28 de setembro de 2026

À Porta de Gilead: Nossa Senhora Aparecida, a Teologia do Domínio e a Ameaça Existencial às Mulheres, por Jorge A. Neves

O ataque de evangélicos bolsonaristas ao culto mariano nos alerta sobre a ameaça existencial às mulheres representada pelo bolsonarismo.
O Conto de Aia - Divulgação

A série “O Conto de Aia” mostra uma distopia onde a Bíblia fundamenta um Estado que subordina mulheres à função reprodutiva.
A Teologia do Domínio, interpretada literalmente, propõe a influência religiosa sobre a política e a sociedade, incluindo a subordinação feminina.
Ataques evangélicos a Nossa Senhora Aparecida refletem tensões sobre o empoderamento feminino e ameaças à autonomia das mulheres no Brasil.

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À Porta de Gilead: Nossa Senhora Aparecida, a Teologia do Domínio e a Ameaça Existencial às Mulheres

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por Jorge Alexandre Neves

Minha esposa está assistindo a série “O Conto de Aia”, que a tem impressionado sobremaneira, pois lhe parece uma narrativa premonitória. A autora do romance (de 1985) que deu origem à série, Margaret Atwood, constrói uma distopia na qual uma interpretação fundamentalista da Bíblia é convertida em princípio de organização do Estado. A religião deixa de ser apenas uma dimensão da vida privada e passa a legitimar uma ordem política, jurídica e social rigidamente hierarquizada. As mulheres perdem direitos econômicos, políticos e civis e são classificadas segundo sua função reprodutiva. As Aias, em particular, são reduzidas à sua capacidade de gerar filhos para as famílias da elite. Estudos sobre o romance destacam justamente a centralidade das narrativas bíblicas na construção ideológica de Gilead (país fictício onde se passa a história) e a transformação da reprodução feminina em instrumento de poder político. O livro (como também a série) mostra como a partir de uma interpretação bastante peculiar da Bíblia forma-se uma determinada concepção de família, que é apresentada não apenas como uma escolha moral ou religiosa, mas como o único modelo legítimo de organização social, levando a que outras formas de existência possam ser desqualificadas. Nesse processo, a autonomia feminina é enxergada como ameaça à família, à maternidade ou à ordem moral. O controle da sexualidade, da reprodução e dos comportamentos femininos torna-se, então, uma questão política.

A narrativa do romance me levou a uma conexão imediata com a “Teologia do Domínio” e a polêmica em torno de Nossa Senhora Aparecida. Segundo a análise de João Cezar de Castro Rocha, a Teologia do Domínio, desenvolvida inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente incorporada por setores do neopentecostalismo brasileiro, constitui mais do que uma doutrina religiosa: trata-se de um projeto de intervenção e ordenamento da sociedade a partir de uma determinada interpretação literal das Escrituras. Seu fundamento encontra-se especialmente em Gênesis 1:28, na passagem em que Deus ordena ao homem e à mulher que sejam férteis, multipliquem-se, encham a Terra, submetam-na e exerçam domínio sobre ela. A interpretação dominionista transforma esse “domínio” em princípio político: os que se consideram escolhidos por Deus estariam legitimados a ocupar e orientar as diferentes esferas da vida social, incluindo a família, a educação, a cultura, os meios de comunicação, a economia e, sobretudo, a política. Para Castro Rocha, há, portanto, uma passagem decisiva da fé para um projeto de poder, qual seja, primeiro, ampliar a presença e a influência dos fiéis na sociedade, depois, utilizar essa presença para transformar as instituições políticas de acordo com os princípios da crença. É nesse sentido que ele identifica na Teologia do Domínio uma concepção teonomista, isto é, a pretensão de subordinar a ordem civil a uma determinada interpretação religiosa. O problema, em sua leitura, não é a participação de religiosos na política, perfeitamente compatível com a democracia, mas a substituição do pluralismo próprio do Estado laico pela ideia de que uma verdade religiosa particular deve tornar-se fundamento da legislação e da organização da sociedade. Castro Rocha chama atenção, ainda, para a centralidade adquirida nesse projeto por personagens e símbolos do Antigo Testamento, especialmente a figura do rei Davi, associada à conquista, à guerra e ao exercício do poder, em contraste com a mensagem de separação entre o poder espiritual e o temporal atribuída por ele ao Novo Testamento.

