28 de outubro de 2026

As ruas não têm algoritmos, por Iara Vidal

O Exército de Lula reuniu milhões de brasileiros e brasileiras em uma grande mobilização pela democracia e pela soberania nacional.
Lula por Ricardo Stuckert

Lula foi eleito para seu quarto mandato presidencial após mobilização popular contra a extrema direita no Brasil.
O Congresso terá maioria conservadora, o que exigirá negociações para aprovar leis e avançar em reformas.
A força popular nas ruas superou influências de algoritmos e big techs, reafirmando a importância da organização coletiva.

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As ruas não têm algoritmos, por Iara Vidal

Povo organizado e mobilizado garante a vitória de Lula contra tudo e contra tantos e mostra ao mundo a força da classe trabalhadora quando se une e ocupa as ruas

Aqui na China, meu coração se enche de orgulho e minha alma transborda de esperança com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito para seu quarto mandato como presidente da República. Contra tudo e contra tantos, nosso povo mostrou ao mundo que as ruas não têm algoritmos.

Para derrotar o fascismo e o poder do dinheiro, precisamos lembrar que nossa força está na capacidade de organização, no diálogo olho no olho e na convicção de que somos nós, o povo, que construímos nossa própria história. Nenhuma nação deve aceitar qualquer forma de submissão a outra.

E foi com o nosso jeito brasileiro, com nossa alegria, nossa música e nosso amor pela vida, que vencemos esta batalha.

O Exército de Lula reuniu milhões de brasileiros e brasileiras em uma grande mobilização pela democracia e pela soberania nacional. Mulheres, homens, jovens e idosos. Trabalhadores, estudantes, movimentos sociais e organizações populares. Gente que decidiu tomar as rédeas do próprio destino e ocupar as ruas, as praças e as redes.

Uma mobilização que enfrentou o imperialismo estadunidense, a Doutrina Donroe, os oligarcas do Vale do Silício, a máquina internacional da extrema direita e uma seita política que dividiu o país e conseguiu fazer adultos supostamente funcionais rezarem para pneus, beberem detergente, enrolarem-se na bandeira dos Estados Unidos, pedirem ataques nucleares contra o próprio povo e vandalizarem as instituições da República.

Uma lista interminável de absurdos que deveriam existir apenas nos roteiros dos filmes de terror, mas que se tornaram parte da realidade brasileira.

Até o dia da votação foi marcado por dificuldades de acesso às urnas, denúncias de obstáculos ao exercício do voto e episódios de violência política. Na véspera, o país já havia registrado mortes em circunstâncias de possível motivação política.

Mas, apesar de tudo, o povo brasileiro compareceu às urnas e fez valer sua vontade.

E, sob a liderança de Lula, vencemos!

Vencemos uma eleição duríssima. Lula, que havia terminado o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, protagonizou uma virada histórica e conquistou seu quarto mandato presidencial.

Mas sabemos que derrotar a extrema direita nas urnas não significa derrotar o projeto político que ela representa.

Como nos alertou Bertolt Brecht, a cadela que pariu o fascismo continua no cio. Na América Latina, conhecemos bem o significado dessa advertência. A história do nosso continente é marcada por golpes de Estado, ditaduras, intervenções estrangeiras e sucessivas tentativas de submeter nossos povos aos interesses das grandes potências.

Por isso, não podemos confundir uma vitória eleitoral com o fim da luta.

O desafio de Lula diante do novo Congresso

Lula toma posse em 5 de janeiro de 2027. Menos de um mês depois, em 1º de fevereiro, começa uma nova legislatura no Congresso Nacional. E o raio-X de sua composição é um pesadelo para o campo progressista.

A situação política brasileira permanece complexa. Lula venceu a eleição presidencial, mas a extrema direita e os setores conservadores continuam com enorme força no Legislativo.

Na Câmara dos Deputados, que tem 513 cadeiras, o Partido Liberal (PL), de Bolsonaro, conquistou 121 vagas, o equivalente a 23,6% da Casa. O Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, elegeu 70 deputados, ou 13,6%. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, terá 88 parlamentares.

No Senado, composto por 81 cadeiras, a projeção atualizada indica uma bancada de 29 senadores para o PL, aproximadamente 35,8% do total, contra dez do PT, cerca de 12,3%.

O PL é a principal legenda do bolsonarismo, mas nem todos os políticos conservadores pertencem à extrema direita. A direita, em seu conjunto, tem uma influência ainda maior do que os números de um único partido permitem enxergar.

Isso significa que Lula não poderá governar sozinho. Precisará negociar com outras forças políticas para aprovar leis, garantir recursos orçamentários, preservar programas sociais e avançar nas reformas necessárias ao desenvolvimento do país.

Um Congresso conservador poderá bloquear propostas do governo, impor dificuldades à agenda progressista e ampliar a pressão sobre políticas públicas voltadas à classe trabalhadora.

A vitória presidencial, portanto, não encerra a disputa pelo poder. Pelo contrário: inaugura uma nova etapa.

A extrema direita perdeu a Presidência da República, mas continua instalada em posições estratégicas do poder político brasileiro.

E é justamente por isso que a mobilização popular não pode terminar com a apuração das urnas.

A força das ruas contra o poder dos algoritmos

A eleição brasileira ultrapassou os limites de uma disputa convencional entre dois candidatos. Foi uma batalha em torno da democracia, da soberania nacional, dos direitos da classe trabalhadora e do próprio futuro do Brasil.

Lula enfrentou uma poderosa oposição conservadora, as pressões de Donald Trump, a influência das big techs, das elites financeiras e de setores econômicos que disputam os rumos da política brasileira, incluindo a indústria das apostas online.

Não podemos ignorar o papel das grandes plataformas digitais na formação da opinião pública, na circulação de informações e na construção de narrativas políticas. Empresas como Meta, Google e outras gigantes da tecnologia concentram um poder extraordinário sobre os ambientes em que milhões de brasileiros se informam, conversam e organizam suas vidas.

Os algoritmos determinam o alcance das publicações, influenciam o que vemos e ajudam a moldar nossas percepções da realidade. O dinheiro financia campanhas, estruturas de comunicação e estratégias de influência.

Mas existe uma força que não cabe inteiramente nas fórmulas matemáticas dessas plataformas.

As ruas não têm algoritmos.

Nas ruas, as pessoas se encontram, conversam, reconhecem suas dificuldades comuns e descobrem que não estão sozinhas. A organização popular transforma indignação em ação coletiva. O diálogo olho no olho rompe o isolamento produzido pelas bolhas digitais.

Foi essa força que vimos crescer durante a campanha. Trabalhadores mobilizados, estudantes, movimentos sociais, artistas, intelectuais, organizações sindicais e milhões de cidadãos dispostos a defender o direito de decidir o futuro do próprio país.

A luta pelo fim da exaustiva escala de trabalho 6×1 é um exemplo dessa capacidade de organização. Uma reivindicação que parte das condições concretas de vida dos trabalhadores e coloca no centro do debate nacional o direito ao descanso, à convivência familiar e à dignidade.

A disputa não acontece apenas nas urnas. Acontece nos locais de trabalho, nas universidades, nas comunidades, nas organizações populares e nos espaços públicos.

E precisa continuar acontecendo.

A reeleição de Lula reafirma algo fundamental: o futuro de uma nação não pode ser decidido exclusivamente pelos bilionários, pelos mercados financeiros, pelos governos estrangeiros ou pelas plataformas digitais.

Os algoritmos podem influenciar o que vemos. O dinheiro pode influenciar a política. Mas nenhum deles é capaz de substituir a força coletiva de um povo consciente, organizado e mobilizado.

A vitória é nossa. A luta continua.

Daqui da China, acompanhei uma das mais impressionantes demonstrações de resistência e mobilização popular da história recente do Brasil.

Vi um povo que se recusou a entregar seu destino à extrema direita. Que transformou o medo em coragem, a indignação em participação política e a esperança em mobilização.

E penso no significado dessa vitória para os povos que, em diferentes partes do mundo, enfrentam ameaças autoritárias, pressões imperialistas e tentativas de subordinação de sua soberania.

A experiência brasileira nos lembra que não existe democracia sem participação popular. Não existe soberania sem independência política. E não existe justiça social sem a organização da classe trabalhadora.

Hoje é dia de celebrar, abraçar os camaradas, reconhecer a força da nossa mobilização e sentir orgulho da resistência do povo brasileiro.

Mas muitas outras batalhas virão. A extrema direita não desapareceu. O poder econômico continuará tentando impor seus interesses. E os desafios sociais e políticos de nosso país exigirão muito mais do que uma vitória eleitoral.

Amanhã, a luta continua.

Seguiremos vigilantes, organizados e comprometidos com a tarefa histórica de defender a soberania, ampliar os direitos sociais, enfrentar as desigualdades e garantir que as riquezas e o destino do Brasil pertençam ao povo brasileiro.

Precisamos manter viva essa imensa energia popular, fortalecer nossos movimentos e transformar a vitória das urnas em conquistas concretas para quem vive do próprio trabalho.

Porque aprendemos, mais uma vez, que a esperança não é uma espera passiva. É uma força política que se constrói na organização e na ação coletiva.

Mostramos ao mundo que as ruas não têm algoritmos. E que um povo organizado é capaz de fazer história.

Porque o Brasil não é quintal de ninguém. E a nossa soberania não está à venda.

Viva o povo brasileiro! Viva Lula! Viva o Brasil!

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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