24 de outubro de 2026

Adorno e o novo radicalismo de direita, por Euclides Sousa

Esse novo radicalismo de direita tem como pressuposto que as feridas sociais que promoveram o fascismo e não foram cicatrizadas.
Theodor Adorno - Reprodução

Adorno, em 1967, analisa o novo radicalismo de direita, ligado à concentração de capital e empobrecimento da classe média.
Movimentos usam nacionalismo, propaganda e medo para mobilizar massas, explorando ressentimentos e anticomunismo.
Adorno defende enfrentar esses grupos com razão, alerta social e exposição das técnicas de propaganda usadas.

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Adorno e o novo radicalismo de direita, por Euclides Sousa

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ADORNO, Theodor. Aspectos do novo radicalismo de Direita. Tradução Felipe Catalani. São Paulo: Editora Unesp, 2020 (1967)

Nessa palestra proferida por Adorno em 1967, na Universidade de Viena, a convite da União dos Estudantes Socialistas da Áustria, o tema invocado certamente preocupava em muito não só os estudantes que convidaram o grande filósofo a palestrar.

Já de início vai ao cerne do problema: esse novo radicalismo de direita tem como pressuposto que as feridas sociais que promoveram o fascismo e não foram cicatrizadas. E em primeiro lugar, talvez o fundamento de tudo, trata-se da concentração do capital, fenômeno que possibilita materialmente o empobrecimento de camadas médias (burguesas) e que gostariam, de acordo com sua consciência de classe, manter seu status social. E esses grupos, afirma Adorno, continuam a manter um ódio ao socialismo, como numa transferência de responsabilidade, desviando-a da dinâmica do capitalismo, que é a contínua concentração de capital.

Diante disso, temos ao lado desses fatores atuantes no empobrecimento e rebaixamento dessas camadas uma política macroeconômica de crescimento (keynesianismo) que produz um aumento da produtividade e uma certa inflação —devido justamente ao aquecimento da economia. Não que isso seja ruim em si, mas tem como efeito produzir um certo medo de pauperização e de desemprego tecnológico, pelo aumento da automação — que evidentemente ameaça as camadas tecnicamente escolarizadas, envolvidas diretamente no processo de produção. E há ainda o “medo do Leste”, onde o suposto baixo nível de vida aparece como um fantasma do empobrecimento.

 A partir desse quadro fundante é que os elementos de ação desse novo radicalismo vão começar a atuar, com as técnicas que o fascismo transmitiu a esses movimentos.

a) Nacionalismo pático (reminiscente, doentio). Herança do fascismo que agora ocorre em bases puramente ideológicas, sem bases reais materiais, pois o mundo então (e até hoje) está dividido em grandes blocos de nações onde os Estados desempenham um papel subordinado. Então emergem grupos, tais como alguns do setor agrário, que se sentem ameaçados economicamente por estarem inseridos nessa dinâmica de mercado. E desenvolvem grande potencial desse nacionalismo pático ao defenderem seus interesses como se fossem o de todos. E é aqui que essas manifestações assumem um caráter demoníaco, como afirma Adorno, posto que elas não são mais substanciais à situação objetiva (que seria a construção e fortalecimento do Estado).

Embora seja difundido que se trata de movimentos da pequena burguesia, especialmente rural, Adorno entende que há um espalhamento para outras, tais como pequenos comerciantes, constantemente ameaçados pelo desaparecimento de seu negócio, ao ser incorporado por maiores capitais. Mas o velho e o novo fascismo também atraem jovens, especialmente os que mantém a lembrança da derrota de 1945, na Alemanha, e que contavam com quinze anos mais ou menos. E há uma afirmação muito forte de Adorno ao dizer que o rompimento com a ideologia nazista nunca foi de fato totalmente encerrada. E não se trata apenas dos “incorrigíveis”. Pensar assim produz um certo consolo quietista, quer dizer, não falar do assunto, como se ele fosse problema de uma minoria insignificante. Para Adorno, esses movimentos fascistas são politicamente a expressão de que a democracia não se consolidou em lugar nenhum, permanecendo como algo puramente formal. Portanto, a conclusão até aqui é a de que:

