22 de outubro de 2026

A luta não termina nas urnas, por Marcos Verlaine

A disputa eleitoral ajudou a impulsionar a mobilização, mas a luta por melhores condições de trabalho não pode ficar subordinada às urnas
Cândido Portinari

Movimentos sociais e sindicatos intensificam luta pela redução da jornada e fim da escala 6×1 no Brasil.
Vitória de Lula pode facilitar diálogo, mas mobilização sindical deve continuar independente do resultado.
Congresso mais à direita em 2026 dificulta avanços trabalhistas; pressão social e organização são essenciais.

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A luta não termina nas urnas

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Movimentos sociais e sindical mostraram força em defesa da redução da jornada e do fim da escala 6×1. Qualquer que seja o resultado eleitoral, o desafio será manter a mobilização diante de Congresso ainda mais à direita.

por Marcos Verlaine

Os movimentos sociais e sindical se agigantaram na luta pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da escala 6×1. O que parecia distante há 2 semanas entrou no centro do debate político e mostrou que a mobilização popular pode alterar a agenda nacional.

Foi preciso a candidatura de Lula chegar ao segundo turno em desvantagem para que parte do campo progressista percebesse a dimensão do que estava em jogo. A disputa não se situa entre esquerda e direita. Mas entre democracia ou barbárie.

A disputa eleitoral ajudou a impulsionar a mobilização, mas a luta por melhores condições de trabalho não pode ficar subordinada ao calendário das urnas nem depender da conveniência dos partidos.

A lição é clara: organização, pressão social e unidade fazem diferença.

Quando trabalhadores, sindicatos e movimentos sociais se articulam, pautas históricas ganham força e passam a exigir respostas concretas do poder público. Mas esse impulso precisa continuar depois de 25 de outubro, independentemente de vitória ou derrota de Lula.

Mobilização permanente

Se Lula vencer, haverá melhores condições políticas para o diálogo com o governo e para a defesa de agenda de direitos. Isso não significa que as conquistas estarão garantidas.

A pressão empresarial, as disputas no Congresso e os interesses contrariados continuarão presentes. Apoiar governo não pode significar abrir mão da autonomia sindical nem suspender a mobilização.

Se, por outro lado, vencer o projeto da extrema direita, o cenário poderá ser ainda mais adverso. Setores desse campo político hostilizam os sindicatos e estimulam a chamada “sindicatofobia”, tratando a organização coletiva dos trabalhadores como obstáculo, e não como instrumento legítimo em defesa de direitos.

Nesse caso, o movimento sindical terá de demonstrar, na prática, sua capacidade de representar a classe trabalhadora, mobilizar as bases e resistir a retrocessos.

Não bastarão notas de repúdio ou declarações de dirigentes. Será necessário ampliar a presença nos locais de trabalho, renovar as formas de organização e aproximar a pauta sindical dos problemas cotidianos da população.

Congresso mais difícil

O desafio não se limita ao Palácio do Planalto. A composição do Congresso eleito em 2026 aponta para ambiente ainda mais adverso às pautas trabalhistas, com o crescimento da extrema direita na Câmara e no Senado. Isso torna mais difícil aprovar mudanças, proteger direitos e enfrentar iniciativas de flexibilização das relações de trabalho.

O Congresso que emergiu das urnas em outubro não é apenas mais conservador, mas também mais reacionário1. Há diferença entre um e outro. Compreender essa realidade será fundamental para impulsionar a luta renhida que começa tão logo se encerre a apuração dos votos, dia 25.

A experiência recente mostra que conquistas importantes não resultam apenas da disposição de governos ou da atuação parlamentar. Dependem também de pressão organizada, participação popular e capacidade de construir maiorias sociais. Sem mobilização permanente, até reivindicações amplamente apoiadas podem ser adiadas, desfiguradas ou abandonadas.

Por isso, é preciso preparar o movimento sindical para qualquer resultado eleitoral. A estratégia não pode se resumir a apoiar candidaturas durante a campanha e aguardar que os eleitos cumpram seus compromissos. A relação com governos e parlamentares deve ser acompanhada de cobrança, independência e organização de base.

Luta permanece e continua

A história do movimento sindical brasileiro nunca foi fácil. Direitos foram conquistados com greves, negociações, mobilizações e enfrentamentos. E a conjuntura que se desenha exige ainda mais capacidade de articulação, formação política e diálogo com os trabalhadores, especialmente os mais jovens e aqueles submetidos a jornadas exaustivas e vínculos precários.

O fim da escala 6×1 e a redução da jornada são parte de disputa maior sobre quem deve se beneficiar da riqueza produzida pelo trabalho. Não se trata apenas de horas no relógio, mas de saúde, convivência familiar, descanso, estudo e dignidade.

A eleição importa, e muito. Mas não encerra a luta de classes nem substitui a organização dos trabalhadores. Seja qual for o resultado das urnas, o movimento sindical precisará manter a mobilização, ampliar a representatividade e defender sua autonomia.

A luta não termina no dia da eleição. Começa, no dia seguinte, nova etapa.

Marcos Verlaine – Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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1 A principal diferença está na relação com a mudança e no tempo: o conservador aceita reformas graduais para manter a estabilidade das instituições, enquanto o reacionário rejeita o presente e deseja retorno ativo — muitas vezes radical ou utópico — ao passado idealizado.

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