Universidade para quem e para que, por Jorge Alexandre Neves

Vélez Rodrigues afirmou sobre as universidades que “devem ficar reservadas para uma elite intelectual”

Universidade para quem e para que

por Jorge Alexandre Barbosa Neves

Assim como na minha última coluna, nesta irei partir de uma afirmação bastante equivocada do ministro da Educação. Em entrevista para o jornal Valor Econômico, o ministro Ricardo Vélez Rodrigues afirmou sobre as universidades que “devem ficar reservadas para uma elite intelectual”.

Não é de hoje que me espanto com o fato de que as elites conservadoras de muitos países da América Latina – e do Brasil, em particular – nunca adotaram a Teoria do Capital Humano. Essa abordagem teórica da Economia, nascida e criada na Universidade de Chicago, é um importante ativo intelectual do pensamento conservador. Todavia, não “pegou” pelas bandas de cá. Aqui por nossas paragens a Teoria do Capital Humano deve ser “coisa de comunista”. 

Como já disse em outra coluna, a Teoria do Capital Humana é incompleta para explicar a complexa realidade da relação entre educação e mercado de trabalho. Portanto, ela é insuficiente para orientar nossas políticas públicas. Contudo, ela não é absolutamente inútil. E, com certeza, seria muito bom se nossas elites conservadoras tivessem um nível elevado de conhecimento dessa teoria.

Se o ministro Vélez Rodriguez conhecesse um pouco de Teoria do Capital Humano, não falaria tal bobagem sobre reservar as vagas na universidade para uma “elite intelectual”. O amplo acesso à universidade é fundamental para a economia e para impulsionar as oportunidades laborais para os jovens, em particular, mas não só para esses.

Um estudo de três economistas paulistas mostra bem como o Brasil ainda precisaria impulsionar muito o acesso à universidade. A tabela abaixo traz uma compilação dos ados apresentados no referido estudo. A taxa bruta é calculada pela fração entre todos os alunos matriculados no nível superior e a população de 18 a 24 anos. Já a taxa líquida é calculada pela fração entre os alunos de 18 a 24 anos matriculados no nível superior e a população de 18 a 24 anos.

Os dados da tabela acima mostram duas coisas importantes. Primeiramente, que entre 2002 e 2012 (período de governos petistas de Lula e Dilma) a taxa bruta de matrícula no ensino superior praticamente dobrou e a taxa líquida teve um aumento de 57,5%, elevações muito expressivas para uma década e maior do que todos os demais países da tabela, bem como para a média da América Latina. Em segundo lugar, os dados mostram que, por outro lado, apesar de todo o crescimento recente do ensino superior, o Brasil ainda se encontra abaixo da média da América Latina (quanto à taxa bruta), dos três países latino-americanos citados e, ainda mais, dos países com maior nível de desenvolvimento, como a Coreia do Sul e os EUA.

É curioso que a mídia conservadora costuma fazer a apologia da Coreia do Sul como modelo de desenvolvimento e sempre cita os seus vultosos investimentos na educação básica. Todavia, não costuma fazer o mesmo quando se refere à educação superior. Se o Brasil algum dia conseguir dar um salto de desenvolvimento como aquele alcançado pela Coreia do Sul a partir da década de 1960, este só será possível com uma ampliação significativa das taxas de matrícula no ensino superior.

A educação universitária é fundamental para alicerçar uma economia com elevada capacidade de inovação. Da mesma forma, é fundamental para a formação de uma sociedade de classe média e com indivíduos capazes do exercício pleno da cidadania. Adicionalmente, a formação universitária – como está demonstrado por uma enorme quantidade de pesquisas científicas e como podemos observar empiricamente em nosso dia-a-dia – permite aos indivíduos o desenvolvimento de uma multiplicidade de habilidades. Assim, mesmo que os egressos do ensino superior não consigam vagas ocupacionais nas suas áreas de formação universitária, o investimento feito não foi um desperdício (1).

O ministro da educação, então, propôs investir na educação técnica como uma alternativa ao ensino superior. Essa é uma proposta bastante comum entre aqueles que, assim como o ministro Vélez Rodriguez, têm essa visão elitista sobre o acesso à universidade. Todavia, mais uma vez, o ministro revela sua ignorância sobre a educação no Brasil.

Primeiramente, é comum – como também faz o ministro – se utilizar o caso da Alemanha para mostrar que é desejável a priorização da educação técnica. O caso alemão é bastante especial. Primeiramente, porque a Alemanha tem uma política industrial vigorosa e protecionista que lhe permite ser líder mundial de exportação de bens por valor agregado (2). Na Alemanha há um sistema bastante bem articulado de conexão entre o sistema educacional vocacional e à indústria (3).

No caso do Brasil, o que as análises que já fiz e outras a que tive acesso mostram é que fazer um curso técnico eleva a probabilidade de ingresso na universidade. Não temos uma indústria forte o suficiente – como na Alemanha – para dar conta de oferecer empregos de boa qualidade aos egressos das escolas de formação vocacional já existentes no país. Acrescentando-se a isso a nossa tendência a uma forte desindustrialização, não me parece que esse caminho seja muito promissor.

Portanto, ao contrário do que pensam elitistas bizantinos como o ministro Vélez Rodriguez, as evidências e as comparações internacionais parecem indicar que o Brasil precisa e precisará que mais jovens entrem na universidade.

  1. Abundam casos de engenheiros que se tornam especialistas em finanças ou em áreas outras como sistemas de informação. Da mesma forma, as capacidades em análises dedutivas e interpretativas obtidas em um curso de Direito, por exemplo, também podem ser aplicadas em uma ampla gama de posições ocupacionais.
  2. Parece-me bastante claro que isso é algo que o atual governo federal rejeita por completo e, portanto, não irá fazer.
  3. Independente de termos críticas a ele, no Brasil é o chamado “Sistema S” que tem desempenhado este papel. Todavia, o atual governo federal tem anunciado a intenção de reduzir os recursos orçamentários desse sistema, o que deverá fragilizar sobremaneira a conexão entre educação vocacional e o mercado de trabalho, no Brasil.
Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Associado do Departamento de Sociologia – UFMG, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

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