“… a relação desses movimentos com a economia é uma relação estrutural que existe naquela tendência de concentração e na tendência à pauperização.” (p.51)

b) Catástrofe social. Trata-se de um quadro bastante artificial, criado por esses movimentos, de um sentimento de destruição, catástrofe geral iminente, mas que de fato desejam: o fim do mundo. Na verdade, há um fator psicanalítico mobilizador nesse desejo que os impulsiona para a ação, mas também há uma base objetiva: para quem não quer e não enxerga a transformação da base social, resta querer a destruição (Untergang) do todo [do sistema…].

c) Organização vs Isolamento. O efeito manada. Adorno tem como exemplo o surgimento do NPD (Partido Nacional-Democrático da Alemanha, em 1964), como arregimentador dessas massas de gentes. Faz parte da ideologia alemã, diz Adorno, de que não pode haver nenhum solitário, seguindo uma tendência centralista e rígida que lembra uma seita. É o que explica o papel do chamado bandwagon effect (efeito de adesão ou como denominamos por aqui, efeito de manada). Explora a angústia permanente de identidade e atrai as pessoas para se agrupar sob uma organização que vende o futuro como garantido. Uma busca de segurança coletiva, pode se dizer, calcada em um partido de direita muito peculiar — extremista, evidentemente.

d) Domínio de meios técnicos de propaganda. Esses movimentos possuem baixo nível intelectual e teórico, mas não são por isso ineficientes ou malsucedidos. Empregam os mais diversos meios para obtenção de seus fins e um deles é a propaganda, empregada quase como uma arte, com uma total cegueira dos fins. A propaganda nivela a diferença entre a realidade e os falsos objetivos — ou seja, é possível por exemplo prometer tudo por meio da propaganda, sem que os meios reais e materiais para isso estejam à disposição. A propaganda, desse modo, afirma Adorno, torna-se a substância da política. Por exemplo, na produção de catástrofes, disputas políticas espetaculares, ações extremistas e delirantes, que ao fim só alimentam o sentimento de grupo e que exigem uma reação. Há algo de forçado e controlador nisso tudo, diz Adorno. Não se pode acreditar que sejam movimentos espontâneos de massas, posto que ao fim são capturados e conduzidos pela extrema direita. Há um papel importante aqui, nesses sistemas delirantes, que é o do manipulador. Melhor dizendo, do tipo manipulador, que Adorno já havia apresentado em seu livro sobre a personalidade autoritária. São homens ao mesmo tempo frios, desprovidos de relação e inclinados à tecnologia.

 Como enfrentar esse tipo de coisas, nesse cenário todo? Não será certamente com apelos à humanidade, à ética, suplicadas a esses grupos e à sociedade em geral também, como potenciais apoiadores. Isso tem o efeito de inflamar mais ainda esses agrupamentos, pois desdenham de tudo isso como representação de medo e fraqueza. O que parece prometer algo é alertar aos potenciais apoiadores — a sociedade toda, em resumo — sobre a desgraça que pode ocorrer como consequência de uma política orientada por essas diretrizes delirantes alardeadas pela propaganda. Alertar sobre o culto da ordem, da disciplina, da fetichização militar, entre outras coisas.

e) Provincianização, perda de protagonismo político internacional e anticomunismo. Diante disso, da perda de importância no cenário político internacional, há uma reação muito emblemática que é o ódio ao setor cultural, a quem se atribui a culpa por tudo e a consequente criação de inimigos, em especial o do “comunista”, designado num conceito bastante elástico — qualquer um com certas tendências sociais ou coletivistas poderá ser chamado de comunista. E essa imago, diz Adorno, é uma força arregimentadora de luta, pois é uma palavra que assusta. Associado a isso vem o ódio aos intelectuais, especialmente aos considerados “intelectuais de esquerda”, a bête noir, conforme Adorno descreve, figura que enfim é culpada de tudo. Há um claríssimo anti-intelectualismo disseminado onde se explora um rancor arcaico, mas presente, do trabalhador manual contra o intelectual. Na falta de teoria esses ataques se voltam não contra o espírito, mas contra os portadores dele — ou seja, os intelectuais. Dessa forma, opera-se uma segregação reificada entre o sentimento e o entendimento.  Em nome de posições existenciais, amplamente disseminadas no pensamento germanófono, afirma Adorno, rejeita-se a argumentação racional e o pensamento discursivo em geral — em outras palavras, vale aquilo em que se diz “eu tenho minha opinião baseada em meu sentimento da coisa”.

