Posicionamento Político Ideológico de César Locatelli
por Fernando Nogueira da Costa
A obra Desigualdade S.A. e o Poder Político do Capital (São Paulo: Associação Brasileira de Economistas pela Democracia – ABED, 2026 – disponível para download gratuito) revela um posicionamento político bastante definido. César Locatelli situa-se no campo da esquerda democrática, antineoliberal e desenvolvimentista, com influências marxistas, keynesianas e estruturalistas.
Sua orientação pode ser caracterizada por quatro elementos.
Primeiro, defende a democracia como instrumento de ampliação dos direitos sociais, e não apenas como procedimento eleitoral.
Segundo, considera o Estado indispensável para o desenvolvimento econômico, o financiamento de investimentos e a redução das desigualdades.
Terceiro, identifica na concentração do poder econômico um obstáculo à democratização das decisões públicas.
Quarto, atribui grande importância à soberania nacional e à reorganização multipolar da economia mundial.
A simpatia pelos governos Lula e Dilma é explícita, assim como a oposição ao neoliberalismo e às políticas econômicas associadas aos governos Temer e Bolsonaro. Mas seria inadequado classificá-lo simplesmente como marxista ortodoxo.
Sua defesa de bancos públicos, políticas de crédito, investimento produtivo e desenvolvimento nacional pressupõe a possibilidade de reformar o funcionamento do capitalismo por meio da ação estatal e da disputa democrática. Isso o aproxima mais de uma Economia Política social-desenvolvimentista com referências marxistas em lugar de uma concepção revolucionária, centrada na superação imediata das relações capitalistas.
Sua experiência profissional no mercado financeiro também o diferencia de críticos que tratam as instituições financeiras como estruturas homogêneas e exclusivamente parasitárias. Locatelli reconhece a importância do crédito, mas questiona sua orientação institucional e distributiva.
A principal virtude de seu posicionamento é demonstrar escolhas econômicas possuírem consequências sociais e políticas, mesmo quando apresentadas como soluções tecnicamente inevitáveis. Em uma avaliação crítica como o Locatelli solicitava a mim, nas nossas conversas via Whatsapp, a principal limitação é a tendência a interpretar acontecimentos muito diferentes a partir de um conflito relativamente estável entre interesses populares e interesses do grande capital.
Essa perspectiva é esclarecedora em muitas circunstâncias, mas pode reduzir a percepção das contradições internas entre grupos empresariais, investidores, trabalhadores e instituições públicas. Também existe o risco de atribuir intencionalidade política unificada a resultantes de interações de decisões descentralizadas, descoordenadas e desinformadas umas das outras.
Uma abordagem baseada na Complexidade permitiria aperfeiçoar essa interpretação. A concentração patrimonial pode resultar de mecanismos cumulativos e interações institucionais mesmo sem coordenação consciente entre todos os seus beneficiários. É uma resultante sistêmica do capitalismo datado e localizado em determinado lugar.
Locatelli utiliza a Teoria do Valor-Trabalho (TVT)? A resposta exige distinguir inspiração marxista de utilização sistemática da TVT.
O ensaio Acumulação primitiva e o pesquisador em Marx, publicado em 2024, evidencia o interesse do autor pelas categorias marxistas. Nele, Locatelli examina a formação histórica das relações capitalistas, destacando a separação dos produtores de seus meios de produção, a expropriação, a formação do trabalho assalariado e a concentração inicial dos meios de produção.
Trata-se de uma discussão diretamente vinculada à interpretação marxista da gênese do capitalismo. A influência de Marx também aparece na preocupação com a apropriação dos excedentes econômicos, os conflitos entre capital e trabalho e a concentração da propriedade.
Entretanto, não considero a coletânea utilizar sistematicamente a TVT como fundamento de todas as suas análises. Locatelli não procura demonstrar, em cada fenômeno, como o tempo de trabalho socialmente necessário determina o valor das mercadorias. Tampouco organiza sua crítica à política monetária, à dívida pública ou aos mercados financeiros a partir de uma derivação rigorosa da mais-valia.
Seu procedimento é predominantemente histórico, institucional, empírico e político. Ele utiliza Marx como referência crítica para compreender a formação do capitalismo e as relações de classe, mas recorre também a Keynes, Furtado e outros autores para examinar mecanismos econômicos específicos. Assim, a obra possui inspiração marxista sem constituir uma exposição sistemática da TVT.
Locatelli chega a esboçar uma Teoria do Valor Financeiro (TVF)? Minha avaliação é ele identificar diversos mecanismos centrais de uma possível TVF, mas não ter chegado a organizá-los como uma teoria autônoma da dinâmica patrimonial. Existem aproximações importantes.
