O debate da Globo em quinze pontos, por Gilberto Maringoni
1- NUMA ELEIÇÃO EM QUE AS PESQUISAS indicam empate técnico aos 44 do segundo tempo, cada voto conta. Debates, em geral, têm pouca influência no resultado final. Mas não estamos em uma campanha “em geral”. Estamos num quadro em que um presidente com alta taxa de rejeição busca a reeleição diante de um representante de extrema-direita de pouca expressão, que encarna duas marcas significativas: A. A fulanização dessa rejeição e B. Manter a grife “Bolsonaro” como hegemônica no campo reacionário. Em pauta, um desafio cívico-existencial: sobreviveremos como país? Seremos colônia ou Estado soberano?
2- SE O PRIMEIRO TURNO pode ser classificado como um plebiscito sobre o governo em exercício, vale dizer que a segunda volta coloca em questão o vencedor da etapa anterior. Num eleitorado dividido ao meio, Flavio Bolsonaro tem 2.224.965 votos de vantagem sobre Lula, ou 1,8% do total. Assim, o resultado de um debate a 48 horas do final da votação pode ser decisivo.
3- LULA É UM EXUBERANTE ORADOR e um peixe n’água em entrevistas, mas não é um ás nos debates, apesar de se situar acima da média. É capaz de tiradas espirituosas e criativas, mas tropeça em situações de enfrentamento frontal, desde que iniciou sua trajetória em eleições majoritárias, na disputa ao governo de São Paulo, em 1982. Para quem acompanhou com relativa proximidade esse percurso, não há exagero em afirmar que o enfrentamento desta sexta, 23 de outubro, exibiu o melhor desempenho do presidente nessa modalidade em toda a sua trajetória.
4- O PRESIDENTE TINHA DIANTE DE SI um oponente tão insignificante em sua carreira quanto agressivo na conduta pessoal. Flávio Bolsonaro é como Augusto Matraga, do conto de Guimarães Rosa. “Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Estêves. Augusto Estêves, filho do coronel Afonsão Estêves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. (…). Duro, doido e sem detença, como um bicho grande do mato”. Flávio também não é nada, é filho de Jair e igualmente não tem detença. Portou-se no debate da Band, cinco dias antes, “como um bicho grande do mato”. Usou e abusou das artes malandras ensinadas por Pablo Marçal: irritar o adversário com competente jogo de cena.
5- O COMPORTAMENTO DE SE POSTAR atrás do concorrente diante das câmeras mostrou-se exagerado e pesquisas de opinião registraram o mau passo. Em lugar de Marçal, a campanha valeu-se agora dos préstimos da equipe de marketing do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). O filho do Jair teria de desempenhar outro papel na contenda final, o de estadista sereno. Um pequeno detalhe turvou sua performance: Flavio é mau ator.
6- O POSTULANTE DO PL DEMONSTROU bom desempenho no início do debate, ao tentar se colocar como sereno e maduro diante de Lula que busca a todo custo uma virada nas pesquisas. Possivelmente, o excesso de confiança levou o extremista a tropeçar na autoconfiança, exibindo números e realizações em penca, como fez o governador paulista em sua campanha para a reeleição. Lula estocou: “O candidato se parece com aqueles caras que decoram toda a matéria para o vestibular, mas não entendem o que falam”.
7- O MANO A MANO TEVE INÍCIO nos temas do reajuste do salário-mínimo, do financiamento ao agronegócio e da disputa pelo fim da jornada 6X1. Mas Lula virou o jogo diante da arrogância de Flavio, que se referiu a ele como “nove dedos”. Em tom grave, o petista exibiu sua capacidade não apenas de expor o profundo desrespeito pessoal da expressão, mas o de mostrar que a condição não era sua, mutilado aos 17 anos, mas de toda a classe trabalhadora brasileira, obrigada a exercer jornadas extenuantes para defender magros salários. E nessa exaustão é que os acidentes de trabalho acontecem. Esse distanciamento capaz de mostrar que sua dor não é pessoal, mas social, joga o peso da – falemos das coisas pelo nome – luta de classes no colo do outro lado, que se vê obrigado a pedir desculpas. A partir daí, Flavio Bolsonaro foi se desmontando.
8- AMBOS ESTAVAM TENSOS. Participar de um debate desse tipo significa suportar uma solidão extrema. O candidato se coloca diante da expectativa de dezenas de milhões de pessoas, com a responsabilidade de não escorregar, de não hesitar, gaguejar ou exibir algum lapso de memória que possa configurar recuo. O contraste se exacerba quando precisa se dirigir às multidões que estão além das câmeras e que, naquelas duas horas, são quase uma abstração em sua cabeça.
9- NÃO SEI LULA PASSOU POR EXERCÍCIOS de media-training. Trata-se de treinamento extremamente violento e invasivo, do ponto de vista emocional. O candidato sofre nas mãos dos profissionais escalados para a tarefa, que esquadrinham sua vida pessoal e profissional e o espancam sem dó, simulando ataques que sofrerá diante das câmeras. Qualquer um sai arrebentado dessas simulações, quando bem feitas.
10- COM OU SEM TREINAMENTO, Lula foi mais Lula na Globo do que na Band, onde estava travado e enquadrado para debater, enquanto o Matraga do asfalto chutava abaixo da cintura.
11- DESSA VEZ, SOLTO, CRIATIVO E FERINO, Lula percebeu o desconcerto de Flavio após o episódio dos nove dedos. Ato contínuo, investiu pesado e com presença de espírito a um só tempo. Deixou quem estava em casa com nó na garganta ao lembrar que Flavio Bolsonaro atuou como advogado do PM que assassinou a menina Ana Clara Gomes Machado, em 2021. O representante do ultraconservadorismo perdeu o prumo. Passou a gesticular e a andar de forma hesitante, acusando o golpe.
12- LULA O CHAMOU pelo que é – “miliciano” – várias vezes. Passando pelo SUS e pelo Banco Central independente, o petista chegou ao embate do esgoto, quando o outro postulante descambou para denúncias de corrupção, com acusações de parte a parte sobre honestidade e boa conduta.
13- VALE REPETIR: Flavio Bolsonaro mudou de conduta em relação ao debate anterior, assim como Lula. Se o primeiro tentou alterar sua mise em scene na troca das táticas da marquetagem, Lula bebeu de outra fonte. Parece ter se colocado diante das câmeras tonificado por dois processos maiúsculos. A. O primeiro, certamente, foi a exuberância das ruas. Embora o direitista tenha realizado marchas de apoio expressivas nos últimos dias, elas não alcançam as dezenas de maciças manifestações de apoio a Lula, que mudaram o tom da disputa, tornando-a politizada e capilarizada na sociedade. B. O segundo foi a arrebatadora iniciativa do deputado André Janones (Rede-MG) de realizar uma live com o presidente, que alcançou mais de dois milhões de participantes ao vivo.
14- CUMPRE-SE RESSALTAR que as duas iniciativas representam derrotas acachapantes da inepta direção do PT e da medíocre coordenação de campanha. Foram atropeladas pela mais formidável ascensão de massas das últimas décadas. Janones, por iniciativa individual, teve a competência de trazer a energia das ruas para as redes. Ao denominar sua iniciativa de “exército do Lula”, transmitiu a ideia de organização com missão, disciplina, engajamento e objetivos claros. A adesão passa dos 10 milhões de participantes ativos. Tacada de mestre, que deixou para trás a pregação bolsonarista na internet.
15- VAI VIRAR? LULA VAI GANHAR? Ninguém sabe. Lula venceu o debate. Por nocaute, avalia Vera Magalhães, jornalista que nada tem de lulista. A refrega mostra-se absolutamente imprevisível. O que se vislumbra é um resultado provavelmente apertado, que criará outro foco de tensões. Mas essa é outra história. Desejar um bom domingo a todos significa, nessa hora, desejar os melhores e mais duros anos do resto de nossas vidas.
Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário