28 de setembro de 2026

A escolha de Israel e o futuro de Netanyahu, por Wagner Sousa

A eclosão da guerra contra o Hamas garantiu estabilidade do governo Netanyahu, que estava em posição defensiva e muito contestado
Benjamin Netanyahu - World Economic Forum - Flickr - Reprodução

Israel completa primeira legislatura estável desde 1988, com Netanyahu no poder durante guerra contra Hamas, Hezbollah e Irã.
Revelação aponta alerta prévio dos Emirados a Netanyahu sobre ataque do Hamas, intensificando críticas e pedidos de inquérito.
Gadi Eisenkot surge como principal opositor, defendendo comissão de inquérito, endurecimento militar e reaproximação com Europa.

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do Observatório Internacional do Século XXI

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A escolha de Israel e o futuro de Netanyahu

por Wagner Sousa

 A legislatura atual israelense se tornou a primeira desde 1988 a completar o mandato integral sem que o governo tenha caído, encerrando um ciclo de instabilidade que produziu cinco eleições consecutivas entre 2018 e 2022. A eclosão da guerra contra o Hamas (e depois contra o Hezbollah e o Irã) foi o principal fator a garantir esta estabilidade, o governo Netanyahu até então estava em posição defensiva, muito contestado por amplos setores da sociedade israelense. Agora, com o pleito de 27 de outubro de 2026 já com prazo de registro de candidaturas encerrado, o país testa se a permanência de Benjamin Netanyahu no poder, sustentada estes três anos de guerra em Gaza, no Líbano, contra o Irã e por confrontos crescentes na Cisjordânia, ainda encontra amparo no eleitorado.

O quadro que emerge das pesquisas recentes é de um desgaste real, ainda que não decisivo, da coalizão governista. Netanyahu segue pressionado por processos de corrupção abertos desde 2019, por investigações internas sobre as falhas de inteligência que antecederam o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 e por disputas internas no Likud antes das primárias do partido.

A esse quadro somou-se, nesta semana, uma revelação de peso: segundo investigação publicada pelo Haaretz e reproduzida no livro Hostages: 843 Days of Abandonment, dos jornalistas Shlomi Eldar e Ruth Yuval, Netanyahu teria recebido, cerca de dez dias antes do ataque, um alerta direto do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed Al Nahyan, numa ligação de 45 minutos a partir do palácio presidencial em Abu Dhabi. Bin Zayed teria informado que Yahya Sinwar, então líder do Hamas em Gaza, preparava uma operação de grande envergadura, capaz de provocar um “banho de sangue” e desestabilizar a região — sem, no entanto, especificar data ou detalhes operacionais do ataque. O gabinete de Netanyahu classificou a reportagem como “uma mentira absoluta” e negou até mesmo que a conversa tenha ocorrido. O impacto político, porém, já está posto, em plena campanha eleitoral: o candidato oposicionista Gadi Eisenkot escreveu que o primeiro-ministro “recebeu dezenas de avisos para o dia 7 de outubro e os ignorou todos”, enquanto outro rival da oposição, Naftali Bennett, classificou a omissão como “negligência criminosa” e atribuiu a Netanyahu “responsabilidade pessoal e direta” pelas 1.221 mortes daquele dia, chegando a afirmar que ele “não pode seguir no cargo nem por mais um minuto”. A revelação reforça, portanto, exatamente a bandeira que já vinha sendo o carro-chefe da oposição — a exigência de uma comissão estatal de inquérito, até aqui bloqueada por Netanyahu — e tende a aprofundar o desgaste de um governo que já chegava à reta final da campanha em posição defensiva.

O fenômeno mais notável do ciclo eleitoral, porém, não é a fraqueza de Netanyahu — já conhecida —, mas a ascensão de um nome até há pouco inesperado: Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel entre 2015 e 2019, hoje à frente do partido Yashar.

A plataforma de Eisenkot, no entanto, não representa ruptura ideológica com o establishment de segurança israelense, e sim sua reafirmação. Ele defende uma comissão estatal de inquérito sobre as falhas de 7 de outubro — pauta agora reforçada pela revelação do Haaretz — investimentos para recuperação do norte e do sul do país e a extensão do serviço militar a setores hoje isentos, notadamente os ultraortodoxos, medida com claro potencial de reconfigurar tensões sociais internas historicamente evitadas pelos governos de coalizão. No plano externo, sua posição sobre Gaza é de linha dura: acusa Netanyahu de, na prática, ter mantido o Hamas no poder ao vetar tentativas de substituí-lo pela Autoridade Palestina ou por um órgão tecnocrático apoiado pelos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que rejeita qualquer horizonte de Estado palestino no curto prazo, qualificando essa possibilidade, no Israel pós-7 de outubro, como “delirante”.

