15 de outubro de 2026

O algoritmo político da servidão involuntária, por Wesley Sousa

O problema é quando a corrupção deixa de ser vista como uma estrutura de relações de poder e passa a ser um espetáculo e palanque eleitoral.
Reprodução

A política brasileira consome escândalos de corrupção como espetáculo, sem questionar a estrutura do sistema.
Algoritmos e mídia fragmentam a informação, criando narrativas diversas e dificultando o debate sobre o sistema.
Bolsonarismo é plural, unido pela rejeição ao PT, e a moralização anticorrupção pode beneficiar interesses diversos.

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O algoritmo político da servidão involuntária, por Wesley Sousa

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Há algo de revelador na maneira como a política brasileira passou a consumir seus próprios métodos. A cada nova denúncia de “corrupção”, uma avalanche de manchetes, indignação nas redes sociais, acusações cruzadas e declarações de autoridades. Durante alguns dias, o país parece descobrir que existem relações promíscuas entre dinheiro, poder e Estado. Depois, o episódio “desaparece”. Outro escândalo ocupa seu lugar. E a máquina continua funcionando, como deve ser.

O problema não está em denunciar a corrupção. Ao contrário, pois a investigação de desvios de recursos, tráfico de influência, favorecimentos ilícitos e relações indevidas entre agentes públicos e interesses privados é uma exigência elementar. O problema começa quando a corrupção deixa de ser vista como uma estrutura de relações de poder e passa a ser consumida como espetáculo político e palanque eleitoral. Os vídeos rápidos com fundo preto, as meia-verdades colocadas como elementos dispersos e coesos num objetivo claro de deslegitimar o outro em benefício próprio.

Ao mesmo tempo, não é necessário imaginar uma sala cafona em uma grande cidade na qual políticos, empresários e proprietários de meios de comunicação decidam quais denúncias serão divulgadas e quais serão escondidas. Sabemos que os sistemas políticos e midiáticos podem produzir efeitos de seletividade sem que exista um comando central. Por isso, basta que diferentes interesses, incentivos econômicos (inclusive estrangeiros), disputas partidárias e mecanismos de produção da notícia se encontrem em determinada conjuntura.

O crime público tem uma característica conveniente para o efeito privado: ele personaliza problemas que são da ordem do capitalismo. Em vez de perguntar como determinadas relações entre Estado e interesses privados se constituíram, a atenção pública se concentra em um personagem, ou seja, a individualização do problema social. Ao invés de investigar quais mecanismos institucionais permitiram determinada troca de favores, procura-se um culpado, um “boi de piranha”. Em vez de discutir as condições que tornam possível o tráfico de influência, acompanha-se a última revelação.

Mas vale ressaltar que a personalização não é falsa, pois as pessoas praticam atos ilícitos e devem responder por eles quando as provas assim determinarem. Contudo, a responsabilização individual não encerra a questão política, mas a acentua. Se um empresário é preso, um parlamentar é denunciado ou um funcionário público perde o cargo, permanece a pergunta: por que o sistema permitiu que aquela relação se estabelecesse em primeiro lugar?

O problema é ainda maior em uma sociedade na qual a informação circula de forma fragmentada, direcionada e personalizada pelos algoritmos. Redes sociais, televisão, portais, influenciadores e aplicativos de mensagens instantâneas produzem públicos diferentes, submetidos a narrativas diferentes. Um mesmo escândalo pode ser apresentado como prova da corrupção de um partido, como perseguição política, como tentativa de destruir uma candidatura ou como evidência de que todo o sistema está apodrecido.

Quando determinado seguimento da sociedade é submetida a denúncias de corrupção, pode surgir uma conclusão supostamente realista, mas politicamente perigosa: “todos são iguais”. Se todos são corruptos, nenhum escândalo surpreende. Se todos fazem parte do esquema, a escolha eleitoral deixa de ser uma questão de responsabilização e passa a ser uma questão de identidade, conveniência ou rejeição ao adversário. Em outros termos, a incansável associação da “corrupção” ao Lula, PT e, por consequência, à “esquerda” torna-se plataforma política por figuras vazias de visão de sociedade.