A primeira diz respeito ao papel dos juros na concentração da riqueza. Ao discutir a dívida pública brasileira, Locatelli reconhece os juros elevados transferirem recursos para os detentores de ativos financeiros.
Sua análise vai além da oposição simples entre banqueiros e trabalhadores, porque identifica empresários e famílias investidoras como beneficiários dos rendimentos financeiros. Isso permite compreender a acumulação de riqueza como fenômeno associado à propriedade de ativos. A questão já não é exclusivamente quem produz o excedente, mas também quem possui os direitos financeiros capazes de proporcionar rendimentos futuros.
A segunda aproximação se refere à preferência pela aplicação financeira diante do investimento produtivo. No artigo O PIB de 2015 foi bom pra você?, Locatelli apresenta uma empresária, diante da recessão e da incerteza, reduzindo investimentos produtivos e aplicando recursos em títulos públicos. A personagem obtém prejuízo na atividade empresarial e rendimento positivo em suas aplicações financeiras.
Esse exemplo é revelador. Ele demonstra a trajetória da renda produtiva divergir da trajetória dos rendimentos financeiros. Uma empresa pode enfrentar dificuldades operacionais enquanto seus proprietários preservam ou ampliam parte do patrimônio por meio de aplicações financeiras. A observação aproxima-se do Princípio da Autonomia Relativa do Valor Financeiro.
Entretanto, Locatelli utiliza o exemplo principalmente para criticar os incentivos macroeconômicos criados pelos juros elevados. Não desenvolve uma teoria da formação e valorização dos estoques patrimoniais.
A terceira aproximação se relaciona aos dividendos, recompras de ações e concentração patrimonial. O artigo do título ao livro é ainda mais próximo da problemática da TVF.
Ao demonstrar grande parte dos lucros das maiores empresas mundiais ter sido destinada aos acionistas, Locatelli identifica um mecanismo de transformação dos resultados empresariais em renda patrimonial.
A análise poderia ser expressa pela sequência: Produção -> Lucros -> Dividendos -> Renda Patrimonial -> Acumulação de Riqueza. Mas existe uma segunda dimensão, menos explorada. As recompras de ações modificam a quantidade de ações em circulação, os indicadores por ação e as expectativas de valorização dos títulos. A acumulação patrimonial, nesse caso, ocorre não apenas pela distribuição de dividendos, mas também pela reavaliação dos preços dos ativos.
Aqui aparece uma diferença importante entre a perspectiva predominante de Locatelli e a TVF. Ele se concentra na apropriação e distribuição dos lucros. A TVF procura explicar também a valorização dos patrimônios pela capitalização de expectativas sobre rendimentos futuros.
O preço de mercado de uma empresa pode aumentar muito mais rapidamente do que seu lucro corrente. Também pode cair abruptamente sem que a produção diminua na mesma proporção. Essa relativa autonomia da valorização patrimonial não constitui objeto de investigação sistemática no livro.
A quarta aproximação é o poder político visto como mecanismo de reprodução patrimonial. A principal contribuição potencial de Locatelli à TVF encontra-se no próprio título. A concentração de patrimônio gera poder político. Esse poder pode influenciar juros, tributação, regulamentação, privatizações e gastos públicos.
As instituições resultantes modificam as oportunidades de acumulação financeira. Há, portanto, um circuito cumulativo: Patrimônio -> Poder Político -> Instituições -> Rentabilidade Financeira -> Patrimônio Ampliado. Esse mecanismo poderia integrar a TVF aplicada, particularmente na análise histórico-institucional da economia brasileira.
Ele ajuda a explicar por que determinadas estruturas de remuneração dos ativos persistem ao longo do tempo. Entretanto, é necessário distinguir influência política de determinação automática: o poder econômico encontra resistências, disputas institucionais e limites macroeconômicos.
Apesar dessas aproximações, Locatelli não desenvolve alguns elementos fundamentais da TVF. O primeiro é a definição do patrimônio líquido como unidade central de análise.
Sua preocupação predominante é a distribuição da renda, a concentração da riqueza e seus efeitos políticos. Não há uma reconstrução sistemática da dinâmica dos balanços patrimoniais: PL = Ativos-Passivos.
O segundo elemento ausente é uma teoria integrada da capitalização intertemporal. Locatelli conhece os juros compostos e os instrumentos financeiros, mas não desenvolve a relação entre valor presente, expectativas de rendimentos futuros, preços de ativos e valorização patrimonial.
O terceiro é a análise conjunta dos ativos e passivos. Sua crítica ao endividamento público e aos juros elevados não se converte em uma teoria geral da alavancagem, da fragilidade financeira e da desalavancagem.
O quarto é a diversificação patrimonial. Embora reconheça diferentes proprietários de ativos financeiros, não investiga sistematicamente a composição das carteiras, a gestão dos riscos e a atuação dos investidores institucionais.
