A Bancada Ruralista depois de 2026: Geografia, Dívida e Socialização de Perdas, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
1. O quadro eleitoral
No imediato pós-eleição de 2026, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) emerge como um dos blocos mais organizados do Congresso. O balanço aponta que mais de 70% dos integrantes que tentaram a reeleição foram vitoriosos. Na Câmara, 174 deputados da FPA conseguiram novo mandato. No Senado, seis senadores da bancada se reelegeram, mas o ganho decisivo veio com a migração de 17 deputados federais da FPA para o Senado.
A composição anterior era de 345 membros — 297 deputados e 48 senadores. A projeção para a legislatura que se inicia é manter esse patamar, com possibilidade de chegar a 330 deputados e 47 a 55 senadores. O poder da bancada deslocou-se da Câmara para o Senado, casa responsável pela revisão de grandes temas e pela definição de PECs, o que amplia sua capacidade de reagir a decisões do Supremo Tribunal Federal em pautas como terras indígenas e licenciamento ambiental.
Os 70% de reeleição referem-se apenas aos membros da FPA que disputaram novamente. Cerca de 123 cadeiras ocupadas por ruralistas na legislatura anterior ficaram vagas. Entre os 178 deputados federais de primeiro mandato, parte significativa tem perfil ruralista — produtores, ex-secretários de Agricultura, empresários do setor —, mas a adesão formal à FPA só ocorre no início da legislatura. A composição definitiva, portanto, ainda está em aberto.
2. A geografia do poder ruralista
A força da bancada não é homogênea. Ela se concentra em um núcleo duro no Centro-Oeste e no Matopiba, com ramificações de peso em Goiás, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. Em outros estados, a representação é marginal ou pouco expressiva.
O núcleo duro inclui Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Tocantins, onde a maioria absoluta dos deputados é ligada à FPA. A Bahia, o Maranhão e o Piauí contribuem com bancadas relevantes, impulsionadas pela expansão agrícola no oeste baiano, no sul maranhense e no cerrado piauiense. Minas Gerais, em números absolutos, já foi a maior bancada ruralista do Congresso, com proporção que chegou a 60% dos deputados federais do estado.
O Rio Grande do Sul não é apenas uma ramificação: é um dos pilares da FPA. Nas eleições de 2026, dos 20 parlamentares gaúchos ligados à FPA, 17 foram eleitos. Na Câmara, 13 dos 31 deputados federais eleitos no estado são da FPA. A bancada gaúcha é consolidada e em expansão.
Essa geografia acompanha a fronteira agrícola. O avanço gaúcho e paranaense pelo Cerrado é um dos fenômenos mais documentados da agricultura brasileira. O oeste do Paraná, o Mato Grosso do Sul, o Matopiba e o norte de Minas foram ocupados por descendentes de gaúchos e catarinenses, com soja, milho, pecuária, cooperativismo e logística. A transposição do São Francisco pode abrir novas frentes no semiárido de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, mas o ritmo dependerá de energia, crédito, licenciamento, assistência técnica e mercado. Água sozinha não cria fronteira agrícola. O ganho tende a ser por manchas regionais, não por hegemonia estadual.
3. A estratégia social gaúcha
A expansão gaúcha não é apenas coragem. É um sistema de reprodução social e patrimonial. A política de raiz descrita por quem atua no agronegócio há décadas é clara: para não dividir as terras no Sul, apenas o filho mais velho fica. O segundo vai abrir fazenda. O terceiro ganha um caminhão para formar frota. Assim, a família não fragmenta a propriedade original e capitaliza os excedentes em outras atividades: produção, logística, armazenagem, transporte, comércio e serviços.
O caminhão não é prêmio de consolação. É capital que não ficou na terra. Em vez de dividir a fazenda, a família divide funções econômicas. Um filho segura a base no Sul; outro desbrava o Cerrado; outro monta frota, transportadora, armazém, revenda. O CTG, nesse arranjo, não é apenas clube recreativo. É instituição de confiança, rede de reciprocidade e capital social convertido em capital econômico.
A máxima que corre pelo interior sintetiza o mecanismo: um gaúcho é um ser solitário; dois gaúchos montam um CTG; três gaúchos quebram a agência do Banco do Brasil. A hipérbole revela o traço essencial: eles não têm medo de dívida. Em agronegócio, dívida não é vergonha, é motivo de orgulho. Sem crédito não se compra terra, não se mecaniza, não se estoca, não se espera o ciclo da safra, não se escala. O Banco do Brasil é o parceiro histórico.
4. Dívida, inadimplência e poder de renegociação
Em finanças, inadimplência é categoria técnica, não moral. Um produtor pode estar tecnicamente adimplente porque a dívida foi rolada, renegociada, securitizada ou alongada. O banco também tem interesse em não declarar default, porque precisa provisionar e reconhecer perda no balanço. Solvência, muitas vezes, não significa ser bom pagador, mas sinal de poder de renegociação.