Esse fenômeno ajuda a compreender por que a existência de denúncias não determina consequências eleitorais substanciais. O crescimento de forças de extrema-direita, em diversos setores da vida política, não deve ser explicado exclusivamente pela corrupção. Seria uma simplificação, mas há elementos institucionais envolvidos, e eles variam conforme o país e o momento específico. Entretanto, existe uma relação política relevante entre a crise de confiança e a ascensão de discursos que apresentam as instituições como estruturalmente incapazes de resolver os problemas da sociedade. Quando a política aparece apenas como uma sucessão de escândalos, quando partidos são percebidos como máquinas de autopreservação e quando instituições de controle são vistas como seletivas, abre-se espaço para a promessa de que alguém situado “fora do sistema” poderá resolver o problema por meio da força, da autoridade ou da ruptura.

A história política mostra, entretanto, que denunciar a corrupção e desmontar as condições que a produzem são coisas diferentes. Uma liderança pode construir enorme capital político denunciando privilégios e, uma vez instalada no poder, reproduzir mecanismos semelhantes de concentração, patronagem ou favorecimento. A retórica anticorrupção, portanto, não é garantia de transformação institucional. O “caso Master” mostra efetivamente isso; a ligação miliciana com a política é também esse enlace. A vitória acachapante da extrema-direita no dia 05 de outubro mostrou isso.

Há uma fundamental ambivalência consequente. Atores da direita e extrema-direita, em geral, parte do pressuposto de que, ao falar “a língua do povo”, a moralização do discurso serve para uma certa espetacularização da “revolta”. Assim, esse discurso produzido pode beneficiar aquele que está sob investigação. Pode beneficiar grupos econômicos que disputam contratos ou influência. Pode beneficiar veículos de comunicação que transformam a indignação em audiência. Pode beneficiar políticos interessados em desviar o debate de outras questões (“gênero”, “feminismo”, “comunismo” etc.). Pode beneficiar candidatos que se apresentam como outsiders diante de um sistema desacreditado (como tem foram as últimas votações expressivas do “partido bolsonarista” em diversos estados).

Talvez a pergunta mais importante não seja “quem é o corrupto?”, mas “como funciona o sistema que permite a troca de favores?”. Quem financia quem? Quem tem acesso privilegiado aos centros de decisão? Quem circula entre empresas, partidos, governos e órgãos públicos? Como funcionam as nomeações, “emendas parlamentares” e “distribuição de recursos”? Quem decide quais investigações merecem prioridade? Por que determinadas denúncias sobrevivem durante meses enquanto outras desaparecem em poucos dias?

Essas perguntas são menos atraentes para o espetáculo jornalístico porque não produzem um vilão. A lógica da algoritmia é baseada, entre outras coisas, 1) na performatividade do fato, 2) na adaptação semiótica da informação e 3) no direcionamento afetivo de seu público. Essa lógica da algoritmia não é um acidente, mas uma condição que confirma a intuição mais radical do filósofo francês Etiènne La Boétie, ainda no séc. XVI: a servidão, em sua forma moderna, não é imposta de fora, mas consentida por dentro. Se o tirano do século XVI mantinha seu poder porque o povo “se deixava encantar” pelo nome de um, o sistema hoje não precisa sequer de um nome.

Em nosso caso, figuras medíocres e eficazes, deslocam a insatisfação da população para uma ideia difusa de “criticidade”. Basta que os indivíduos permaneçam presos à circulação de indignações performáticas, convencidos de que participam da política quando apenas consomem o espetáculo dela. Assim, La Boétie já advertia que “os homens nascidos sob o jugo e depois criados na servidão, sem olharem para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram” (La Boétie, 2009, p. 42). A algoritmia aperfeiçoa essa servidão (in)voluntária: não é preciso proibir a pergunta sobre o “sistema”, pois basta saturá-la de escândalos que jamais a respondem.

Aqui, Maquiavel serve como chave para compreender por que o espetáculo da corrupção é politicamente funcional. Em O Príncipe, ele observa que “os homens, em geral, julgam mais com os olhos do que com as mãos; mais pelas aparências, porque se veem todos e se conhecem poucos” (Maquiavel, 1979. p. 107). O escândalo personalizado, então, é uma máquina de produzir aparência: oferece ao público a ilusão de que “conhece” a corrupção quando apenas assiste ao desfile de personagens. A pergunta que elenquei no início – como funciona o sistema que permite a troca de favores? – permanece nas margens porque não produz um rosto, uma máscara, uma figura sobre a qual o olhar possa repousar. A política reduzida ao visível é a política que se subtrai à interrogação estrutural.

Mas é Marx quem desloca posteriormente a crítica do plano da aparência para o plano do fetiche. O escândalo que “desaparece” e deixa a máquina funcionando é a forma contemporânea de um fenômeno que ele já havia descrito: as relações sociais aparecem aos homens como propriedades naturais das coisas, e o mundo produzido pelo trabalho humano se ergue diante deles como “uma potência autônoma” (Marx, 2011, p. 80; cf. Marx, 2013). O algoritmo não inventa essa inversão, mas o a radicaliza na medida que a sociedade produz subjetividades correspondentes. A indignação moral torna-se também uma mercadoria, circulada por sua capacidade de gerar engajamento, audiência, cliques e votos. O que se consome não é a verdade sobre a corrupção, mas a forma-mercadoria da verdade: uma imagem de verdade, sensível-suprassensível, que se defronta ao espectador como algo que ele pode possuir sem jamais tocar nas condições que a produziram. A pergunta que resta não é mais quem é o corrupto?, mas por que a crítica da corrupção se tornou o meio mais eficaz de impedir a crítica efetiva dos nossos problemas se torne realmente possível.

Por isso, grande parte do eleitorado bolsonarista, que é em essência “AntiPT”, não é a rigor um eleitorado homogêneo. A pesquisa de João Feres Jr. sobre o bolsonarismo como fenômeno de opinião pública demonstra que o eleitorado de Bolsonaro, em 2022, não era um bloco ideológico coerente, mas se divide em ao menos três perfis distintos (cf. Feres Jr., 2025, p. 16): os “liberais antipetistas”, movidos sobretudo pela rejeição ao PT e por uma pauta econômica liberal; os “punitivistas pragmáticos”, cuja adesão se organiza em torno da demanda por segurança, ordem e autoridade; e os “conservadores religiosos”, cuja motivação central são as pautas morais e a identidade evangélica, ainda que se mostrem progressistas em políticas de transferência de renda.

Resta às pessoas de esquerda e as pessoas de bom senso interpretarem e atuarem a partir da implicação de que qualquer tentativa de interpretar o bolsonarismo como um movimento unitário (“pobre de direita” ou afins): porque atribuir uma racionalidade ideológica consistente ou pacífica incorre em erro analítico sobre o que une esses grupos. Vejo, por fim, que não se trata de um projeto compartilhado de sociedade, mas a partilha de uma rejeição e ressentimento, que, por sua própria natureza, não constituem a base imutável para a ação política coletiva desses segmentos.

Referências

FERES Jr., João. O bolsonarismo como fenômeno de opinião pública. Opinião Pública, Campinas, vol. 31, 2025, p. 1-23. Disponível em: < https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/op/article/view/8681143 >. Acesso em: 06 de outubro de 2026.

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da servidão voluntária. São Paulo: Martin Claret, 2009.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. In: Maquiavel: o Príncipe; A arte da guerra. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Coleção Os Pensadores).

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I.  Tradução Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.


Wesley Sousa – Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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