f) Antissemitismo. Ainda é uma “peça no tabuleiro” diz Adorno. O sentimento de culpa é acobertado por racionalizações como a imputação de uma culpa aos judeus não revelada, oculta, do tipo: “eles deveriam ter alguma coisa a esconder“. Outra técnica muito empregada é o que Adorno chama de efeito cumulativo: escrever, por meio de matérias por exemplo, contra uma coisa ou grupo, de forma negativa, mas de um modo a não se comprometer direta e formalmente. Trata-se de alimentar, insidiosa e paulatinamente uma desconfiança crescente e que só faz mesmo aumentar o ódio ao grupo visado. São formas de insinuação altamente desenvolvidas e que um estado que se queira democrático deveria encontrar formas de combater essa atividade. Na forma da lei, simplesmente, não há meios eficientes, dada a sutileza do exercício. Aquilo que é abertamente antidemocrático desaparece nas opiniões expressamente ditas. Mas basta uma palavra mal colocada da outra parte para se acusa-la de autoritária ou antissemita.

g) Abuso da verdade: o verdadeiro a serviço do falso e como elemento da ideologia. Meias verdades ou verdades descontextualizadas servem como técnica a serviço da inverdade. Como por exemplo, dizer que antes da Guerra a economia na Alemanha ia bem e Hitler meteu-se numa guerra idiota. Ora, não se vê que toda a economia caminhava bem, mas justamente na direção da guerra. Se a guerra foi idiota, pode se concordar como verdadeiro. E que a economia ia bem, sim, também. Mas essas duas verdades juntas não um verdadeiro quadro, pois omite-se que a economia ia bem porque trabalhava freneticamente para a produção da guerra. E é a partir disso que Adorno afirma que o caráter fragmentário da ideologia trabalha para falsificar a realidade e mesmo o passado. Adorno diz que no fascismo nunca houve uma teoria bem formada, sempre havendo algo apenas subentendido — isto é, práxis sem teoria. E justamente isso que proporcionou uma grande flexibilidade a esses movimentos e que produz seus reflexos na propaganda — pode-se prometer o que quiser, fantasiar o que quiser (um lema na Alemanha nazista: “hoje nos pertence a Alemanha, e amanhã o mundo todo”, retirado de uma canção popular da época).

“A propaganda é, portanto, sobretudo uma técnica de psicologia de massas. Subjacente a isso está o modelo da personalidade fixada na autoridade. (…) A unidade reside nesse apelo à personalidade fixada na autoridade.” (p.67)

 Neste ponto Adorno retoma algumas coisas sustentadas no livro sobre a personalidade autoritária, The Authoritarian Personality publicado em 1950. Esse apelo à personalidade fixada na autoridade revela uma estrutura, que não é tornada consciente pela propaganda. Pelo contrário, é mantida reprimida, contida no inconsciente. Há um medo de ela tornar-se consciente, o que explica em grande parte o anti-intelectualismo e o ódio à psicanálise.

 Há certos truques dessa arte propagandística que são em número reduzido, mas bastante repetidos e por isso ganham força objetiva. A saber: apelo ao concretismo: trabalha-se com um grande número de dados e números que dificilmente podem ser refutados no momento, pois exigem levantamento demorado. Outro: ostentar conhecimentos que não podem ser verificados num debate ou numa reunião. Isso se relaciona à técnica de Hitler, que era bom em proferir mentiras toscas que ganhavam força devido à sua posição de autoridade. Há uma outra técnica também que é o formalismo, em especial o formalismo jurídico, que sabe encontrar vigência de leis ou cláusulas em acordos que já não valem mais. Mais outra ainda: um órgão, jornal ou revista como exemplo, falar com a autoridade oficial, como se tivessem apoio de alguma posição oficial, sendo na realidade mero veículo de propaganda.

