mais crítico, destaca investigação da Operação Carbono Oculto, é que o dinheiro do crime não apenas “entrou” no sistema; ele se tornou o combustível vital para a sobrevivência dessas fintechs. Após um período inicial de crescimento predatório baseado em juros extorsivos, essas instituições atingiram seu limite e precisaram do capital ilícito como fonte de solvência para não colapsar.

Lavagem de dinheiro e fundos opacos

Para o cidadão comum, as fraudes parecem complexas, mas a lógica central é a “circularidade de recursos”. Trata-se de um jogo de espelhos para criar o que Nassif chama de “capital imaginário”.

Um exemplo prático envolve o Banco Master e fundos com participação do PCC (como o REAG): o Banco empresta milhões para o Fundo A, que investe no Fundo B, que por sua vez compra ações do próprio Banco. No papel, a instituição parece sólida e capitalizada para o Banco Central, mas o dinheiro nunca saiu do lugar; foi apenas usado para simular uma saúde financeira inexistente.

Os três problemas principais dessa dinâmica são:

  • Falta de transparência nos fundos: A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) enxerga apenas o “espelho” individual de cada fundo, falhando em rastrear o trânsito do dinheiro em estruturas em cascata onde um fundo alimenta o outro.
  • Uso de identidades falsas: A desregulação permitiu que criminosos utilizassem “laranjas” sem que as instituições fossem obrigadas a realizar auditorias forenses profundas.
  • Transferência de responsabilidade: O BC desonerou os bancos da obrigação de investigar a origem dos fundos, jogando a responsabilidade para o cliente. Na prática, criou-se um “porto seguro” para o crime, já que nenhum membro de facção autodeclara a origem ilícita de seu capital. Posteriormente, corrigiu esse excesso.

O freio de arrumação do Banco Central

Após anos de leniência, o ano de 2025 marcou o que Luis Nassif descreveu como um “Big Bang” regulatório em sua coluna no GGN. Trata-se de uma resposta necessária à balbúrdia instalada na gestão anterior, e três medidas em especial merecem atenção:

  • Fim do banco de fachada: A Resolução 494/2025 encurtou drasticamente o prazo para instituições sem autorização definitiva encerrarem atividades, fixando o limite para maio de 2026. Além disso, a Resolução 495 proibiu o uso de endereços de coworking, exigindo sedes físicas e governança real.
  • O sarrafo subiu para os PSTIs: Os Prestadores de Serviço de Tecnologia (empresas que vendem o suporte tecnológico para transações financeiras) agora enfrentam exigências rigorosas. A Resolução 498/2025 elevou o capital mínimo — a garantia em dinheiro que a empresa deve manter guardada para não quebrar — de R 100 mil para **R 15 milhões**.
  • Segurança no Pix: A Resolução 506 introduziu o “bloqueio de chave”, permitindo asfixiar contas laranjas e proibir que fraudadores abram novas contas por até cinco anos.

Propostas para um Novo Marco Regulatório

Para que o sistema financeiro deixe de ser um parque de diversões para golpistas, é urgente adotar as propostas de reforma defendidas por Nassif e pelo Contraf.

Ponto ChaveSituação AtualA Mudança Necessária
1. Integração de DadosBC vê bancos e CVM vê fundos; grupos operam como “empresas independentes” para esconder riscos.Unificação total das bases de dados (BC + CVM) para fiscalizar o grupo econômico por inteiro.
2. Capital MínimoInstituições (SCDs e SEPs) operam com pouco colchão de segurança e alto risco sistêmico.Exigência de capital proporcional ao risco e provisões obrigatórias contra calotes (“colchão de segurança”).
3. Investigação de DonosFacilidade de entrada para controladores e “beneficiários ocultos” sem histórico verificado.Auditoria forense obrigatória de antecedentes e registro público de quem é o dono real (beneficiário final).
4. Punição PessoalInstituições quebram, mas dirigentes saem impunes ou pagam multas leves através de TACs.Responsabilidade civil direta, multas pessoais pesadas e inabilitação permanente de dirigentes.
5. Direitos TrabalhistasTrabalhadores de fintechs têm direitos precarizados, embora operem como instituições financeiras.Enquadramento obrigatório como bancários para todos que exercem atividade de captação e empréstimo.

A Democracia que para na porta dos Bancos

A regulação financeira não pode ser um feudo de técnicos. Durante décadas, os “cabeças de planilha” usaram uma linguagem impenetrável como arma para afastar o cidadão comum de decisões que definem desde o preço do arroz até a segurança das economias de uma vida.

Enfrentamos ainda a praga da “porta giratória”: reguladores que hoje afrouxam normas para o mercado visando um cargo milionário em bancos privados amanhã. Essa promiscuidade paralisa a fiscalização e asfixia a soberania nacional. Precisamos entender, de uma vez por todas, que a economia deve servir à sociedade, e não o contrário.

Embora a democracia brasileira tenha avançado em muitas frentes, ela “parou exatamente onde o poder financeiro começa”. E retomar esse controle não é apenas uma medida econômica, é um imperativo para a sobrevivência democrática do Brasil.

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Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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