Essa combinação — dureza militar com crítica à gestão política da guerra — se repete nas demais frentes regionais. No Líbano, propõe recuar a uma zona de segurança mais estreita que a mantida por Netanyahu, argumento tecnicamente justificado pela distância mínima necessária para neutralizar armamento do Hezbollah, e reabilitar o papel da França na supervisão do exército libanês, algo que Netanyahu abandonou por atrito com Paris em razão das críticas francesas à condução da guerra em Gaza. No caso do Irã, mantém-se fiel à doutrina de contenção militar preventiva já praticada por Netanyahu e testada nos confrontos de 2025 e 2026 entre os dois países, com participação direta dos EUA — chegando a propor aos norte-americanos o estabelecimento de zonas de exclusão nuclear sobre os redutos remanescentes de urânio enriquecido a 60% em território iraniano.

Uma diferença relevante na visão externa de Eisenkot diz respeito às relações com a  Europa. Ele pretende reconstruir relações com França, Reino Unido, Alemanha e Itália — tratando-os como aliados estratégicos, inclusive lembrando o papel desses países na interceptação de mísseis balísticos iranianos em defesa de Israel em 2024 —, na aposta de que a saída de Netanyahu e o fim dos discursos de incitação de ministros como os radicais Itamar Ben-Gvir, das Finanças e Bezalel Smotrich, da Segurança Nacional bastariam para restaurar a imagem de Israel como “a única democracia do Oriente Médio”. É uma leitura que talvez subestime o quanto o distanciamento europeu reflete posições de consenso sobre a condução da guerra em Gaza, e não apenas hostilidade pessoal a Netanyahu. Em relação à Russía reconhece sua presença e influência na Síria, mas vê com preocupação o apoio ao Irã, assim como tem a mesma desconfiança em relação à China. Se alinha aos EUA em relação à Pequim, como de resto, como todos os governos israelenses, quer manter e reforçar a aliança com os Estados Unidos.

Também no campo diplomático, Eisenkot reconhece o que Netanyahu evita admitir publicamente: a normalização com a Arábia Saudita, ponto central dos Acordos de Abraão desde o primeiro mandato de Trump, está paralisada no curto e médio prazo, tanto pela exigência saudita de um horizonte palestino quanto pelas divergências sobre a condução da guerra em Gaza. Sua aposta alternativa é recompor vínculos com Egito, Jordânia e Emirados Árabes Unidos — justamente o país cujo presidente, segundo a revelação desta semana, teria tentado alertar Netanyahu antes do ataque.

Na Cisjordânia, Eisenkot promete reverter o que descreve como a principal diferença de política com Netanyahu: a permissividade concedida aos ministros de extrema-direita Ben-Gvir e Smotrich, que teria transformado o território em terreno fértil para violência extremista judaica, com propostas concretas de devolver poder de prisão e retomar o uso da detenção administrativa contra colonos violentos.

Do outro lado da fronteira, um processo eleitoral paralelo e bem menos comentado também está em curso, embora sob patamar de incerteza maior. Mahmoud Abbas convocou, pela primeira vez na história, eleições por sufrágio universal para o Conselho Nacional Palestino, o parlamento da OLP, marcadas para 1º de novembro — órgão cujos membros nunca foram eleitos, apenas nomeados. Anunciou ainda eleições para o Conselho Legislativo Palestino, na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém Oriental, previstas para 28 de novembro, que seriam as primeiras desde as legislativas de 2006, vencidas pelo próprio Hamas e rejeitadas pelo Ocidente na ocasião. O ceticismo sobre a realização efetiva desse segundo pleito é generalizado: a fragmentação entre Fatah e Hamas no pós-guerra, somada à ocupação israelense em curso na Cisjordânia, torna pouco provável que a votação transcorra como formalmente planejado.

Ainda assim, seria precipitado falar em vitória anunciada da oposição em Israel. As pesquisas mais recentes mostram o bloco de Netanyahu recuperando ligeira vantagem sobre o bloco opositor, e a fragmentação partidária — com a entrada de novas legendas como a aliança Hendel-Zelekha — deixa ambos os lados sem caminho claro para os 61 assentos necessários à formação de governo. O próprio campo anti-Netanyahu segue dividido: Bennett e Eisenkot confirmaram nesta semana que vão concorrer separadamente, apesar de pesquisas indicarem que uma chapa unificada teria desempenho superior à soma das partes.

O que essas eleições revelam, em última análise, é menos uma disputa entre projetos políticos antagônicos do que uma disputa dentro do próprio consenso de segurança israelense sobre como gerir os custos crescentes — humanos, econômicos e diplomáticos — de quase três anos de guerra permanente em múltiplas frentes. Isso é a base sob a qual seguirá a repactuação da posição israelense na região, disputada não apenas entre Israel e seus vizinhos árabes, Turquia e o Irã, mas também entre Estados Unidos, Rússia e China.

Wagner Sousa – Doutor em Economia Política Internacional pela UFRJ. Pós-Doutorado em Relações Internacionais pela Unesp. Atualmente é pós-doutorando em Economia Política Internacional na UFRJ com pesquisa sobre a política externa alemã e suas relações com grandes potências (EUA, Rússia e China).

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