Ignorância ou aporofobia?
por Jorge Alexandre Neves
Uma das coisas mais recorrentes para pesquisadores como eu é se sentir provocado a escrever artigos como este em defesa do Programa Bolsa Família (PBF). Mais uma vez, me lanço à mesma tarefa, motivado pela vexatória fala do apresentador Luciano Huck.
A revista Veja apressou-se a buscar economistas neoliberais para dar argumentos acadêmicos de apoio à fala do apresentador (Por que Luciano Huck está correto sobre o Bolsa Família, segundo estes economistas | VEJA). Vale ressaltar que nenhum dos trabalhos citados pelos economistas (que não foram publicados em periódicos científicos que demandam pareceres de especialistas) serve, realmente, para dar sustentação àquela afirmação equivocada e preconceituosa.
Vou focar aqui em dois aspectos diferentes sobre o equívoco da afirmação do apresentador. O primeiro deles diz respeito ao número de famílias beneficiárias do PBF e à taxa de participação no mercado de trabalho. Como mostram dados oficiais (VIS DATA 3 beta), desde o início do Governo Lula 3, o número de famílias beneficiárias do PBF sofreu leve crescimento apenas até outubro de 2023, ou seja, nos 10 primeiros meses do novo governo. A partir de novembro de 2023, o número de famílias começou a cair, passando a sofrer uma queda acelerada ao longo do ano de 2025. Neste mês de maio de 2026, o número de famílias beneficiárias é quase cinco milhões menor do que em março de 2023, uma queda relativa de quase 9%. Se emparelharmos essa série temporal com aquela da taxa de ocupação calculada pelo IBGE (PNAD Contínua: em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6% enquanto taxa de subutilização foi 14,5% | Agência de Notícias), concluímos que, de fato, há uma associação negativa, ou seja, quanto menor o número de famílias beneficiárias, maior o nível de ocupação, que ultrapassou 59% em 2025, um número recorde. Mas, correlação não é causalidade! Não foi a queda no número de beneficiários do PBF que elevou a taxa de ocupação. Na verdade, essas duas variáveis estão correlacionadas porque têm uma causa em comum, qual seja, a qualidade do mercado de trabalho para a PEA com baixa qualificação. Vejamos o que nos mostra a “Carta de Conjuntura” No. 69 do IPEA, de 13 de março último (massa salarial | Carta de Conjuntura):
“No trimestre móvel terminado em janeiro de 2026, a renda média elevou-se para R$ 3.652, estando 5,4% acima do valor registrado no mesmo trimestre do ano anterior. Com tal resultado, atinge-se o total de treze trimestres consecutivos com o crescimento interanual da renda acima de 3%.” (Grifo meu.)
Ou seja, desde o início do Governo Lula 3, a renda média tem crescido acima de 3% todos os anos. Se a leitora ou o leitor clicar no link de acesso ao texto completo, verá que o rendimento médio dos autônomos e dos empregados informais (sem carteira) – categorias que concentram a maior parte da PEA com baixa qualificação – cresceu ainda mais rápido do que dos empregados formais (com carteira). Ou seja, as trabalhadoras e os trabalhadores menos qualificados têm experimentado crescimento de seu rendimento ainda maior do que os 3% da média para toda a PEA ocupada (ainda assim, muitos têm deixado o PBF para pegar empregos formais, com carteira assinada; em 2025, foram mais de dois milhões de casos). É isso que tem causado tanto a elevação do nível de ocupação quanto a queda no número de famílias beneficiárias do PBF.
A partir daqui, me debruço sobre o segundo aspecto, que diz respeito aos efeitos intergeracionais meritórios do PBF, em particular no que diz respeito à formação de capital humano. Como já ressaltei antes neste espaço que ocupo (Universidade para quem e para que, por Jorge Alexandre Neves – Jornal GGN), a elite econômica brasileira e os economistas neoliberais são tão reacionários que fazem questão de ignorar solenemente uma das teorias liberais mais importantes da ciência econômica ortodoxa das últimas décadas, que é a teoria do capital humano. O economista e demógrafo Eduardo Rios-Neto fez um excelente resgate (Brasil – Questões emergentes na análise demográfica: o caso brasileiro Questões emergentes na análise demográfica: o caso brasileiro) de artigos de Gary Becker (Human Capital and the Rise and Fall of Families on JSTOR e The Family and the State | The Journal of Law and Economics: Vol 31, No 1), um dos pais da teoria do capital humano, que mostram que (nas palavras de Rios-Neto):
“(…) famílias pobres investiriam mais nos filhos se não tivessem limitações de renda e de crédito. Esta seria uma das explicações para a robusta correlação negativa observada entre a renda domiciliar per capita e o desempenho escolar das crianças residentes no domicílio.
Uma explicação para que o Estado efetue transferências universais na área de educação é a hipótese da eficiência, ou seja, a transferência intergeracional para as crianças, por intermédio dos gastos em educação, levaria a um melhoramento de Pareto (…) Um programa de transferência direta de renda como, por exemplo, o Bolsa Família poderia também melhorar esta eficiência.”
Ou seja, a teoria do capital humano dá fundamento para que se compreenda como programas de transferência de renda como o PBF promovem a eficiência na transferência intergeracional de recursos e levam à formação de capital humano, elevando assim a eficiência econômica ao longo do tempo. Há pouco menos de dois anos, publiquei em um jornal de Recife um texto (Passando a tocha: o Programa Bolsa Família e a Teoria da Justiça) sobre uma das mais importantes evidências recentes a dar respaldo empírico à “hipótese da eficiência” discutida no artigo de Rios-Neto, de um trabalho publicado em um importante periódico científico internacional da área de economia (Social mobility and CCT programs: The Bolsa Família program in Brazil – ScienceDirect), que mostra que 64% dos filhos e filhas de famílias beneficiárias do PBF, ao chegarem à vida adulta, não se tornam beneficiários e, ainda, que 45% deles estão no mercado formal de trabalho (um resultado extraordinário, considerando que são oriundos de famílias tão pobres). Portanto, o PBF é um investimento produtivo de médio prazo, com retornos econômicos relevantes.
Seria possível mostrar vários outros impactos positivos do PBF, como o caso da saúde e da redução de custos do SUS (Health effects of the Brazilian Conditional Cash Transfer programme over 20 years and projections to 2030: a retrospective analysis and modelling study – The Lancet Public Health), mas isso tornaria este artigo excessivamente longo. Acredito que a discussão acima já contribui para a conclusão de que a fala de Luciano Huck nada mais é do que uma combinação lamentável de ignorância com aporofobia.
Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
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