11 de setembro de 2026

Procurando o gado do Senador Marcos Rogério, por Salvio Kotter

Pergunto, então, em voz alta, o que os bastidores de Rondônia cochicham: cadê as guias da Idaron sobre o gado do senador?
Reprodução

Senador Marcos Rogério enfrenta crise na campanha ao governo de Rondônia com investigações da PF em sua base.
Operação Dreno mira desvio de recursos do Fundo Eleitoral, envolvendo coordenador da campanha e sócios ligados ao PL.
Cheque de R$ 1 milhão em nome do senador levanta questionamentos sobre documentação de venda de gado em Rondônia.

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Procurando o gado do Senador Marcos Rogério, por Salvio Kotter

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Candidato do PL ao governo de Rondônia, o senador Marcos Rogério atravessa a campanha aos tropeções. As saias-justas chegam de cantos diferentes. Nenhuma o aponta como alvo formal, é certo, mas todas batem na mesma porteira.

A primeira é antiga e ainda ronda. Em setembro de 2021, a Polícia Federal prendeu em Porto Velho um assessor do gabinete do senador durante a Operação Alcance, que mirava uma rota de cocaína entre Rondônia e o Ceará. Rogério, então no DEM, exonerou o funcionário e disse ter sido surpreendido. Ninguém o acusou de nada. A digital, porém, ficou. Proximidade também contamina.

A segunda desabou na última quarta-feira, 9 de setembro. De madrugada, a PF cumpriu mandados em Porto Velho, Ji-Paraná e Nova Mamoré na Operação Dreno, que apura apropriação e desvio de dinheiro do Fundo Eleitoral de 2024. Um dos alvos é Marcélio Brasileiro, prefeito de Nova Mamoré, presidente da Associação Rondoniense de Municípios (AROM) e coordenador-geral da campanha de Rogério ao governo. Peça central da engrenagem.

As contas publicadas pela imprensa rondoniense dispensam adjetivo. Para disputar a reeleição em 2024, Marcélio recebeu R$ 303 mil de dinheiro público e repassou R$ 160 mil a um único escritório de contabilidade. Mais da metade do caixa. O mesmo escritório faturou R$ 564 mil do próprio PL, partido que Marcos Rogério preside em Rondônia. Outros candidatos a prefeito pela legenda, segundo o site Rondoniagora, receberam verba do fundão da direção estadual e transferiram valores idênticos ao escritório, sob a rubrica de assessoria contábil.

O escritório tem sobrenome. Anderson Cavalcante Oliveira, um dos sócios, ocupa a Secretaria de Fazenda de Ji-Paraná. O irmão, Sharleston Cavalcante de Oliveira, representa o PL na Justiça Eleitoral e foi assessor parlamentar de Marcos Rogério até agosto, com salário de R$ 33,5 mil pago pelo Senado. A imprensa local o descreve como braço direito e homem das finanças do senador. Os dois irmãos aparecem entre os alvos da operação. Os agentes apreenderam cerca de R$ 56 mil em dinheiro vivo.

O PL respondeu em nota que a contratação de contabilidade para a prestação de contas é “procedimento comum, previsto e exigido pela legislação eleitoral”. É verdade. A lei exige o contador. Não manda entregar a ele metade do capital que ele contabiliza. No mercado, o teto usual para esse serviço gira em torno de 5% da movimentação. Em Nova Mamoré, bateu 53%.

A assessoria do senador escolheu outra trincheira: “O objeto da apuração é a conduta de pessoas físicas e de prestador de serviços contratado. A atuação institucional do partido não está em causa.” Talvez. Uma dessas pessoas físicas, até o mês passado, recebia salário no gabinete dele.

Para onde correu o dinheiro? Lavagem para abastecer operações eleitorais por fora? Aproveitamento pessoal? A PF, que fala oficialmente em desvio de recursos do fundo, ainda não disse quanto escorreu pelo ralo. O nome da operação dá uma pista.

A terceira saia-justa corre nas redes sociais e tem forma de papel. É um cheque de R$ 1 milhão que Eduardo Almeida Ferreira, então gerente de um frigorífico em Ji-Paraná, teria emitido em novembro de 2021 em favor do senador.

Cópia do cheque:

Gente próxima de Marcos Rogério tem a explicação na ponta da língua: o dinheiro pagou bois do senador, numa venda legítima. Pode ser. Na declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral em agosto, ele lista R$ 1 milhão em cotas da Agropecuária MRB Ltda. O próprio senador, porém, nunca tratou do cheque em público.

Aí mora o nó. Rondônia cria um dos maiores rebanhos bovinos do país, e ali boi não sai do pasto sem papel. Toda movimentação de gado exige a Guia de Trânsito Animal, a GTA, que a Idaron, agência estadual de defesa sanitária, emite com os dados de quem vende e de quem compra. Venda para abate pede ainda nota fiscal. Se o gado é da empresa, a guia sai em nome dela. Se é do senador, sai em nome dele. Em qualquer caso, sai.

Uma venda republicana cabe numa pasta de documentos. Mostrá-la é do interesse do próprio candidato. Do eleitor, mais ainda. O silêncio sobre o gado, até aqui, só esquenta o caldeirão e já provoca calafrios na base aliada.

Pergunto, então, em voz alta, o que os bastidores de Rondônia cochicham: cadê as guias da Idaron sobre o gado do senador?

Este espaço segue aberto a Marcos Rogério para os esclarecimentos que quiser prestar.

Salvio Kotter é escritor e editor da Kotter Editorial.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Salvio Kotter

Salvio Kotter passou por formações bem variadas, como Administração de Empresas, Música Erudita, Grego Antigo e Latim. Publicou vários livros, de ficção e não-ficção e é editor da Kotter Editorial, especializada em literatura, filosofia e política.

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