A notória fama dos gaúchos como maus pagadores não se sustenta no índice de inadimplência. Ela vem da percepção de que, quando o prejuízo é grande, o setor tem poder político suficiente para forçar uma renegociação que não sege o padrão de mercado. O risco privado vira dispêndio público via fundos constitucionais, equalização de juros, securitização, renúncia fiscal e crédito subsidiado. A bancada ruralista é o seu agente político.
Relevante não é saber se Fulano é caloteiro?. A questão é saber quem paga a conta sempre que a dívida não é honrada?
5. A linhagem histórica da socialização de perdas
A securitização da dívida agrária no Brasil não foi inventada pelos gaúchos. É um mecanismo de mais de um século.
O Convênio de Taubaté, de 1906, é o marco histórico. Diante da superprodução e da queda dos preços do café, cafeicultores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais pressionaram o governo a comprar os excedentes com empréstimo externo de 15 milhões de libras esterlinas, financiado pelo aumento do imposto de exportação. O risco privado da superprodução foi transferido para o Estado. A dívida externa resultante só foi quitada em 1945, graças ao superávit acumulado na II Guerra.
O setor sucroalcooleiro repetiu o processo décadas depois. O Instituto do Açúcar e do Álcool funcionava como avalista das dívidas dos usineiros junto a credores internacionais. Quando os usineiros não pagavam, o IAA honrava a dívida. O pagamento dos débitos junto a entidades governamentais era postergado indefinidamente, com processos de cobrança engavetados. Esse arranjo ficou conhecido como “golpe do aval”. Muitos usineiros sequer reconheciam as dívidas quando o governo tentou cobrá-las judicialmente, e muitos tiveram seus débitos perdoados por decretos presidenciais.
A grande virada institucional veio em 1995, quando a bancada ruralista — então com cerca de 140 deputados — negociou diretamente com o governo a Lei da Securitização, a Lei nº 9.138/1995. Pela primeira vez, a socialização de perdas deixava de ser exceção e se tornava política pública permanente. O mecanismo se desdobrou em programas complementares, como o PESA, Programa Especial de Saneamento de Ativos, e o RECOOP, para grandes cooperativas, ambos de 1998. A lógica é sempre a mesma: converter dívidas privadas em títulos públicos, alongar prazos, reduzir juros e transferir o custo para o Tesouro Nacional.
6. O paroxismo gaúcho
Os gaúchos não inventaram a securitização. Levaram-na ao paroxismo.
A Farsul, Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul, propõe a securitização de R$ 171 bilhões em dívidas estressadas, montante que, segundo a própria entidade, pode dobrar em doze meses. As condições exigidas são de um privilégio que nenhum outro setor da economia brasileira consegue impor: prazos de até 20 anos, carência de dois anos e juros de 1% a 3% ao ano. Para comparação, a taxa básica de juros brasileira, descontada a inflação, está em 8% ao ano.
O ponto mais revelador é a fonte de recursos que a bancada gaúcha quer usar: o Fundo Social do Pré-Sal. Ou seja, o dinheiro da educação e da saúde, que constitucionalmente deveria financiar o desenvolvimento social, seria redirecionado para cobrir dívidas de produtores rurais, muitos dos quais são grandes exportadores com ganhos cambiais, benefícios oriundos da Lei Kandir e preços de commodities em alta real de 62,4% desde 2000.
A perversidade do arranjo político gaúcho não está na invenção do mecanismo, mas na construção de uma narrativa que transforma a socialização de perdas em imperativo moral. Nas audiências públicas, a securitização não é apresentada como benefício econômico, mas como questão de vida ou morte: produtores que se suicidam por não conseguirem pagar dívidas, famílias que perdem tudo, a soberania alimentar do país em risco. A mensagem é clara: quem se opõe à socialização da perda é responsável por tragédias humanas.
7. Conclusão
A bancada ruralista pós-2026 tende a manter ou ampliar sua força, com poder deslocado para o Senado e presença consolidada na Câmara. Sua geografia acompanha a fronteira agrícola: núcleo duro no Centro-Oeste e Matopiba, base consolidada no Rio Grande do Sul, ramificações de peso em Goiás, Minas Gerais e Paraná, representação marginal em outros estados. A migração sulista e a transposição do São Francisco podem ampliar esse alcance, mas de forma lenta e desigual.
O ponto central não é origem étnica nem folclore regional. É um arranjo institucional que premia alavancagem e organização política. O que no café era exceção e no açúcar era “golpe do aval”, no agronegócio gaúcho se tornou sistema: uma bancada coesa, uma narrativa moralmente blindada e uma máquina de pressão política que opera em escala industrial. A socialização da perda não é acidente. É método. E a pergunta que resta, historicamente, é sempre a mesma: quem paga a conta quando a dívida não é honrada? A resposta continua sendo, o contribuinte, é claro.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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