12 de outubro de 2026

Ritmo Alucinante: Busca da China para Construir o Futuro, por Fernando N. da Costa

Dan Wang analisa a ascensão da China como um Estado de Engenharia, focado em construção e produção em massa.
Reprodução

China avança com foco em engenharia e infraestrutura, enquanto EUA enfrentam burocracia e litígios que travam projetos.
Modelo chinês combina crescimento rápido e controle autoritário, gerando progresso e restrições aos direitos individuais.
Competição EUA-China depende da capacidade de inovação, governança e equilíbrio entre execução física e direitos sociais.

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Ritmo Alucinante: Busca da China para Construir o Futuro

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por Fernando Nogueira da Costa

Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future, livro publicado em 2025, de autoria de Dan Wang, analisa a ascensão da China como um Estado de Engenharia, focado em construção e produção em massa. Contrasta o dinamismo da construção chinesa, exemplificado por cidades como Shenzhen e projetos em Guizhou, com a natureza litigiosa e burocrática da Sociedade de Advogados dos Estados Unidos.

Explora como a elite tecnocrática de Pequim prioriza o desenvolvimento industrial e a infraestrutura, ignorando até direitos individuais ou o bem-estar social. Por meio de relatos pessoais sobre o avanço da alta velocidade ferroviária, Wang ilustra a eficácia da mobilização estatal chinesa em comparação ao atual impasse institucional americano.

No entanto, ele também detalha o lado sombrio desse modelo, incluindo endividamento excessivo, projetos inúteis e rígidos controles sociais. Discute como a competição global entre as duas superpotências será moldada pela capacidade de cada uma em gerenciar o progresso técnico e a governança interna.

Dan Wang, primeiro, destaca paralelos e semelhanças culturais entre os Estados Unidos e a China. Apesar da rivalidade geopolítica constante, os povos americano e chinês são surpreendentemente semelhantes. Ambos compartilham uma forte veia materialista e pragmática, o culto a empreendedores de sucesso, o espírito competitivo e uma profunda apreciação pelo “sublime tecnológico” — o fascínio por grandes projetos de engenharia capazes de desafiarem os limites físicos.

Depois, apresenta ambos como fossem os motores da ordem global. A relação e o funcionamento interno dos EUA e da China reconfiguram a ordem internacional. Ambos atuam como as principais fontes de transformação tecnológica do mundo moderno, superando o impacto de qualquer outra região ou bloco.

Em seguida, aponta a dualidade do desenvolvimento chinês. A partir de sua experiência pessoal como analista de tecnologia, vivendo na China, o autor descreve como presenciou simultaneamente um enorme dinamismo econômico e um ambiente de sufocamento político sob Xi Jinping.

Ele resume essa contradição apontando: “o Estado chinês avança rápido e quebra coisas, mas também avança rápido e quebra pessoas”. Combina empreendedorismo pulsante com controle autoritário.

A tese central do livro é o confronto entre Estado de Engenharia vs. Sociedade de Advogados. A grande ideia-guia é o contraste entre os modelos de governança das duas superpotências.

China é apresentada como um Estado de Engenharia. Dominada politicamente por tecnocratas e engenheiros, a liderança chinesa é focada na construção e execução física em velocidade vertiginosa, entregando obras e infraestrutura de grande escala.

Estados Unidos  são vistos como uma Sociedade de Advogados. Dominados por elites formadas no Direito, os EUA tornaram-se obcecados por procedimentos, litígios e regulamentações. Costuma resultar em paralisia e no bloqueio sistemático de novos projetos físicos.

O livro aborda tanto o progresso espetacular quanto o lado sombrio do modelo chinês ao atropelar direitos individuais. A melhor prevenção contra um conflito devastador entre as duas potências é a curiosidade mútua, reconhecendo cada lado oferecer uma visão sobre como o outro poderia melhorar.

Meu comentário é: autores chineses ou americanos devem se lembrar do início e fim do etnocentrismo. O eurocentrismo teve origem no período colonial e nas Grandes Navegações (século XVI), consolidando-se durante o Renascimento e o Iluminismo. Nações como Portugal, Espanha, Inglaterra e Holanda conquistaram territórios com genocídios de nativos na América, na África e na Ásia.

Os europeus usaram a ideia de superioridade cultural e religiosa para legitimar a exploração e a violência contra os povos nativos. A Europa era tratada como fosse o único centro da história humana, definindo padrões globais de ciência, beleza, moral e progresso. O conceito também se apoiou em uma narrativa considerando a Grécia antiga como o berço exclusivo da civilização ocidental.

O americocentrismo é a tendência de enxergar e julgar o mundo a partir de uma perspectiva excessivamente focada nos Estados Unidos, considerando a cultura, os valores e os padrões americanos como superiores ou mais importantes que os dos demais países. Assim como outros Impérios, entrou em decadência. A China, já tendo vivenciado uma ascensão e queda, no milênio passado, deveria evitar o etnocentrismo: a tendência de julgar outras culturas usando a própria cultura como o único modelo correto de referência.

A China opera como um Estado de Engenharia, cuja obsessão e principal virtude é construir infraestrutura e capacidade industrial em velocidade vertiginosa. Em contrapartida, os EUA transformaram-se em uma Sociedade de Advogados, na qual procedimentos, vetos regulatórios e litígios frequentemente travam a execução de novos projetos físicos.

Isso se relaciona com a formação e composição das elites. Desde as reformas de Deng Xiaoping, a China promoveu tecnocratas e engenheiros para os mais altos cargos do governo — como no Comitê Permanente do Politburo e na liderança militar/aeroespacial sob Xi Jinping —, trazendo experiência prática na gestão de megaprojetos. Nos EUA, o poder político (Congresso, presidência da República e burocracia) é dominado por formados em Direito, sendo raros os líderes com formação em Ciências ou Engenharia, sendo exceções históricas os presidentes Herbert Hoover e Jimmy Carter.

Nos EUA, a proliferação de regulamentações e ações judiciais criou o chamado de “fetichização do procedimento”, onde cumprir etapas burocráticas se tornou mais importante em lugar de entregar resultados concretos.

Na China, a Engenharia Social se extrapola devido à visão mecanicista da sociedade. A liderança chinesa não aplica a lógica da engenharia apenas a estradas ou barragens, porque ela atua como fosse um engenheiro social.

O Estado tende a tratar a população e os problemas sociais como equações de fluxo ou cálculos matemáticos — maximizando o poder do Estado e minimizando os direitos individuais. Exemplos dessa visão agregada incluem a Política do Filho Único, os lockdowns rígidos da Política de Covid Zero e as intervenções estatais nos setores imobiliário e de tecnologia.

Por isso, há os “ritmos descontínuos” da vida na China. Devido às guinadas autoritárias do regime sem o contraponto de críticas públicas ou garantias individuais, a vida na China é marcada por ritmos imprevisíveis.

Há um mau viés social nos dois modelos. Enquanto na China a falta de garantias jurídicas deixa até os mais ricos vulneráveis às decisões súbitas de Pequim, na Sociedade de Advogados norte-americana o sistema favorece os mais abastados. Afinal, podem pagar advogados, para vetar construções indesejadas ou proteger seu patrimônio, enquanto a população geral sofre com a infraestrutura decadente e a moradia inacessível.

O desafio atual é a competição geopolítica entre ambos os países. No cenário internacional, os EUA tentaram responder à competição tecnológica utilizando advogados para desenhar teias complexas de sanções e controles de exportação. No entanto, contra um Estado de Engenharia, focado em capacidade de fabricação e escala industrial massiva, controles legais por si só não contêm a capacidade física e de execução chinesa.

Os EUA desenvolveram um pavor de grandes obras e uma obsessão por procedimentos judiciais. Eles paralisaram a capacidade do país de construir habitação, trens e infraestrutura moderna.

Há necessidade de resgatar “o espírito de engenharia” nos Estados Unidos. Para manter sua liderança e viabilizar metas como a transição energética e a renovação urbana, os EUA precisam recuperar sua antiga capacidade de execução física — exemplificada no passado pelo programa Apollo, pelas redes de rodovias e pelos submarinos nucleares.  Os EUA não podem continuar dependendo exclusivamente de soluções virtuais (Big Tech e finanças), enquanto sua infraestrutura real se deteriora e é superada pela capacidade produtiva chinesa.

O autor reitera: o modelo chinês possui um limite claro porque o Partido Comunista desconfia profundamente do seu próprio povo e sufoca a liberdade individual e a criatividade. Por essa razão, a China enfrenta sérias dificuldades para projetar um soft power cultural atraente para o resto do mundo, dependendo essencialmente do poder bruto de sua máquina industrial e de construção.

Dan Wang conclui o livro defendendo o grande trunfo dos Estados Unidos ser o seu pluralismo e a proteção aos direitos individuais. Os EUA deveriam adotar com orgulho a mentalidade de um “país em desenvolvimento” no sentido de reconhecer o país não estar “pronto” ou acabado, devendo renovar constantemente seu ímpeto de transformação física e social para o futuro.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]. 

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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