A conexão entre a Teologia do Domínio e O Conto de Aia pode ser estabelecida justamente a partir da transformação da religião em um projeto de ordenação política da sociedade e, adicionalmente, de subordinação feminina. No romance de Margaret Atwood, Gilead não é simplesmente uma sociedade na qual a religião possui grande influência, mas uma ordem política na qual uma interpretação fundamentalista das Escrituras é utilizada para definir a estrutura do Estado, a organização da família e a posição social de homens e mulheres. A religião fornece, simultaneamente, a justificativa moral da autoridade e a linguagem por meio da qual a subordinação absoluta das mulheres é apresentada como uma ordem natural e legítima. É nesse sentido que a Teologia do Domínio constitui uma chave interpretativa importante para a leitura do romance: em determinadas formulações, ela ultrapassa a esfera da fé individual para defender que princípios cristãos, baseados em uma interpretação fundamentalista bastante singulares da Bíblia, devem orientar e ocupar espaços centrais na organização das instituições sociais, culturais e políticas. Em Gilead, essa lógica aparece levada ao extremo distópico centrado na pretensão de submeter a sociedade a uma determinada interpretação religiosa que alcança o próprio corpo das mulheres, cuja sexualidade e capacidade reprodutiva passam a ser reguladas pelo Estado que, por sua vez, é controlado de forma absoluta pelos homens. A reprodução deixa, assim, de ser uma dimensão da autonomia individual e transforma-se em recurso político a serviço da ordem estabelecida a partir da “machosfera”. O Conto de Aia funciona, nesse sentido, como uma representação literária dos limites extremos a que pode chegar a fusão entre autoridade religiosa, poder político e submissão das mulheres.

Isso nos traz à polêmica em torno de Nossa Senhora Aparecida. Tanto na igreja católica quanto na esmagadora maioria das denominações evangélicas, em particular as neopentecostais, há elementos contraditórios relacionados ao empoderamento feminino. Nas denominações evangélicas há um curioso paradoxo (cuja base empírica está em um artigo publicado recentemente por Silvio Salej Higgins, Márcia da Silva Mazon e por mim; ver: https://scholarlypublishingcollective.org/psup/world-christianity/article-abstract/15/2/129/402082/Employability-and-Pentecostal-Communities-of?redirectedFrom=fulltext) pois há um incentivo à participação da mulher no mercado de trabalho (visto que as mulheres são maioria nas igrejas e precisam pagar o dízimo), fato que leva ao seu empoderamento, mas, ao mesmo tempo, há também uma forte pressão para que esta se submeta à autoridade dos maridos no ambiente doméstico. Esta demanda vai ao encontro do crescente movimento entre os bolsonaristas (embora seja um fenômeno internacional) pelo fim do voto feminio (ver: (3728) Influencers brasileiros contra o voto feminino: por quê? – YouTube), bem como da relativização feita por alguns de seus órgãos midiáticos com relação à violência contra a mulher e o feminicídio (uma dessas organizações, inclusive, tem feito uma campanha intensa de desqualificação da Lei Maria da Penha, buscando, entre outras coisas, cobrir de dúvidas a violência sofrida por aquela que deu nome à lei).

O catolicismo, por sua vez, também tem profundas contradições relacionadas ao papel das mulheres. Todavia, o simbolismo mariano passou, em determinados contextos, a ser reinterpretado pelas próprias mulheres como fonte de agência, autoridade e resistência, na busca de um maior empoderamento femino dentro da igreja católica. Assim, os recorrentes ataques de grupos evangélicos fundamentalistas (realidade que tornou absolutamente plausível para os católicos a polêmica que emergiu no final da última semana) ao culto mariano em geral e a Nossa Senhora Aparecida, em particular, tem, pois, um duplo objetivo: a) atingir o que é considerada uma manifestação grave de idolatria; b) atacar um culto católico que, de alguma forma, abre algum espaço para o empoderamento femino.

Portanto, entre outras coisas, a polêmica em torno do ataque de evangélicos bolsonaristas ao culto mariano deve servir para nos alertar sobre a ameaça existencial às mulheres representada pelo bolsonarismo. Espero muito que consigamos manter fechada a porta que nos separa de Gilead e toda a distopia narrada em O Conto de Aia!

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

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Jorge Alexandre Neves

Jorge Alexandre Barbosa Neves professor Titular de Sociologia da UFMG, Ph.D. pela Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA. Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin, também nos EUA, e da Universidad del Norte, na Colômbia.

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