24 de setembro de 2026

Xadrez regional GGN: O moralismo seletivo que tolera escândalos e isola a esquerda no Centro-Oeste

Por outro lado, Goiás vai na contramão ao rejeitar tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro para 2026

Na segunda reportagem da série do GGN sobre as dinâmicas regionais das eleições de 2026, o foco se volta para o Centro-Oeste, que consolida-se como um dos bastiões mais homogêneos e resilientes da direita e da extrema-direita no país.

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Em entrevista à TV GGN nesta quarta-feira [confira abaixo], o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Lúcio Rennó, analisou as particularidades locais, o peso do agronegócio, a decadência e ressurreição de velhos caciques e a forte rejeição enfrentada pela esquerda na região. Além disso, um destaque para Goiás, que não opta por Lula nem Flávio Bolsonaro em 2026.

A força do agro e o domínio conservador na região

Com uma estrutura socioeconômica profundamente vinculada ao agronegócio e marcada por municípios de pequeno e médio porte, os estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul mantêm um padrão eleitoral fortemente inclinado à direita.

Se em momentos passados a região abrigou quadros de uma direita mais moderada, como Kátia Abreu e Simone Tebet, o avanço do bolsonarismo a partir de 2018 reconfigurou a paisagem local, forçando antigos e novos atores a se alinharem a esse campo.

“A região tem uma tradição de um voto mais conservador, mais à direita, muito baseado no agro e num conjunto de cidades de pequeno e médio porte. Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul têm uma grande chance de eleger ou reeleger candidaturas do campo mais à direita.” — Lúcio Rennó

Mesmo figuras que contam com maior autonomia política e administrativa acabaram aderindo ao ecossistema bolsonarista. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), é um exemplo dessa síntese entre o perfil empresarial do agro e a coordenação de máquinas estaduais fortes.

“Caiado vem dessa base agro muito forte, mas tem uma postura mais moderna em várias instâncias de pensar planejamento e economia, que transcendem esse conservadorismo mais duro e cru do bolsonarismo.”

Da rejeição à esquerda à tolerância com escândalos

A fotografia das pesquisas eleitorais nos estados do Centro-Oeste revela um cenário praticamente vedado a candidaturas viáveis do campo progressista para os governos estaduais e o Senado.

  • Goiás: O candidato do governo, Daniel Vilela (MDB), que assumiu em março quando Caiado renunciou, lidera a disputa ao Palácio das Esmeraldas, segundo pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta terça (22). Já o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), em meio a pesquisas oscilantes, disputa espaço com o senador Wilder Morais (PL), evidenciando a pressão bolsonarista sobre o antigo tucanato. Para o Senado, a ex-primeira-dama Gracinha Caiado (União Brasil) desponta na frente (23%), com Gustavo Gayer atrás, com 20%.
  • Mato Grosso: O cenário aponta para uma consolidação da direita, com Otaviano Pivetta (Republicanos), com 49,1%, e Wellington Fagundes (PL), com 37,4% à frente na disputa pelo governo estadual, sem viabilidade de candidaturas de esquerda, segundo levantamento da Paraná Pesquisas divulgado na última sexta (18), variando entre 49% e 64% dos votos válidos.
  • Mato Grosso do Sul: O governador Eduardo Riedel (PP) caminha bem posicionado para a reeleição, embora quadros do PT como Fábio Trad voltem a figurar nas sondagens locais. Já as duas vagas ao Senado são atualmente lideradas por nomes do PL, Reinaldo Azambuja (PL) e Capitão Contar (PL). A senadora Soraya Thronicke (PSB), que realizou a transição para o centro democrático, enfrenta forte resistência das urnas locais.

Distrito Federal e a provável recomposição política

O Distrito Federal, por sua vez, distancia-se do perfil predominantemente rural e agrário do Centro-Oeste, mas preserva traços marcantes de um conservadorismo essencialmente urbano, impulsionado por sua dinâmica administrativa e pela forte presença de setores militares e evangélicos.

A derrocada do governador Ibaneis Rocha (MDB), em março deste ano, em meio ao escândalo financeiro do Caso Master abriu caminho para a consolidação de Celina Leão (PP), que assumiu o comando do Executivo local. Surpreendentemente, as investigações que atingiram o ex-titular não afetaram a popularidade da governadora, que lidera as pesquisas com margem confortável.

“O escândalo ceifou da política o próprio Ibaneis, que era dado como eleito para o Senado. Mas o que surpreende é a resiliência de Celina Leão, que é teflon para isso. O eleitorado do DF releva muito do envolvimento em escândalos, o que remete a uma tradição assistencialista e clientelista do rouba, mas faz”, explica Lucio Rennó.

Paralelamente, a disputa local assiste à movimentação de figuras históricas de diferentes matizes ideológicos. No campo da direita conservadora, o ex-governador José Roberto Arruda (PSD) tentava ensaiar seu retorno político, mas teve sua candidatura definitivamente barrada nesta quinta-feira (24) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por outro lado, no campo progressista, ex-governadores como Cristóvam Buarque (PSB) e Rodrigo Rollemberg (PSB) concorrem a cadeiras na Câmara dos Deputados.

Presidência e o peso da polarização

No plano nacional, o cientista explica que o Centro-Oeste projeta-se como um ambiente adverso para o governo federal. As intenções de voto no pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) superam as do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em praticamente todos os estados da região, impulsionadas por altas taxas de rejeição ao atual mandatário.

Contudo, a grande exceção e surpresa no desenho presidencial regional fica por conta do estado de Goiás, onde a liderança local prevalece sobre a polarização nacional clássica, com a preferência pelo candidato Ronaldo Caiado (PSD).

“É o único estado, talvez do Brasil, em que nenhum dos dois ganha, nem Flávio, nem Lula. A intenção de voto do Lula na região está menor do que a sua rejeição. Esse é o efeito cristalizado da polarização em um país dividido, num ambiente onde a rejeição ao adversário sobrepõe a própria pauta propositiva.” — Lúcio Rennó

Assista à entrevista completa pelo link abaixo:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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