Outro truque bastante usado é o idealismo vulgar. Trata-se de defender a necessidade de que sempre há de ter alguma ideia sobre alguma coisa, não porque ela corresponda à verdade, mas uma razão pragmática. O conteúdo da ideia, diz Adorno, é indiferente.

 Finalmente, um ponto sensível desse nacionalismo residuário é o apelo a um sentimento de discriminação, pela afirmação de que os alemães são discriminados mundo afora, pelo que fizeram. Ora, diz Adorno, o fato é que pouco sobrou de rancor no mundo, considerando justamente o que fizeram, tão rápido o horror foi esquecido. São símbolos mobilizados de maneira invertida. Ou então reclamam dos símbolos nacionais que não são respeitados, traduzindo-se em fúria e ações violentas. Trata-se de um aspecto da autonomização do símbolo em relação àquilo que se refere propriamente. Outra manifestação que se revela por meios inconscientes é o sadismo. A alegria de ver os outros, inimigos de suas ideias ou princípios, serem punidos e a exigência da pena de morte para determinados crimes. Uma grande contradição contida aqui é a de exigir pena de morte para alguns ao mesmo tempo em que se quer inocentar os assassinos de Auschwitz.

E ainda outros complexos podem ser descritos, diz Adorno, tal como a ideia do “cerne saudável”: como afirmar que inicialmente o fascismo foi bom, depois degenerou-se.

Para concluir, Adorno se encaminha para a questão da resistência a esses movimentos radicais de direita. A tática de calar-se (bush-bush) não é boa, tendo em vista que com isso a coisa possa ter ido longe demais. Não parece funcionar. Por outro lado, o melhor não é moralizar, mas apelar aos seus interesses reais, objetivos. Adorno nos remete aos resultados da pesquisa feita nos EUA, Authoritarian Personality, na qual se mostrou que:

 “…as personalidades preconceituosas, que portanto eram completamente autoritárias, repressivas, reacionárias no que concerne à política e à economia, reagem de modo totalmente diferente no momento em que se tratava de seus próprios interesses transparentes… [eram] inimigos mortais do governo Roosevelt, mas, no caso de instituições que os beneficiaram de maneira imediata, como a regulação dos aluguéis ou o barateamento dos medicamentos, o antirooseveltianismo deles terminava imediatamente e aí eles se portavam de maneira relativamente racional.” (p. 75)

 Outro momento, diz, é a “virada para dentro”, ou seja, tentar fazer tomar consciência de que todo esse complexo ideológico, de extrema direita, não tem substância nos inimigos declarados: o desafio é oferecer à sociedade em geral essa verdade. Mas também é um desafio encontrar os meios apropriados para isso. Aos grupos radicais em si, será difícil adotar essa abordagem. [Os inimigos serão sempre os outros.]

Mas Adorno oferece também algo mais prático e ao alcance de todos: apreender os truques de propaganda desses grupos, descrevê-los com precisão, tratar das implicações que trazem e se vacinar contra tudo isso.

Enfim, o problema do radicalismo de direita é muito real, embora haja bases na psicologia individual não se trata de um problema puramente ideológico. É político. E para além da batalha política ele deve ser enfrentado com a força da razão, isto é, com a verdade não ideológica. E como essas coisas vão evoluir vai depender de nossas respostas (concretas) ao problema.

Nota:

O NPD – Nationaldemokratische Partei Deustchlands (Partido Nacional-Democrático da Alemanha) de extrema direita foi fundado em 1964, tomando o lugar do Sozialistische Reichspartei, fundado em 1949 com antigos membros do partido nazista de Hitler (NSDAP), mas que foi proibido em 1959. Enquanto isso, o KPD, Partido Comunista Alemão foi proibido na RFA (Alemanha Ocidental) de 1956 a 1968. Então observem que esse interregno que vai de 1964 a 1968 deve ter sido bastante favorável ao avanço da extrema direita na Alemanha d’ oeste. As lições constantes neste livro sobre tal assunto continuam perfeitamente válidas para nosso tempo.

Euclides Roberto Novaes de Sousa – É servidor público na área da justiça. Graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP. Amante das artes plásticas, cinema, livros, mas também do bom futebol. Mantém artigos no: www.blogdoclydes.blogspot.com

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