O quinto é a instabilidade emergente. Locatelli reconhece a incerteza das expectativas e os limites das previsões econômicas, mas não desenvolve uma explicação integrada dos ciclos de valorização, descolamento patrimonial, fragilidade, realização de ativos e crashes.
Por isso, considero mais adequado afirmar: César Locatelli oferece uma Economia Política da concentração da renda, da riqueza e do poder financeiro, mas não formula uma Teoria do Valor Financeiro, centrada na formação, valorização, preservação e destruição do patrimônio líquido. Sua contribuição é especialmente relevante para compreender a dimensão político-institucional da acumulação patrimonial.
A aproximação entre Locatelli e a TVF permite identificar duas perspectivas complementares. A primeira pergunta: como o poder econômico influencia a distribuição da renda e as decisões políticas? É a questão predominante em Locatelli.
A segunda pergunta: como os fluxos de renda, os direitos financeiros, as expectativas, a capitalização e a alavancagem transformam-se em estoques de patrimônio líquido ao longo do tempo? É a questão central da TVF.
A articulação das duas permite construir uma interpretação mais abrangente: Produção -> Distribuição da Renda -> Poupança e Investimento -> Capitalização -> Concentração Patrimonial -> Poder Político. O processo continua: Poder Político -> Regras Institucionais -> Oportunidades de Valorização -> Nova Distribuição Patrimonial.
Essa segunda sequência acrescenta à TVF uma dimensão institucional e política fundamental. A valorização patrimonial não depende exclusivamente de decisões individuais de investimento ou de mecanismos abstratos de mercado. Ela também depende de instituições monetárias, financeiras, jurídicas e tributárias historicamente constituídas.
No caso brasileiro, a remuneração da dívida pública, a política de juros, a estrutura tributária e o papel dos bancos públicos tornam-se componentes essenciais de uma explicação aplicada da acumulação financeira. A contribuição de Locatelli poderia, portanto, ser incorporada ao nível histórico-institucional da TVF.
Sua análise ajuda a responder uma pergunta não resolvida apenas pela teoria pura: por quais razões determinadas países desenvolvem configurações institucionais especialmente favoráveis à acumulação de certas modalidades de patrimônio financeiro?
Desigualdade S.A. e o Poder Político do Capital é uma contribuição relevante à divulgação da Economia Política crítica brasileira. Seu principal mérito está em tornar acessíveis mecanismos econômicos frequentemente apresentados como questões exclusivamente técnicas.
Locatelli demonstra juros, dívida pública, austeridade, privatizações, tributação e políticas sociais não poderem ser compreendidos adequadamente sem considerar seus efeitos distributivos e as relações de poder envolvidas.
A coletânea possui, entretanto, limitações decorrentes de sua própria natureza. Por reunir intervenções jornalísticas escritas em diferentes conjunturas, apresenta repetições, argumentos circunstanciais e níveis desiguais de aprofundamento teórico.
Além disso, algumas interpretações políticas são formuladas com convicção maior diante da evidência apresentada como possível de sustentar. Isso não diminui a relevância de seu esforço de democratização do conhecimento econômico, mas recomenda distinguir cuidadosamente demonstração empírica, interpretação teórica e posicionamento político.
Quanto à sua filiação intelectual, Locatelli combina referências marxistas, keynesianas e estruturalistas em uma perspectiva social-desenvolvimentista e democrática. A Teoria do Valor-Trabalho constitui uma referência importante, mas não organiza sistematicamente todas as suas análises.
Por outro lado, sua experiência no mercado financeiro e sua atenção à remuneração da dívida pública, à apropriação dos lucros e à concentração dos ativos permitem identificar elementos próximos de uma Teoria do Valor Financeiro.
Ele não chega, contudo, a formular essa teoria. A diferença fundamental está no objeto. Locatelli procura explicar principalmente como a concentração da renda e da riqueza produz poder econômico e político. A TVF pretende explicar como a riqueza financeira se forma, se valoriza, se concentra, se reproduz e eventualmente se destrói ao longo do tempo. São abordagens complementares: uma dele, outra minha.
A primeira esclarece a dimensão política da distribuição; a segunda procura sistematizar a dinâmica financeira da acumulação patrimonial. A síntese de ambas permitiria compreender a financeirização contemporânea não apenas como processo de valorização de ativos, mas também como transformação cumulativa da riqueza em poder institucional.
A principal lição extraída da obra de César Locatelli, para o desenvolvimento da TVF, é a acumulação patrimonial não se reproduzir apenas por mecanismos financeiros: ela também se reproduz por meio das instituições e das relações de poder, capazes de influenciar as condições de valorização dos patrimônios. Sinto muita saudade de nossos debates político-intelectuais…
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário