27 de outubro de 2026

A bomba de grafite e a vulnerabilidade da infraestrutura brasileira, por Luiz Alberto Melchert

Ao explodir, transforma-se em uma quantidade incalculável de microfibras de carbono que se depositam em tudo o que for elétrico.
Reprodução

Infraestrutura elétrica brasileira é vulnerável; leis para enterrar cabos enfrentam disputas e custos elevados das concessionárias.
Bombas de grafite, armas que causam apagões ao curto-circuitar redes, foram usadas em conflitos e ameaçam a segurança nacional.
Defesa do sistema elétrico exige blindagem, cabos subterrâneos e investimentos contínuos para evitar danos e garantir recuperação rápida.

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A bomba de grafite e a vulnerabilidade da infraestrutura brasileira

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Por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Um primor de engenharia abandonado ao relento

O vento sopra, uma árvore cai sobre os fios e a luz acaba. Dentro de casa, começa a procura por uma lanterna. No comércio, vem a preocupação com as mercadorias refrigeradas. E, a cada novo apagão, volta a pergunta: por que essa fiação ainda não está debaixo da terra?

A discussão atravessa gerações. Nas cidades do pós-guerra, os fios suspensos alimentavam bondes e ônibus elétricos. Essa necessidade não passou de pretexto para a manutenção da fiação aérea. Os postes assumiram outras funções ao longo do tempo. Passou a suportar a rede telefônica e, posteriormente, a distribuição de TV a cabo.

Décadas depois, enterrar os cabos virou lei. Em São Paulo, a Lei municipal nº 14.023, de 2005, determinou que as empresas que operavam com cabeamento tornassem subterrânea a rede existente. Sua regulamentação previu a execução de até 250 quilômetros lineares de vias por ano, conforme programa municipal, com os custos atribuídos às empresas responsáveis. Lei e regulamentação.

No Rio de Janeiro, o artigo 326 do Plano Diretor de 2011 estabeleceu prazo de cinco anos para que as concessionárias de eletricidade, telefonia e televisão a cabo instalassem sua fiação no subsolo, eliminando a rede aérea. A norma também previa multa pelo descumprimento. A Light contestou a exigência e obteve, em 2013, uma liminar no Supremo Tribunal Federal suspendendo a decisão que a obrigava a realizar a substituição. A controvérsia envolvia os limites da competência municipal para impor obrigações a uma concessionária de serviço federal. Registro do STF.

Entre a obrigação legal e a obra executada existe uma disputa sobre responsabilidades sobre custos e quem pode determinar os investimentos.

Por trás dessa controvérsia há uma questão econômica. Enterrar a rede exige planejamento, obras e desembolso certo. Já as interrupções provocadas por árvores, ventos e tempestades entram no cálculo das probabilidades: quando ocorrerão, quais danos causarão e quanto custarão os reparos, as compensações aos consumidores e as eventuais multas.

Se o custo esperado para remediar parecer inferior ao para prevenir, procrastinar será vantajoso para a concessionária. Essa atuária precisa ser considerada ao avaliar as obrigações das empresas e a eficácia da fiscalização.

É a população que paga a conta. Isso inclui alimentos perdidos, trabalho interrompido e estabelecimentos fechados. Nos serviços essenciais, as consequências podem ser ainda mais graves: hospitais passam a depender de geradores para manter equipamentos e atendimentos vitais; delegacias de polícia podem perder acesso a sistemas de informação e ter suas comunicações prejudicadas; abastecimento de água e semáforos deixam de funcionar. A falta de energia compromete a saúde, a segurança e a logística da cidade, o que se agrava com a eletrificação da frota.

O desembolso da prevenção é certo. O momento da próxima falha é incerto. Essa conta não mitiga o risco nem o custo social.

O problema é muito mais sério dos de simples fios pendurados sobre nossas cabeças.

A geração de energia brasileira ainda é majoritariamente hidráulica. Em 2025, As hidrelétricas responderam por 51,7% da geração nacional, segundo a Empresa de Pesquisa Energética. Muitas delas ficam longe dos grandes centros consumidores. Para fazer a energia chegar ao destino, o país depende de extensas linhas de transmissão, conhecidas como “linhões”, e de uma operação rigorosamente coordenada. Fonte: EPE.

A expansão da geração eólica e solar requer equivalente expansão da infraestrutura de transmissão. Os melhores ventos e as condições mais favoráveis à produção fotovoltaica não estão necessariamente próximos dos lugares que mais consomem eletricidade.

A diversificação das fontes amplia as possibilidades de abastecimento, mas também aumenta a rede de transmissão e a complexidade da operação. O próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico aponta a crescente disputa pela capacidade de transportar a energia produzida no Norte e no Nordeste até os grandes centros consumidores do Sudeste. A expansão dessas fontes reforça a importância dos grandes corredores de transmissão e de sua proteção. Fonte: ONS.

Ao final de 2025, o Brasil contava com aproximadamente 182 mil quilômetros de linhas de transmissão — uma extensão equivalente a quatro voltas e meia ao redor da Terra. Somente naquele ano, foram acrescentados quase 5.600 quilômetros. É nessa escala que precisamos pensar o abastecimento elétrico brasileiro: uma imensa infraestrutura que precisa ser continuamente operada, inspecionada, mantida e, principalmente, protegida. Fonte: EPE; proteção essa que foi posta à prova com os ataques às torres de transmissãode durante a tentativa de golpe em 2023.

Para compreender a dimensão desse desafio, basta olhar para Roraima. Em setembro de 2025, o estado passou a integrar o Sistema Interligado Nacional, com a energização do Linhão Manaus–Boa Vista. Era o último estado brasileiro sem conexão com essa rede. Uma ligação que, no mapa, pode parecer apenas um traço, porém, de grande valor geopolítico, pois o estado deixou de importar energia da Venezuela. A obra exigiu uma obra monumental: aproximadamente 725 quilômetros de extensão, 1.390 torres e investimento de R$ 3,3 bilhões. Grande parte das torres foi projetada para sustentar os cabos acima da copa das árvores, reduzindo os impactos sobre a floresta. Fonte: Ministério de Minas e Energia.

O empreendimento atravessa nove municípios do Amazonas e de Roraima e a Terra Indígena Waimiri-Atroari. Sua implantação envolveu engenharia, licenciamento ambiental, diálogo com as comunidades indígenas e medidas de compensação. Entre o leilão, realizado em 2011, e a interligação, em 2025, transcorreram quatorze anos. A conexão levou cerca de 209 mil unidades consumidoras ao sistema nacional, embora algumas localidades permaneçam atendidas por sistemas isolados. Fonte: EPE.

Essa é a escala concreta da integração elétrica brasileira. Cada torre precisa ser instalada; cada trecho, inspecionado; cada equipamento, mantido; cada defeito, localizado e reparado. Em centenas de quilômetros pela Amazônia, o acesso das equipes e o transporte de materiais fazem parte do próprio desafio de assegurar o fornecimento.

A obra amplia a segurança energética de Roraima e suas possibilidades de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, acrescenta à infraestrutura nacional um extenso conjunto de instalações cuja conservação e proteção precisam acompanhar sua importância. Construir a ligação é uma conquista. Mantê-la funcionando é uma questão de segurança nacional.

A integração nacional também permite aproveitar as diferenças entre os regimes de chuva. Os períodos de maior disponibilidade de água não coincidem em todas as regiões: a energia produzida onde os rios estão mais cheios ajuda a atender regiões em situação menos favorável. Há complementaridade entre as bacias, embora não exista uma alternância plena entre chuva no Sul e seca no Norte, ou vice-versa.

O Sistema Interligado Nacional permite compartilhar esses recursos e combinar a geração hidrelétrica com outras fontes. Uma região pode receber energia de outra ou enviar seus excedentes, conforme as condições de geração, consumo e capacidade das linhas. Fonte: ONS.

Para isso, é necessário manter continuamente o equilíbrio entre a energia produzida e a consumida, respeitando os limites dos equipamentos. Os sistemas de proteção devem identificar defeitos e isolar os trechos afetados antes que uma perturbação se espalhe.

Um curto-circuito pode provocar o desligamento de uma linha. Com isso, a energia que passava por ela precisa encontrar outros caminhos na rede. Se esses caminhos não suportarem a nova condição, ou se houver instabilidade, outros desligamentos podem ocorrer em sequência. É o efeito dominó: uma ocorrência localizada pode evoluir para um apagão de grandes proporções.

O Brasil já viveu uma situação assim. Em 21 de janeiro de 2002, o rompimento de um cabo na linha de transmissão entre Ilha Solteira e Araraquara, no interior paulista, iniciou uma perturbação que se espalhou pelo sistema. Uma atuação incorreta dos equipamentos de proteção desligou também o outro circuito da linha, criando uma falha dupla que a rede não suportou. O resultado foi um apagão que atingiu dez estados e o Distrito Federal. Um defeito localizado havia se transformado em uma interrupção de alcance regional, demonstrando que a segurança do conjunto depende tanto da integridade dos equipamentos quanto do funcionamento correto das proteções. Fonte: histórico do ONS.

Esse desfecho não é inevitável. O sistema é planejado para suportar a perda de um componente sem interromper o fornecimento. As proteções existem justamente para conter as falhas. O risco aumenta quando várias ocorrências se combinam ou quando a perturbação ultrapassa a capacidade de resposta prevista. Fonte: ONS.

Assim, a confiabilidade do fornecimento depende de toda uma cadeia: das usinas às linhas de transmissão, das subestações aos cabos que chegam à nossa rua. A exposição da rede aérea às intempéries é uma parte visível dessa vulnerabilidade. As grandes distâncias e a interdependência entre instalações acrescentam desafios menos perceptíveis para quem apenas aciona um interruptor.

Proteger essa cadeia significa preservar o funcionamento de hospitais, delegacias, sistemas de abastecimento de água, comunicações e atividades produtivas. É nesse ponto que a discussão sobre qualidade do serviço e prevenção de apagões passa a alcançar uma questão maior: a segurança nacional.

O sonho do país sem contencioso acabou

Trump, na ONU em 21 de setembro de 2026, fez um discurso diametralmente oposto ao de Lula. Embora o Canadá seja o maior país das Américas, Brasil e Estados Unidos são os grandes protagonistas; o primeiro no hemisfério sul, enquanto o segundo possui protagonismo mundial indiscutível; nas Américas, porém, é o polo oposto ao Brasil. A vociferação do presidente estadunidense não poderia ser mais eloquente na pretensão de reviver a bipolaridade que, durante sua juventude, organizava as relações internacionais. Ocorre que cinquenta anos se passaram; a Rússia se refez do baque sofrido com o desmanche da União Soviética, a China deixou de ser terceiro mundo, cm seu PIB ultrapassando o dos Estados Unidos em paridade do poder de compra em 2014. Ainda em poder de compra, o PIB da Índia saltou para o terceiro lugar, mantendo franca ascensão. Finalmente, o Sul Global passou a possuir, ainda em paridade do poder de compra, 60% do PIB Mundial. Resta ao imperador tentar, assim como fez Juliano em Roma, evitar a ruptura das estruturas de poder. Isso se fez em meio a uma série de ameaças, cujos alvos principais foram México e Brasil que, somados, possuem 60% do PIB da América Latina, tornando-se o par antagônico económico e político de um império em decadência.

Foi na Venezuela que se consumou essa agressão. Em 3 de janeiro de 2026, forças estadunidenses invadiram Caracas, sequestraram Nicolás Maduro e o exilaram nos Estados Unidos. O que se apresentaria como episódio isolado ganhou nova dimensão no discurso de Trump perante a ONU. Ao mencionar a operação, o presidente chamou-a textualmente de guerra e, ao falar da imposição que deu aos Estados Unidos controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas venezuelanas, resumiu a lógica empregada numa frase clássica: “ao vencedor pertencem os despojos”. A própria Casa Branca descreveu a afronta como tomada de direitos de governança, propriedade econômica e retirada garantida de petróleo aos Estados Unidos. Não se trata, portanto, apenas de retórica dirigida a um adversário, mas da exposição pública de uma concepção de poder para o hemisfério. Fontes: discurso de Donald Trump à 81ª Assembleia Geral da ONU, 22 set. 2026; Casa Branca, 2 set. 2026.

O precedente histórico é incômodo porque não é novo. A guerra hispano-americana terminou com a derrota da Espanha e a retirada de sua soberania sobre Cuba. A ilha tornou-se formalmente independente em 1902, mas a Emenda Platt condicionou essa independência, reservando aos Estados Unidos o direito de intervenção e convertendo a soberania cubana em mero simulacro. Porto Rico permaneceu diretamente sob julgo estadunidense. Os instrumentos jurídicos usados hoje na Venezuela são outros, mas a lógica invocada por Trump é surpreendentemente semelhante: ele chamou a agressão de guerra, arvorou-se vencedor e apropriou-se do que chamou de despojos. É nesse sentido que a situação venezuelana pode ser comparada à Cuba da Emenda Platt: preservam-se instituições locais títeres, enquanto todas as decisões sobre recursos e poder passam à tutela externa. Para Brasil e México, a comparação interessa menos como classificação jurídica da Venezuela do que como advertência sobre como o governo estadunidense passou a planejar sua atuação no continente.

Cabe aos dois países, México e Brasil, conscientizarem-se de que a defesa nacional é um tema transfersal, tendo que permear as políticas públicas em todos os seus âmbitos, especialmente nos que tangem a infraestrutura nacional. Ao contrário do México, que perdeu metade de seu território no século XIX, o Brasil só sofreu uma real ameaça existencial na Guerra do Paraguai e, seu saldo em quilômetros quadrados cresceu desde sua independência. Esse isolamento, porém, tornou-se sua maior fraqueza, pois criou uma crença de que seria grande demais para ser invadido e forte demais para ser ameaçado. Desde o sequestro de Maduro e a anexação da Venezuela como protetorado, os Estados Unidos passaram a ter fronteira terrestre conosco, mesmo que virtual, como se encontra em artigo deste autor. Isso não deixa de ser uma ameaça como a sentida pelos mexicanos ao longo dos últimos dois séculos, tamanha é a disparidade do arsenal bélico.

A consciência da necessidade de investimento em defesa acomete o governo brasileiro em ondas. Desde a II Guerra, tivemos tempos de preocupação e outros de verdadeiro desleixo, que beira o conformismo frente às possíveis ameaças. Não se pretende aqui traçar uma história da indústria de defesa no Brasil. Basta lembrar que, nos anos 1980, a indústria bélica chegou a estar entre as dez maiores exportadoras do Brasil, considerando-se a Engesa, a Avibras e nossa indústria naval. Seguiu-se um período de desindustrialização de que o setor não foi imune, seja pelas condições de câmbio e taxa de juros, seja pela adoção das regras do Consenso de Washington que asfixiou o investimento público com a propalada austeridade fiscal. Houve uma chama de esperança com os governos Lua e Dilma, seja pelo investimento na Base de Alcântara, seja pelo projeto do submarino nuclear. Essa chama apagou-se com o golpe que derrubou Dilma e com o recrudescimento da austeridade fiscal e a aniquilação dos investimentos em defesa dos governos Temer e Bolsonaro, a ponto de a indústria de armamento leve, como a taurus, sair do Brasil e empresa de foguetes, como a Avibras, beirarem a falência.

Isso, porém, não foi o mais grave, a austeridade fiscal ajudou a destruir nossa infraestrutura e, sem ela, não há logística nem reposição de material bélico, por melhor que seja a indústria.

Como provocar um apagão

As armas mais devastadoras não são necessariamente atômicas ou termobáricas. Não é preciso matar gente para destruir um país. Matar gente, na verdade, serve para quebrar o espírito da população e fazê-la parar de lutar. Isso não é dissuasão, porque a dissuasão é forçosamente preventiva. Visa impedir que o oponente comece a lutar. As armas mais eficientes são as que devastam a infraestrutura do inimigo, impedindo que ele lute, no que se convencionou chamar de guerra de atrito.

O melhor exemplo de arma estratégica é a bomba de grafite. Ela é parecida com uma granada, só que, em vez de puro aço em gomos  para fragmentar e causar o maior número de baixas, ela á basicamente feita de grafite que, ao explodir, transforma-se em uma quantidade incalculável de microfibras de carbono que se depositam em tudo o que for elétrico. É que o grafite é um excelente condutor e provoca curtos-circuitos em massa. A camada de grafite que se deposita sobre a fiação torna condutiva qualquer fonte de corrente de fuga. Em termos menos técnicos, se houver um ponto de fragilidade na capa de um fio e ele ficar cheio de grafite, é como o isolante perdesse totalmente seu efeito. Isso queima transformadores, destrói chaves, explode geradores, para o metrô, deixando uma cidade inteira inoperante em segundos. Essas bombas são pequenas e podem ser transportadas por foguetes ar-terra, como em 1999 na Sérvia; terra-terra, como os mísseis  Tomahawk usados contra o Iraque em 1991; ser levadas por  drones; atiradas por canhões ou lança-granadas. Elas não têm poder destrutivo mecânico, mas causam o caos elétrico: 70% da rede sérvia e 85% da rede iraquiana ficaram inoperantes no primeiro dia de batalha.

Como são lançadas

Os vetores capazes de transportar bombas de grafite incluem aeronaves tripuladas, mísseis de cruzeiro, drones e veículos terrestres. Entre as aeronaves, além do F-117A, o bombardeiro B-2 Spirit e o caça F-35 são apontados como plataformas compatíveis com o dispensador CBU-94/B. Taiwan planejou adaptar caças F-16 para lançar essas armas. De modo geral, a literatura militar indica que vários tipos de aeronaves de combate podem ser usados, especialmente com munições guiadas por GPS ou navegação inercial.

Nos mísseis de cruzeiro, o Tomahawk foi o caso mais documentado. Taiwan também considerou usar seu míssil Hsiung Feng-2E, com alcance de aproximadamente mil quilômetros, como vetor para bombas de grafite. Drones e veículos aéreos não tripulados chegaram a ser avaliados para testes, mas a baixa velocidade os tornaria vulneráveis em combate real. Veículos terrestres também podem servir como plataforma: um sistema chinês divulgado recentemente tem ogiva de 490 quilos, alcance de 290 quilômetros e libera 90 submunições que espalham filamentos de carbono.

As alegações na guerra da Ucrânia

Em abril de 2026, o quartel-general da defesa da autoproclamada República Popular de Donetsk e a agência estatal russa TASS afirmaram que forças ucranianas usaram bombas de grafite em um ataque a instalações energéticas na região de Donetsk na noite de 5 de abril. Um especialista militar russo, Yuri Knutov, declarou que as bombas teriam sido fornecidas secretamente à Ucrânia pelos Estados Unidos por meio da OTAN. Ele também especulou que os americanos estariam testando o armamento na Ucrânia antes de usá-lo contra o Irã.

As fontes russas apresentaram como prova imagens de destroços de munições não identificadas, com design incomum, supostamente encontradas em drones ucranianos dos tipos FP-1 ou FP-2. Não há, no entanto, marcações ou identificadores confirmados nessas imagens. Veículos de imprensa e de análise de defesa, como Defense Express e Euromaidan Press, reportaram as acusações, mas as tratam explicitamente como alegações não verificadas, destacando a falta de provas concretas.

A especulação sobre o Irã

No caso do Irã, a situação é ainda mais incerta e baseada em especulação e relatos não oficiais. Analistas militares especulam que os Estados Unidos poderiam usar bombas de grafite para atingir a infraestrutura elétrica iraniana sem causar destruição física permanente. Alguns artigos mencionam relatos de que Israel teria usado bombas de grafite pela primeira vez contra alvos no Irã, como a usina de processamento de urânio de Ardakan. Outros veículos chegam a citar uma suposta declaração do presidente Donald Trump que faria referência a esse tipo de arma.

O ponto crucial é que, mesmo entre as fontes que noticiam a especulação, há admissão explícita de que não há provas de que bombas de grafite tenham sido usadas contra o Irã. A análise do Defense Express é clara ao afirmar que atualmente não há prova de que essas bombas tenham sido usadas em ataques ao Irã.

O apagão de Caracas

A operação de 3 de janeiro acrescentou um dado especialmente importante a essa discussão. Enquanto as forças estadunidenses avançavam sobre Caracas, parte da cidade ficou sem energia e equipamentos dependentes da infraestrutura elétrica e de comunicações deixaram de operar. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, afirmou que diferentes efeitos, provenientes inclusive dos comandos Espacial e Cibernético, foram sobrepostos para abrir caminho à operação. Trump, por sua vez, declarou que as luzes de Caracas haviam sido apagadas graças a uma determinada capacidade dos Estados Unidos. O Royal United Services Institute, ao analisar posteriormente a operação, menciona explicitamente interferência eletrônica, bombas de grafite e possível ação cibernética como efeitos combinados, mas ressalva que as informações públicas não permitem determinar qual meio produziu cada resultado. Fonte: RUSI, 14 jan. 2026.

Não há, portanto, comprovação pública de que uma BLU-114/B tenha sido empregada na Venezuela, e provavelmente será difícil separar, a partir de fontes abertas, os efeitos de uma operação deliberadamente multifacetada. Isso não autoriza afirmar que a bomba de grafite apagou Caracas, mas tampouco permite retirar o episódio desta análise. O fato comprovadamente relevante para a defesa brasileira é que a neutralização da infraestrutura elétrica integrou a preparação do campo de batalha. A dúvida recai sobre o meio empregado, não sobre o efeito pretendido.

Convém ainda não confundir a bomba de grafite com uma arma cinética apenas porque sua dispersão pode recorrer a uma pequena carga explosiva. A energia que produz o dano principal não é a onda de choque nem o impacto do artefato contra o alvo. As fibras de carbono alteram as condições elétricas da instalação, criam caminhos condutores onde deveria haver isolamento e provocam curtos-circuitos e arcos voltaicos. Transformadores, chaves e isoladores podem ser destruídos pela energia da própria rede atacada. O artefato chega fisicamente ao alvo, mas entrega ao sistema elétrico a tarefa de produzir seu próprio dano. Essa característica ajuda a explicar por que a proteção da infraestrutura não pode ser pensada apenas contra bombardeios convencionais.

Quem produz

A capacidade de produzir bombas de grafite é restrita a um pequeno grupo de países. Os Estados Unidos são o pioneiro e principal produtor, com o modelo BLU-114/B lançado pelo contêiner CBU-94/B. A China também confirmou desenvolvimento, divulgado publicamente por sua emissora estatal CCTV e atribuído à estatal CASC, com um sistema lançado de veículo terrestre, alcance de 290 quilômetros, carga útil de 490 quilos e liberação de 90 submunições que dispersam filamentos de carbono.

A Coreia do Sul desenvolveu sua própria bomba de grafite por meio da Agência para o Desenvolvimento de Defesa, no programa de ataque preventivo Kill Chain, com participação das empresas Poongsan, LIG Nex1 e Hanwha Aerospace. O país declarou possuir todas as tecnologias para construí-la. A Coreia do Norte anunciou em abril de 2026 ter testado uma bomba de fibra de carbono, chamando-a de ativo especial para seu arsenal, sob supervisão da Academia de Ciências de Defesa e da Administração de Mísseis, embora não haja detalhes públicos sobre produção em massa.

Israel é mencionado em relatórios por possível uso de bombas de grafite, possivelmente similares às BLU-114/B americanas, mas não há confirmação oficial de produção doméstica. O Reino Unido declarou em 1999 que suas Forças Armadas não possuíam tais armas e não tinha detalhes sobre custos, indicando que, na época, não as produzia nem operava.

Curiosamente, os governos não reconhecem, ou, se reconhecem, não divulgam o valor estratégico da rede de geração e distribuição de energia. É que não há outro país no mundo com igual grau de conexão e interoperabilidade como o Brasil. Em países  insulares como o Japão, as principais ilhas costumam ser autônomas nesse quesito; ao passo que outros países optam por descentralizar a geração para minimizar as perdas no transporte. Os Estados Unidos contam com três redes: Costa Leste, Costa Oeste e Texas. Assim, um ataque com bombas de gafite, por incômodos que seja, tem efeito localizado, ao contrário do que sugere nosso sistema elétrico que é, antes de tudo, um primor de engenharia funcional e um alvo atraente para eventuais atacantes.

As linhas de transmissão são particularmente vulneráveis porque transitam energia em altíssima tensão, ultrapassando 1 MV em corrente contínua sobre fios nus. A simples passagem das fibras de carbono entre os fios é suficiente para gerar um arco voltaico capaz de derrubar as chaves a milhares de quilômetros, causando um apagão de dimensões continentais, como o presenciado no início dos anos 2000. As estações inversoras, por sua vez, são blindadas para evitar fuga de corrente, ou mesmo causar danos por radiação, mas não são resistentes a um ataque de saturação de carbono. Nâo dá para imaginar o que aconteceria com as usinas nucleares brasileiras, que se encontram a beira-mar. Em quanto tempo seriam desligadas? Em quanto tempo seriam religadas? Asarmas não são eficientes pelo que destroem, são eficientes pelo tempo em que o inimigo fica fora de combate.

Até agora, só falamos do estrago inicial, enquanto o estrago secundário como perda de alimentos, paralisação de hospitais, queda de sistemas de segurança e aniquilamento da logística, agravam-se com a demora na recuperação da estrutura. As bombas de grafite têm efeito recorrente, pois o vento pode recobrir com fibras o que se acabou de limpar, reiniciando o processo destrutivo. A eletrificação da frota, cujo consumo é inimaginável perante os padrões atuais, a coisa ficaria ainda mais grave, haja vista que não haveria energia para recarregar as baterias. Os data centers também seriam afetados, porém, em período mais dilatado, pois costumam ter geradores próprios de grande capacidade.

Isso tudo leva a crer que, enquanto as empresas, ao recusarem-se a enterrar os cabos e o judiciário se limitar a ver a coisa sob o ponto de vista comercial, deixando toda a infraestrutura vulnerável, seja por ignorância ou má fé, são, no mínimo, levianos; quando não verdadeiros traidores da pátria.

Enterrar os cabos como segurança nacional

As bombas de grafite não seriam o único vetor de ataque contra a rede elétrica num país do tamanho do Brasil. Seriam, provavelmente, destinadas às grandes cidades, enquanto o dominó dos sistemas de distribuição integrada faria o resto do trabalho. Isso não é o mais importante. O que importa é prolongar o período de recuperação. Quanto mais dilatado for, maior será a liberdade para o invasor manter-se no ataque. A Venezuela é prova disso. Por mais que a eletricidade tenha voltado em minutos em determinadas áreas de Caracas, nas instalações militares,  os reparos foram lentos e penosos, especialmente considerando que as sanções econômicas já teriam prejudicado indelevelmente a infraestrutura. Nâo se pode permitir que o mesmo aconteça aqui.

O sistema elétrico, como se encontra, é o retrato da vulnerabilidade. Enterrar cabos e transformadores reduz a probabilidade de danos, assim como a blindagem de transformadores, subestações, cabines de força e todo o o aparato cuja contaminação por microfibras de grafite possa danificar permanentemente. Também se torna imprescindível tornar o equipamento urbano de baixo consumo o menos dependente possível da rede. Iluminação pública, semáforos, sistemas de sinalização e tudo o que puder ser alimentado por painéis solares e baterias precisa ser substituído o mais brevemente possível. Instalações críticas como hospitais, presídios, instalações militares e indústria bélica precisam ser reprojetados para que se possam tornar omais próximo de estéreis que a tecnologia permitir. É uma mudança de mentalidade, é um amadurecimento social que somente a consciência da ameaça existencial constante pode promover. É esse amadurecimento que nos ensina que os danos são inevitáveis, mas que se podem minimizar, desde que a sociedade trabalhe ombro a obro, sem contendas que possam quebrar nossa vontade por dentro.

Tudo começa por reconhecermos que a ameaça existencial é concreta e constante, que os tempos do país sem contencioso ficaram para trás e que os investimentos com segurança nacional não podem ser encarados como despesa ordinária, porém, como parte de um esforço de guerra que, mesmo que não formalmente declarada paira sobre nossas cabeças como uma eterna nuvem negra. O que era tido como paranoia, tornou-se ameaça real; o que era teoria da conspiração transformou-se em conspiração declarada, resta-nos pôr a tranca na porta

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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