Procurando o gado do Senador Marcos Rogério, por Salvio Kotter
Candidato do PL ao governo de Rondônia, o senador Marcos Rogério atravessa a campanha aos tropeções. As saias-justas chegam de cantos diferentes. Nenhuma o aponta como alvo formal, é certo, mas todas batem na mesma porteira.
A primeira é antiga e ainda ronda. Em setembro de 2021, a Polícia Federal prendeu em Porto Velho um assessor do gabinete do senador durante a Operação Alcance, que mirava uma rota de cocaína entre Rondônia e o Ceará. Rogério, então no DEM, exonerou o funcionário e disse ter sido surpreendido. Ninguém o acusou de nada. A digital, porém, ficou. Proximidade também contamina.
A segunda desabou na última quarta-feira, 9 de setembro. De madrugada, a PF cumpriu mandados em Porto Velho, Ji-Paraná e Nova Mamoré na Operação Dreno, que apura apropriação e desvio de dinheiro do Fundo Eleitoral de 2024. Um dos alvos é Marcélio Brasileiro, prefeito de Nova Mamoré, presidente da Associação Rondoniense de Municípios (AROM) e coordenador-geral da campanha de Rogério ao governo. Peça central da engrenagem.
As contas publicadas pela imprensa rondoniense dispensam adjetivo. Para disputar a reeleição em 2024, Marcélio recebeu R$ 303 mil de dinheiro público e repassou R$ 160 mil a um único escritório de contabilidade. Mais da metade do caixa. O mesmo escritório faturou R$ 564 mil do próprio PL, partido que Marcos Rogério preside em Rondônia. Outros candidatos a prefeito pela legenda, segundo o site Rondoniagora, receberam verba do fundão da direção estadual e transferiram valores idênticos ao escritório, sob a rubrica de assessoria contábil.
O escritório tem sobrenome. Anderson Cavalcante Oliveira, um dos sócios, ocupa a Secretaria de Fazenda de Ji-Paraná. O irmão, Sharleston Cavalcante de Oliveira, representa o PL na Justiça Eleitoral e foi assessor parlamentar de Marcos Rogério até agosto, com salário de R$ 33,5 mil pago pelo Senado. A imprensa local o descreve como braço direito e homem das finanças do senador. Os dois irmãos aparecem entre os alvos da operação. Os agentes apreenderam cerca de R$ 56 mil em dinheiro vivo.
O PL respondeu em nota que a contratação de contabilidade para a prestação de contas é “procedimento comum, previsto e exigido pela legislação eleitoral”. É verdade. A lei exige o contador. Não manda entregar a ele metade do capital que ele contabiliza. No mercado, o teto usual para esse serviço gira em torno de 5% da movimentação. Em Nova Mamoré, bateu 53%.
A assessoria do senador escolheu outra trincheira: “O objeto da apuração é a conduta de pessoas físicas e de prestador de serviços contratado. A atuação institucional do partido não está em causa.” Talvez. Uma dessas pessoas físicas, até o mês passado, recebia salário no gabinete dele.
Para onde correu o dinheiro? Lavagem para abastecer operações eleitorais por fora? Aproveitamento pessoal? A PF, que fala oficialmente em desvio de recursos do fundo, ainda não disse quanto escorreu pelo ralo. O nome da operação dá uma pista.
A terceira saia-justa corre nas redes sociais e tem forma de papel. É um cheque de R$ 1 milhão que Eduardo Almeida Ferreira, então gerente de um frigorífico em Ji-Paraná, teria emitido em novembro de 2021 em favor do senador.
Cópia do cheque:

Gente próxima de Marcos Rogério tem a explicação na ponta da língua: o dinheiro pagou bois do senador, numa venda legítima. Pode ser. Na declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral em agosto, ele lista R$ 1 milhão em cotas da Agropecuária MRB Ltda. O próprio senador, porém, nunca tratou do cheque em público.
Aí mora o nó. Rondônia cria um dos maiores rebanhos bovinos do país, e ali boi não sai do pasto sem papel. Toda movimentação de gado exige a Guia de Trânsito Animal, a GTA, que a Idaron, agência estadual de defesa sanitária, emite com os dados de quem vende e de quem compra. Venda para abate pede ainda nota fiscal. Se o gado é da empresa, a guia sai em nome dela. Se é do senador, sai em nome dele. Em qualquer caso, sai.
Uma venda republicana cabe numa pasta de documentos. Mostrá-la é do interesse do próprio candidato. Do eleitor, mais ainda. O silêncio sobre o gado, até aqui, só esquenta o caldeirão e já provoca calafrios na base aliada.
Pergunto, então, em voz alta, o que os bastidores de Rondônia cochicham: cadê as guias da Idaron sobre o gado do senador?
Este espaço segue aberto a Marcos Rogério para os esclarecimentos que quiser prestar.
Salvio Kotter é escritor e editor da Kotter Editorial.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário